A destruição da educação

É possível destruir as condições de possibilidade da educação? Este ensaio discute algumas questões complexas sobre precarização do ensino e das interações sociais.

Em “O fim da educação”, Neil Postman (2002) afirmou que “a educação pública não serve um público, cria um público”. Levando a sério essa afirmação, podemos dizer que a privatização e mercantilização do ensino não apenas prejudicam o ensino público como destroem as condições de possibilidade da educação no seu sentido mais amplo. 

A educação pública tem um papel fundamental na formação do espaço público. Ela começa a perder esse papel quando a pressão por resultados quantificáveis e individuais aproxima a avaliação pedagógica da lógica do mercado de trabalho e transforma a educação em “empreendedorismo”.

As escolas hoje estão engajadas num discurso da autonomia semelhante àquele presente em setores do trabalho flexível. Quem educa passa a assumir mais riscos e responsabilidades, sendo necessário adaptar-se a novas técnicas e tecnologias para “vender seu produto” e tornar seus resultados mais visíveis.

A cultura de consumo internaliza desejos por meio das ferramentas de “autonomização” do indivíduo. As redes sociais são o maior exemplo disso. À primeira vista, elas são uma criação coletiva, uma base neutra onde as pessoas imprimem o que desejam, criando conexões e afinidades espontâneas. Num segundo olhar, percebemos que essas ferramentas não são neutras. Esses espaços são privados e estão sendo dirigidos por empresas com o objetivo final de gerar lucro, servindo muito mais aos objetivos de anunciantes do que da sociedade como um todo. As redes sociais transformam as interações em oportunidades de negócio por meio de diversas técnicas de direcionamento da visibilidade, hoje reguladas por mecanismos cada vez mais automatizados: os algoritmos.

Os algoritmos são programados para produzir subjetividades que desejam consumir de modo cada vez mais espetacular, isso é, com cada vez menos criticidade. Eles se aproveitam do desejo por reconhecimento social e o direcionam para personalidades que representam o tipo de subjetividade que se quer produzir. As celebridades são as personalidades “em alta no mercado da visibilidade”. A aparente liberdade é limitada à escolha de lógicas de interação que gerem maior visibilidade. O segredo é fazer as pessoas acreditarem que estão agindo espontaneamente e sem nenhum outro interesse, enquanto estão realmente lutando por reconhecimento social. Os mecanismos empregados para fazer determinada subjetividade se tornar alvo da atenção pública ficam ocultos. Essas técnicas foram propostas por Edward Bernays em 1928, numa obra fundante da teoria publicitária, chamada Propaganda:

“A manipulação consciente e inteligente dos hábitos organizados e das opiniões das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder governante do nosso país. Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos formados e nossas ideias sugeridas, em grande parte por homens dos quais nunca ouvimos falar. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público.” (BERNAYS, 2005).

As subjetividades aparentemente autônomas são construídas combinando diferentes elementos, formando um mosaico que não se encaixa em categorias fixas. A identidade pós-moderna, como foi descrita por Stuart Hall (2004), é caracterizada pela multiplicidade, fluidez e  impermanência. O objetivo do algoritmo não é encaixar as pessoas em categorias fixas, mas sim direcionar os fluxos gerados pelas múltiplas combinações desses elementos. O fluxo se torna complexo demais para ser compreendido e previsto. É nesse contexto que a educação, limitada à previsibilidade e compreensão crítica do seu próprio processo, se torna cada vez menos relevante no processo de formação das subjetividades.

A sala de aula deixa de ser um espaço de transformação social. Tanto educadores quanto educandos deixam de ser sujeitos do conhecimento. A autonomia é percebida como resultado da reprodução de técnicas eficientes para produzir maior visibilidade. As mediações são invisibilizadas e os sujeitos do conhecimento se tornam impessoais. O novo sujeito do conhecimento é o próprio algoritmo, pois é ele que dita o que deve ser reproduzido ou não.

O acesso à Internet produz a sensação de que o conhecimento está facilmente acessível: basta jogar no Google. A construção coletiva de saberes num espaço presencial é substituída pela construção aparentemente livre e individual que ocorre na internet. A escola deixa de ser um local de aprendizado coletivo, e o principal desafio das pessoas que trabalham com educação passa a ser evitar a evasão escolar.

A participação na aula, que antes era proibida e depois passou a ser libertadora, agora é entediante. Quando o reconhecimento pode ser quantificado e comparado, a autoestima passa a depender da visibilidade. A escola vai deixando de ser um local de socialização onde o processo educacional ocorre de modo cooperativo. A colaboração é trocada pelo holofote. A lógica do mercado invade a lógica da interação escolar, tornando o ato de educar algo cada vez mais sem sentido. Nos EUA, 55% dos educadores pensam em desistir da profissão. Estresse e sobrecarga são os principais fatores. No Brasil, se observa algo parecido em meio a um imenso aumento da presença de militares ocupando cargos no ministério da educação.

