Distorções sobre o conceito de racismo

Este ensaio comenta alguns exemplos de distorção do conceito de racismo em publicações jornalísticas no Brasil.

No dia oito de outubro de 2021, o jornal Folha de S.Paulo publicou um artigo chamado Uma ilusão de cor, onde Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana, procura argumentar que a escravidão não foi racista:

“Escravidão e racismo são fenômenos distintos – e até certo ponto contraditórios. (…) O discurso identitário que divide a sociedade em raças e acusa o contingente ‘branco’ da população de ser coletivamente responsável pelo crime da escravidão não erra apenas historicamente. No plano político, a acusação (i)moral semeia rancores sociais que fertilizam o solo no qual cresce a erva venenosa do racismo” (MAGNOLI, 2021).

Para Magnoli, a escravidão foi um sistema econômico, não um sistema de dominação racial. Ele considera a escravidão moralmente condenável porque ela desumaniza pessoas, mas considera que ela ocorreu independente da cor. O racismo teria surgido justamente quando a escravidão acaba, para “circundar o princípio da igualdade natural entre os seres humanos e subjugar pessoas juridicamente livres” (MAGNOLI, 2021). 

Apesar de não negar a existência do racismo ou a necessidade de combatê-lo, a tentativa de desvincular o racismo do fenômeno histórico da escravidão procura deslegitimar a ideia de dívida histórica e, com isso, atacar a fundamentação das políticas afirmativas. Usando uma linguagem mais acadêmica, o conservador Magnoli acaba chegando ao mesmo ponto que a ultraliberal Ayn Rand: ambos rejeitam o conceito de racismo estrutural e buscam fundamentar uma teoria que invalide a luta antirracista.

Numa das respostas a esse artigo, Virgínia Fontes, Douglas Barros e Felipe Demier (2021) explicam que uma análise histórica da escravidão não pode separar a dimensão econômica da dimensão étnico-racial, e consideram Magnoli como um negacionista. Para as autoras, o objetivo político de Magnoli é enfraquecer a luta antirracista como aliada contra as desigualdades sociais criadas ou mantidas pelo capitalismo.

O negacionismo de Magnoli se funda numa má compreensão do conceito de raça. Sua crítica de que o discurso “identitário” divide a sociedade em raças não se baseia em nenhuma evidência ou argumento forte. O discurso sobre o conceito de raça precisa considerar que, diferente do conceito biológico de raça, que é extremamente controverso, o conceito sociológico de raça é crucial para se compreender a história da opressão. O racismo se reproduz, por exemplo, na ideia de que os povos colonizados estão num estágio inferior do desenvolvimento cultural ou moral, e que cabe às culturas “mais desenvolvidas” o papel de educar e civilizar essas culturas.

Magnoli ficou conhecido ao atacar as políticas afirmativas, em especial a política de cotas raciais. Num livro chamado Uma gota de sangue: história do pensamento racial, ele acusa as políticas afirmativas de contradizer o princípio iluminista da igualdade entre os “homens” (sic), e sugere, no lugar delas, a política de cotas sociais.

“Ações governamentais que dividem o povo por meio da raça são essencialmente suspeitas, pois tais classificações promovem noções de inferioridade racial e conduzem a políticas de hostilidade racial; reforçam a crença, sustentada por tantos durante tanto tempo de nossa história, de que os indivíduos devem ser avaliados pela cor da sua pele; endossam argumentações baseadas na raça e a concepção de uma nação dividida em blocos raciais, contribuindo desse modo para uma escalada de hostilidade racial e conflito” (MAGNOLI, 2015, p. 135).

Segundo o historiador Rodrigo Nagem (2021), a historiografia “é praticamente unânime em afirmar que uma das principais especificidades históricas da escravidão moderna foi, justamente, engendrar um sistema de dominação racial”. A escravidão é tanto processo econômico quanto de dominação racial:

“Com isso, procuramos defender a análise histórica contra os ataques de ideólogos como Narloch, que nega o próprio caráter estrutural das relações escravistas, reduzindo-as a uma contingência ‘de época’ na qual as exceções ganham o mesmo peso explicativo das regras” (NAGEM, 2021).

