Pierre Lévy e a cibercultura

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Resumo de “Cibercultura”, de Pierre Lévy (1999).

Segundo Pierre Lévy (1999), a definição de cibercultura depende da definição de ciberespaço. O ciberespaço, que também pode ser chamado de “rede”, é o meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. Como outros meios de comunicação, o ciberespaço deve ser concebido não apenas como uma infraestrutura material ou suporte tecnológico, mas como um conjunto de informações e de usuários que habitam esse espaço e o alimentam de informações. A cibercultura pode assim ser definida como “o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço” (LÉVY, 1999, p. 14).

A discussão sobre a possibilidade de uma cibercultura que sirva ao propósito da emancipação humana ou da dominação de uns sobre outros é o tema central da filosofia da cibercultura. Essa discussão como precursora a discussão sobre a tecnologia, a partir da publicação de A questão da técnica, em 1954. Neste ensaio, Heidegger argumenta que a natureza do conhecimento técnico-científico está inerentemente associada à dominação, e não à emancipação humana (HEIDEGGER, 2007).

Para Lévy (1999), a cibercultura é a expressão de uma nova forma cultural universal que difere das que a precedem – como a ciência, as religiões bíblicas e os direitos humanos – por ser constituída sob a indeterminação de qualquer sentido global ou totalizante. Isto é o que o autor chama de “universalidade sem totalidade”. Este conceito apresenta a cibercultura como um sistema aberto, no qual não há um modelo a ser seguido, mas sim a ausência de um modelo. O que há é a mudança constante e acelerada, tornando imprevisíveis os efeitos desse processo.

Lévy também chama isso de “segundo dilúvio”. A metáfora do dilúvio é usada como modo de afirmar que não é possível conter o fluxo de informações que inunda o mundo por meio das novas tecnologias. Diferente do dilúvio bíblico, este dilúvio não é temporário. “Devemos aceitá-lo como nossa nova condição. Temos que ensinar nossos filhos a nadar, a flutuar, talvez a navegar” (LÉVY, 1999, p. 11). Para Lévy e seus seguidores, não faz muito sentido se opor a esta realidade, pois ela toma conta da humanidade como um novo passo evolutivo. A crítica à cibercultura deveria então se limitar a mostrar quais as melhores vias de adaptação, evitando armadilhas e obstáculos, mas sem negá-la como um todo.

É preciso notar que o otimismo de Lévy em relação à cibercultura não implica numa apologia a um modelo empresarial, econômico, cultural ou político. Esta afirmação é sustentada pela distinção entre universalidade e totalidade. Não sendo um todo fechado, não há um conjunto excludente de valores sendo transmitidos pela cibercultura. Trata-se de uma estrutura integrativa, capaz de somar sem subtrair. Não é um jogo de soma zero.

Se por um lado o rápido crescimento da Internet está relacionado a interesses econômicos, voltados à expansão de mercado; por outro também depende de dinâmicas libertárias e comunitárias, que alimentam o processo de desenvolvimento da cibercultura. Este seria o aspecto ambivalente da técnica moderna. Dois lados aparentemente contrários passam a se complementar ao invés de se anular.

Usando uma imagem vinda da mitologia grega, Lévy chama a tecnologia de “fogo de Prometeu”. Prometeu teria roubado o fogo dos deuses para dar aos homens, ato que inaugura a ciência e a técnica, e ao mesmo tempo um crime pelo qual Prometeu é punido pela eternidade. Este personagem mitológico pode ser comparado à serpente do Éden, do mito bíblico. Porém, o Prometeu de Lévy é um co-criador da humanidade. O mundo humano é, ao mesmo tempo, um mundo tecnológico.

A tecnologia não pode ser considerada como uma entidade autônoma, separada da sociedade e da cultura. Estas duas, por sua vez, não são entidades passivas, determinadas pela ação da tecnologia. A tecnologia é parte do ambiente material humano, do qual este não pode ser separado. Assim como não pode ser separado do seu ambiente simbólico, dos signos e das imagens que usa para atribuir sentido às coisas.

A cultura enquanto dinâmica de representações se distingue da sociedade enquanto conjunto de pessoas e seus laços, trocas e relações. Estas duas também se distinguem da técnica enquanto conjunto dos artefatos materiais humanos. Não é possível afirmar que um fenômeno social qualquer seja causado pelo desenvolvimento técnico. A relação não é de causa e efeito (LÉVY, 1999).

O uso da energia nuclear, por exemplo, está relacionado à centralização, ao controle especializado, à rigidez das regras de segurança e ao planejamento de longo prazo. Por outro lado, a eletrônica é versátil o bastante para ser associada tanto a organizações com alto nível hierárquico quanto a organizações descentralizadas e com ampla distribuição de poder. Assim, Lévy distingue entre tecnologias que servem à escravidão e tecnologias que servem à emancipação. “As máquinas a vapor escravizaram os operários das indústrias têxteis do século XIX, enquanto os computadores pessoais aumentaram a capacidade de agir e de comunicar dos indivíduos durante os anos 80 de nosso século” (LÉVY, 1999, p. 19).

Com o conceito de “inteligência coletiva”, Lévy pretende demonstrar que a rede de computadores expressa os ideais de diversos tipos de pessoas, de artistas a cientistas, que desejam melhorar a qualidade da comunicação e da colaboração humana. Essas pessoas dão vida ao sistema informacional, produzindo um novo tipo de inteligência: uma inteligência distribuída. A inteligência distribuída possibilita produções intelectuais que antes seriam impossíveis. Um exemplo é o das obras colaborativas, como a Wikipédia, na qual diversos usuários contribuem para a criação de uma única enciclopédia, que é atualizada dinamicamente.

