A sociologia de Weber

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Um resumo da sociologia de Max Weber.

Embora o método de Weber seja comumente pensado como contraposto ao de Marx, seu método sociológico está em diálogo com Durkheim e a sociologia francesa, numa tentativa de responder ao método positivista e inverter o foco principal para o sentido subjetivo da ação social. Este sentido subjetivo não é algo dado. Ele depende de uma análise das relações sociais. Além do conceito de ação social, a ação em relação ao outro, alguns conceitos importantes de Weber são: afinidade eletiva, tipos ideais, desencantamento, esferas sociais e burocracia.

Weber, assim como Marx e Durkheim, está analisando o advento da modernidade, que para ele é caracterizada como a burocratização e a racionalização das relações sociais. O princípio de análise é a interação entre os agentes, sendo que o sujeito determina o objeto. A teoria é racional e o método é compreensivo. Para Weber, a história não tem sentido imanente, ela é aberta e não naturalizada. A política é uma luta entre equivalentes, e é voluntarista. O Estado é um aparelho burocrático sem conteúdo político próprio. Seu ideal de sociedade é liberal progressista, e ele acredita na reforma como meio de atingir esse ideal.

Diferente de Durkheim e Marx, Weber não se foca na estrutura ou na visão global da sociedade. Ele se foca no indivíduo enquanto sujeito da ação social, e não exatamente na realidade histórica do objeto. Pois nenhum conceito pode ser totalmente definido, só é possível ter uma noção geral. Portanto, se trata de compreender interpretativamente um aspecto da sociedade, tendo em vista que a realidade não é permanente, está sempre mudando.

Para Weber, toda ação tem um sentido próprio. Este sentido é internalizado na crença e externalizado na ação. Esse sentido não é reconhecido segundo regras definidas, mas interpretado segundo relações causais. A ação se volta para a relação com outro, o que significa que há uma dependência mútua. A realidade é sempre maior que a teoria, nossa compreensão dela é sempre parcial. O sociólogo seleciona aspectos da realidade social para estudar. Weber não apresenta conceitos fechados, mas sim conceitos em desenvolvimento.

Assim, é preciso diferenciar as afinidades eletivas das relações causais. Ambas são ferramentas para entender aspectos da realidade, mas são diferentes. A afinidade eletiva representa a influência mútua entre aspectos bastante diferentes da realidade, e a relação causal é uma relação mais direta. Outra ferramenta para compreender a realidade é o tipo ideal. Tipos ideais são proposições ideais criadas para medir fenômenos reais, de modo a facilitar as comparações.

A base filosófica de Weber é a filosofia kantiana e alemã, e o contexto cultural é o alemão. A visão de mundo de Weber é de que a natureza e a origem das atitudes dos indivíduos são modificadas ou afetadas pelas atitudes de outros indivíduos. Assim, é preciso entender o papel do indivíduo na sociedade e como este indivíduo produz o sentido de sua ação. Existe uma relação mútua de produção e reprodução de sentido social. A sociedade é um complexo integrado de ações sociais.

Weber se preocupou com o fenômeno da racionalidade na modernidade. Ele classificou a realidade social nas seguintes esferas: econômica, política, intelectual, estética, erótica e religiosa. Na sociedade tradicional, a esfera religiosa dominava sobre as outras. Na modernidade ocorre uma autonomização das esferas sociais, o que altera a lógica interna de funcionamento da sociedade. Fenômenos como o capitalismo, a democracia, a ciência, a arte moderna e o prazer superam a dominação religiosa. Porém, essa autonomização é relativa, pois a esfera religiosa continua influenciando as outras de certo modo. As atitudes dos indivíduos são irregulares, o complexo social é infinito e emaranhado, sem ordenação prévia.

Weber distingue quatro tipos ideais de ação social: A racional com relação a fins, a racional com relação a valores, a afetiva e a tradicional. O tipo predominante na modernidade seria a ação racional com relação a fins. As duas primeiras são ações racionais, e por tanto representam relações sociais associativas. As duas últimas são ações não racionais, e representam relações comunitárias. Logo, se distingue o tipo de relação entre comunitária e associativa, sendo estas são representadas respectivamente pela pessoalidade e pela impessoalidade das relações.