A metodologia usada por negacionistas como Demétrio Magnoli e Leandro Narloch, autor do Guia politicamente incorreto da história do Brasil (2009), não é apenas equivocada, ela é um ataque deliberado ao avanço dos direitos humanos no Brasil. Deveria ser uma vergonha para qualquer instituição ter pessoas assim como colunistas, mas o fato de que eles ainda são considerados como intelectuais, e suas obras são vendidas normalmente em livrarias, apenas demonstra o grau de institucionalização da desinformação sobre o racismo.

Para citar um outro exemplo, A Gazeta do Povo publicou um artigo com argumentos semelhantes, escrito por Paulo Cruz, que tem formação em filosofia e ciências da religião. Cruz rejeita o conceito de genocídio negro e de racismo estrutural, considerando estes como discursos ideológicos e não como conhecimento válido, e relacionando o uso deles no meio acadêmico a um vício dos “intelectuais modernos”.

Este negacionismo histórico está relacionado à rejeição do conceito de privilégio branco. Pessoas brancas não precisam lutar pelo reconhecimento da sua identidade racial, pois são consideradas como sujeito universal, assim como “homem” sempre foi sinônimo de “humano”, mas não “mulher”. A diversidade humana causa estranheza numa sociedade que reforça um padrão totalizante de humanidade. O discurso ideológico se sustenta no apagamento das diferenças e privilégios socialmente normalizados.

Ao atacar o conceito crítico de racismo, esses ideólogos surfam nas paixões dos leigos ao invés criar reflexão. São considerados referências para quem acredita em teorias da conspiração anticomunistas e teoria da substituição (que trata a raça branca como em risco de extinção), ou acha que a militância antirracista se baseia em moralismo e conceitos mal fundamentados. Tais pessoas geralmente dizem que a “realidade dos fatos”, a “ciência” e a “lógica” refutam o pensamento antirracista. Isso é uma inversão da realidade. Ao invés de dialogar com as fontes, esses teóricos escolhem agradar um público inerentemente racista.

A estratégia de pessoas como Magnoli e Cruz é silenciar o discurso antirracista ao distorcer o conceito de racismo e negar a relação entre economia política e racismo. Tanto a redução do racismo a uma questão moral quanto a uma questão econômica apaga a historicidade do racismo.

Recentemente, Christopher Quarles (2022) publicou um artigo chamado O uso de ‘privilégio branco’ torna as discussões online mais polarizadas e menos construtivas, onde ele cita estudos sobre o ruído causado pelo simples uso do termo “privilégio branco” e sugere que usar um termo como “injustiça racial” é mais eficiente para fazer pessoas brancas apoiarem políticas afirmativas. O artigo não está criticando o conceito de “privilégio branco” em si. Ele parte do pressuposto de que uma conversa sobre racismo tem “maior qualidade” quando causa “menos hostilidade das pessoas brancas”. Mas é preciso questionar por que as pessoas brancas reagem de modo tão hostil a esse termo, se de fato o privilégio branco é real.

Segundo Ella Bell e Stella Nkomo (2003), “a maioria dos estudiosos das relações raciais abraça o uso do [conceito de] privilégio branco”. Sociólogos relatam que nos Estados Unidos a ideia de “privilégio branco” é aceita por 59% dos entrevistados brancos, 83% dos negros e 84% dos hispânicos.

O conceito de privilégio branco surgiu para destacar as vantagens implícitas ou sistêmicas que as pessoas consideradas brancas têm em relação às pessoas que não são consideradas brancas, independente de outras diferenças, como classe e gênero, o que não implica em ignorar essas diferenças. Ele apenas destaca as diferenças raciais nos contextos apropriados. Por isso, “privilégio branco” não é equivalente ao termo “desigualdade racial”, que oculta o caráter histórico do racismo. O fato de que o segundo é mais facilmente aceito do que o primeiro se explica pelo próprio privilégio branco: Não ter que pensar em si mesmo como uma pessoa racializada é um privilégio branco, mantido pela normalização da branquitude.