A pressão de ter que apresentar seu conteúdo de modos cada vez mais instigantes e chamativos recai sobre todos os indivíduos, em todas as interações. Na medida em que as pessoas voltam a se encontrar presencialmente depois de um isolamento social acentuado pela pandemia de 2019, o que se observa não é uma renovação da disposição para conversar, mas o exato oposto: uma intolerância ou aversão ao diálogo. O isolamento potencializou o autocentramento e naturalizou os critérios de inclusão/exclusão usados para interação no ciberespaço, que são agora aplicados na interação presencial. Nos acostumamos a escolher exatamente o que queremos ouvir, então ouvir alguém com uma ideia diferente ou complexa se torna cada vez mais insuportável.

Isso pode ser observado, por exemplo, na popularidade das “técnicas para puxar conversa”, técnicas de manipulação de mecanismos inconscientes para aumentar a efetividade das interações. Toda conversa se torna um jogo competitivo. Uma pessoa deve criar um truque para poder iniciar uma conversa com alguém, e sabotar outra pessoa que tenha um truque melhor para não ser descartada. Quem não consegue atenção se sente censurado quando seu conteúdo é problematizado ao invés de curtido e compartilhado.

O problema é que as técnicas para atingir pessoas tendem a se desgastar numa velocidade cada vez maior. Falta investigar melhor os mecanismos que tornam as interações desinteressantes num tempo cada vez menor. A tendência expressa pelo conceito de “cringe”, por exemplo, é rejeitar qualquer coisa que possa ser compreendida por quem está fora do seu grupo social. Não compartilhar os códigos comunicacionais aumenta a vantagem no jogo da visibilidade. Este mecanismo de alienação social também sabota as condições de possibilidade da educação. As teorias pedagógicas atuais travam uma “corrida armamentista” contra os mecanismos negacionistas criados para deslegitimar ou inviabilizar os métodos educacionais. Essa corrida está sendo vencida pelo algoritmo, porque a exigência de compreender criticamente o que estamos fazendo nos coloca em desvantagem em relação àqueles que estão apenas “vendendo seus produtos”.

Uma evidência disso é o esforço em assimilar novas técnicas pedagógicas cada vez mais rápido. Hoje, pedagogos discutem especialmente o uso de novas tecnologias: “Robótica, gamificação, fóruns, ambientes virtuais e aplicativos”. Essa busca em si não é problematizada. O tempo que se gasta para dominar um novo método é superior ao tempo necessário para criação de novas resistências a esses métodos, e isso está diretamente relacionado à automatização da produção de novas subjetividades que visam o consumo acelerado de informação. Por mais criativas que sejam, as técnicas pedagógicas perdem a eficácia cada vez mais rápido. É impossível acompanhar a velocidade do processo automatizado de criação de novas subjetividades. Profissionais da educação sentem-se, com razão, lutando contra o inevitável colapso das condições de existência da educação formal e da escola como espaço de aprendizado coletivo.

Assimilar novos conceitos e técnicas é uma falsa solução. Isso funciona para criadores de discursos motivacionais, que surgem e desaparecem cada vez mais rápido, gerando oportunidades de renda para uma elite de personalidades midiáticas. É um esquema de pirâmide: poucos sucessos para um número cada vez maior de fracassos. A mesma lógica, ao invadir a interação cotidiana, transforma conversas despretensiosas em peças publicitárias de “branding pessoal”. A consequência é o aumento do abismo interacional. Os teóricos que falam sobre isso geralmente são acusados de serem lamentadores nostálgicos. Mas a questão não é tão simples. A precarização da interação social é uma consequência do avanço tecnológico e dos valores culturais instigados pelo capitalismo tardio.

A destruição da educação ocorre de modo muito mais sutil que outras formas de precarização. Estamos prontos para encarar o possível colapso da educação formal como ferramenta para a mudança social? Em conjunto com o aumento da violência e a recessão econômica, a precariedade educacional potencializa o crescimento do autoritarismo, do conservadorismo e do fundamentalismo religioso. Analisar a relação entre esses elementos pode ser crucial para evitar o agravamento desse cenário.

Referências:

BERNAYS, Edward L. Propaganda. Ig publishing, 2005.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 9ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

POSTMAN, Neil. O fim da educação: redefinindo o valor da escola. Rio de Janeiro: Graphia, 2002.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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