É importante frisar que estas distinções servem apenas para explicar um fenômeno, que na realidade quase sempre se apresenta como uma mistura de características de dois ou mais tipos ideais. Assim, por exemplo, também existe um elemento não racional na ação economicamente orientada. Na modernidade, a esfera econômica acaba gerindo outros tipos de associação, além daquelas voltadas primariamente para a economia. A proeminência de ações racionais com fins econômicos significa a racionalização da sociedade, que é o desencantamento do mundo. É a remoção do aspecto mágico do mundo que funcionava como obstáculo para o progresso capitalista.

O desencantamento ocorre tanto por meio da própria religião quanto por meio da ciência. Quando a religião é jogada para o reino da irracionalidade, perde o sentido que permeava as ações. Weber distingue três tipos de dominação: a racional, a tradicional e a carismática. A modernidade é caracterizada pelo domínio racional, que se deu no processo de burocratização do poder. Dominação é a probabilidade de encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo. Disciplina é a probabilidade de encontrar obediência pronta, automática e esquemática a uma ordem entre uma pluralidade indicável de pessoas, em virtude de atividades treinadas.

Na modernidade existe uma dominação econômica, porém nem toda dominação moderna é econômica ou racional. A submissão pressupõe crença e valor. As mudanças na constituição, por exemplo, pressupõem a crença na constituição. Quanto à dominação tradicional, ela não funciona com base na legitimação, mas sim na sacralidade das tradições. A dominação carismática quebra a ordem cotidiana e tradicional, e se baseia na crença sobre o carisma de um indivíduo. A dominação carismática tende a ser temporária, levando a outra ordem racional ou tradicional.

A dominação indireta é aquela exercida de modo impessoal, pela obediência ao direito estatuído. A dominação legal é racional, se volta à precisão e ao rendimento. A burocracia seria a melhor forma de poder na modernidade. Já a dominação tradicional coloca o senhor acima das regras, e se trata de uma dominação direta. A dominação carismática é afetiva e funciona sem rotina, sem instituições fixas e é alheia à economia.

Diferente de Marx, Weber não pensa que o conflito de classes seja o motor da história. Ele pensa em estratos sociais separados por critérios objetivos. Para Weber, essa objetividade representa também uma neutralidade necessária à ciência social. O uso de tipos ideais não compromete a objetividade. Ao contrário, tipos ideais são instrumentos metodológicos que ajudam a compreender a realidade por meio de proposições que devem ser confirmadas na experiência. Representa um quadro de pensamento, e não a realidade como ela é. Não é hipótese nem média, mas um meio de obter conhecimento.

Em Ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber faz uma interpretação racional do credo calvinista. Seu objetivo é interpretar o sentido das práticas de um viver religioso. Práticas que recorrem à aquisição de capital como forma de obtenção de indicativos de eleição por parte de Deus. Com a secularização, a prática do aumento das posses permanece, mas se torna um fim em si mesmo. Weber também acaba analisando um contexto bem mais amplo. Fala da transformação do camponês em operário, das crenças no valor do trabalho como forma de dignificar a vida humana, e consequentemente da entrada no capitalismo moderno, que abandona a ética protestante, mas preserva algo dela, que é a virtude profissional.

“E se apesar de tudo empregamos provisoriamente aqui a expressão ‘espírito do capitalismo (moderno)’ para designar aquela disposição que nas raias de uma profissão de forma sistemática ambiciona o ganho (legítimo e racional), tal como ilustrado no exemplo de Benjamin Franklin, isso se deve à razão histórica de que aquela disposição encontrou sua forma mais adequada na empresa capitalista (moderna), e a empresa capitalista, por sua vez, encontrou nela sua força motriz espiritual mais adequada” (WEBER, 2004).

A sociologia weberiana é fundamental para o entendimento dos fenômenos sociais como provenientes de “disposições” dos indivíduos, e da relação estreita entre fenômenos como a economia capitalista e as crenças que dão sentido às ações sociais.

Referências:

WEBER, Max. Economia e sociedade. Vol. 1. Brasília: Ed. UNB, 1991, p. 3-35.

WEBER, Max. Ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2004.

Autor: Janos Biro

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