Por outro lado, é justamente esta característica que dificulta a descrição acurada das implicações sociais e culturais da informática. A informação, quando organizada em rede, se torna altamente instável. Mas esta instabilidade não é uma instabilidade passageira, nem sugere uma crise no sentido convencional. Ela é uma instabilidade sistêmica, que é absorvida pela civilização como um novo modo de ser. “A emergência do ciberespaço acompanha, traduz e favorece uma evolução geral da civilização” (LÉVY, 1999, p. 21).

As redes informacionais, mesmo sendo fontes de instabilidade, possibilitam um novo grau de autonomia. Se isso for verdade, significa que uma grande mudança ocorreu na estrutura da civilização. Ela se tornou fundamentalmente ambivalente. Isto quer dizer que seu movimento se tornou imprevisível. Se em algum momento a transformação da sociedade em direção a um estágio socialista ou comunista parecia ser o resultado previsível do desenvolvimento das forças produtivas, isso agora é colocado em dúvida.

Como se trata de uma síntese definitiva de contrários[1], a atual cultura civilizada tende a não descartar nada. Ela é integradora e indefinida. A civilização atual chama de volta para si o que um dia expulsou: a instabilidade, o hibridismo, o nomadismo, a descentralização. O mesmo progresso dos meios técnicos que um dia possibilitou esse afastamento, agora possibilita a reintegração desses elementos.

A técnica é produzida dentro da cultura, condicionando a sociedade. A prensa de Gutenberg, por exemplo, foi uma das condições da reforma protestante, do desenvolvimento da ciência moderna na Europa, da propagação dos ideais iluministas e do fortalecimento da opinião pública. Do mesmo modo, a técnica também pode restringir possibilidades e tornar inúteis práticas anteriores.

A técnica não pode ser considerada neutra, já que é um produto de uma cultura e que pode criar ou restringir possibilidades. No caso da rede de computadores, não se pode afirmar que ela só sirva ao interesse do poder dominante, pois “também responde aos propósitos de desenvolvedores e usuários que procuram aumentar a autonomia dos indivíduos e multiplicar suas faculdades cognitivas” (LÉVY, 1999, p. 19-20). Relacionando essa afirmação ao esquema acima, podemos afirmar que a rede é tanto o produto de uma cultura que almeja a autonomia quanto o condicionante de um processo de autonomização em relação a pelo menos uma variável, que é o conhecimento.

Mas nesse caso se trata de um meio em que as trocas ocorrem numa velocidade tão rápida e têm um alcance tão extenso que mesmo passando vinte e quatro horas por dia tentando acompanhar todos os movimentos, é impossível compreender tudo que está acontecendo. É impossível não ficar para trás, não ser atropelado pelo fluxo de informações, e não ficar perdido com a quantidade de experiências cognitivas ocorrendo na rede. A inteligência coletiva, associada à sinergia das partes e à distribuição de poder, supera a inteligência individual.

Entre os fenômenos que marcam a inteligência coletiva, destacamos a capacidade de constituição e manutenção dinâmica de memórias compartilhadas. Os usuários a produzem ao compartilhar suas experiências, conhecimentos e memórias de modo fragmentado, possibilitando que outros se apropriem daquela informação como se esta fosse uma contribuição para uma memória comum. Os trechos de cada biografia são lidos separadamente do todo e as diversas biografias passam a ser constituídas desses elementos comuns. Neste processo retroativo de constituição da memória não há simples fusão de perspectivas, mas sim interferências mútuas sobre episódios isolados. Este conceito descreve os discursos comuns entre usuários da Internet.

Lévy reconhece que o desenvolvimento do ciberespaço não determina necessariamente o desenvolvimento da inteligência coletiva. Nele também surgem formas indesejáveis. Entre elas, o controle centralizado da rede por potências econômicas; a exploração do trabalho por meio da vigilância constante do trabalhador; a produção massiva de estímulos que geram dependência; e a enxurrada de dados imprecisos e falsos, propagados de modo intencional ou não.

Apesar disso, Lévy sugere que a solução para estes efeitos indesejáveis está na própria cibercultura. A velocidade e a instabilidade da mutação constante da técnica seriam contrabalanceadas pelos aspectos emancipadores e integradores da cibercultura. Ao mesmo tempo, são esses aspectos que aceleram o movimento, produzindo, aparentemente, uma retroalimentação positiva. É um processo que alimenta a si mesmo, crescendo exponencialmente.

A inteligência coletiva que surge na cibercultura é como o “novo pharmakon”, um remédio e ao mesmo tempo um veneno. Ela aprofunda a doença que cura, e alivia a doença que causa. Em outras palavras, gera exclusão pela nossa incapacidade de apreendê-la, e inclusão para dificuldade de ser controlada por agências reguladoras.

Notas:

[1] O esquema hegeliano “tese, antítese e síntese” prevê que toda síntese é uma nova tese a ser negada por uma nova antítese, exceto pela síntese definitiva. Esta não pode ser negada, pois é o fim das contradições possíveis, o fim do conflito entre contrários, ou seja, o fim da história.

Referências:

HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. Scientiæ studia, São Paulo, v. 5, n. 3, p. 375-98, 2007.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.


Autor: Janos Biro

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