O fato de que muitas pessoas brancas se tornam ambivalentes ou hostis simplesmente pelo uso do termo “privilégio branco” não significa que há um erro no uso do termo. O problema está justamente naquilo que causa essa essa reação nessas pessoas: o fato de que não reconhecem seu próprio privilégio.

Nenhuma mudança política pode se pautar pelo critério de “qualidade da conversa” sugerido no artigo de Quarles. Apoiar um discurso superficial sobre a desigualdade racial não é o mesmo que reconhecer o que é o racismo. Também é completamente equivocado tratar o termo “privilégio branco” como “forte” ou “extremo”, quando ele é sociologicamente mais preciso. Algumas vezes, o incômodo é necessário para atingir crenças internalizadas. 

Achar que o problema está nos termos que usamos é um enviesamento comum aos discursos que negam a existência de certos problemas sociais ou globais. Uma das consequências desses discursos é a negação da racialidade como categoria política.

Retirar-se da conversa quando confrontado com o conceito de “privilégio branco” implica em negar “a priori” este fenômeno social. Na verdade, essas pessoas não estão se retirando do debate: elas estão se negando a entrar. Reconhecer o privilégio branco não é um ponto final, é uma condição para começar a pensar criticamente o racismo, tanto o racismo estrutural quanto seu próprio racismo internalizado.

Questionar um conceito como se fosse uma questão de “linguagem inclusiva” é extremamente problemático. As palavras importam, sim, e por isso não basta medir as reações das pessoas às palavras, é preciso primeiro reconhecer a estruturalidade do racismo. Pessoas como Ayn Rand e Magnoli tentam evitar que o conceito crítico de racismo seja de fato compreendido, dificultando a luta antirracista e ao mesmo tempo criando coesão entre a cultura e as instituições racistas. Por isso a importância de demonstrar o quanto estão erradas.

Referências:

COLLINS, Cory. What is white privilege, really. Teaching Tolerance 60 (2018): 39-41.

CROLL, Paul R. Explanations for racial disadvantage and racial advantage: Beliefs about both sides of inequality in America. Ethnic and Racial Studies 36.1 (2013): 47-74.

FONTES, Virgínia; BARROS, Douglas; DEMIER, Felipe. A cor sem ilusões (ou quem são os identitários, Magnoli?). 2021. Disponível em: https://revistaforum.com.br/debates/2021/10/9/cor-sem-iluses-ou-quem-so-os-identitarios-magnoli-104501.html. Acesso em: 6 jan. 2022.

MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue: história do pensamento racial. Editora Contexto, 2015.

MAGNOLI, Demétrio. Uma ilusão de cor. 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2021/10/uma-ilusao-de-cor.shtml. Acesso em: 6 jan. 2022.

NAGEM, Rodrigo. Falsificações de um opinioso profissional. 2021. Disponível em: https://ponte.org/artigo-falsificacoes-de-um-opinioso-profissional/. Acesso em: 6 jan. 2022.

QUARLES, Christopher. Use of ‘white privilege’ makes online discussions more polarized and less constructive. 2022. Disponível em: https://theconversation.com/use-of-white-privilege-makes-online-discussions-more-polarized-and-less-constructive-181013. Acesso em: 11 maio 2022.

SANTOS, Ynaê Lopes dos. Quem tem medo das cotas raciais? 2021. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/quem-tem-medo-das-cotas-raciais/a-59470902. Acesso em: 6 jan. 2022.

SMITH, Ella Bell, and Stella M. Nkomo. Our Separate Ways, With a New Preface and Epilogue: Black and White Women and the Struggle for Professional Identity. Harvard Business Press, 2021.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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