Sobre como não acusar falácias

Tentar encontrar falácias em tudo que você discorda pode levar a acusações falsas ou irrelevantes. Este é um pequeno guia para evitar isso.

Existem várias listas de definições de falácias na internet. Elas ajudam a conhecer quais são os tipos de falácia, mas não necessariamente ensinam como identificá-las corretamente. Identificar falácias não é tão simples quanto parece, pois depende de conhecimento sobre os métodos da lógica formal e informal. Algumas pessoas parecem conseguir encontrar falácias em toda discussão. Mas o foco nas falácias revela uma ética competitiva do debate. O objetivo deste guia é valorizar uma ética mais colaborativa do debate, ajudando a evitar acusações equivocadas ou desnecessárias de falácia.

O que é um argumento?

Um argumento é um conjunto de proposições onde uma delas é uma conclusão e as outras são as premissas que buscam sustentar essa conclusão. Proposições são ideias expressas em sentenças (frases) declarativas em vez de exclamativas, interrogativas e imperativas. Por exemplo, “eu estou com fome” é uma sentença declarativa; “que fome!” é exclamativa; “o que tem pra comer?” é interrogativa e “me dê comida agora” é imperativa. As sentenças declarativas podem ser afirmativas ou negativas. A negação de “eu estou com fome” é “eu não estou com fome”, e vice-versa (a negação de uma negação é uma afirmação). Além disso, as proposições podem ser verdadeiras ou falsas. Você pode afirmar que está com fome sem estar, ou pode mentir que não está quando na verdade está morrendo de fome.

Para facilitar a análise dos argumentos, precisamos colocar tudo que a pessoa disse na forma de sentenças declarativas. Se parte do argumento dela for uma pergunta, por exemplo, precisamos entender essa pergunta como uma declaração, ou então descartá-la do argumento. Por exemplo “quem disse que eu não tentei?” pode ser entendido como “eu tentei”. Identificar corretamente as proposições e saber quais são as premissas e qual é a conclusão é fundamental para encontrar falácias. 

Existem vários tipos de falácias. Dois argumentos podem possuir a mesma estrutura, serem sobre o mesmo assunto e terem a mesma conclusão, e ainda assim um deles ser falacioso e o outro não. Por isso, identificar semelhanças superficiais entre os exemplos comuns de falácias e o argumento que você quer refutar geralmente leva a identificações equivocadas.

Para haver falácia, antes de tudo é preciso haver argumento. Diferente das proposições, argumentos não podem ser verdadeiros ou falsos, mas sim corretos ou incorretos/falaciosos. A lógica considera principalmente dois tipos de argumento: os dedutivos e os indutivos. Os argumentos dedutivos tem uma conclusão necessária (não poderia ser outra), e os indutivos tem uma conclusão provável, mas não necessária (apenas uma possibilidade).

Os argumentos dedutivos podem ser válidos ou inválidos. São válidos quando as premissas sustentam a conclusão, e inválidos quando não sustentam. Os argumentos indutivos podem ser fortes ou fracos. São fortes quando as premissas sustentam a conclusão, e fracos quando não sustentam.

Mesmo argumentos válidos ou fortes podem ter premissas falsas. Quando um argumento é válido e suas premissas são verdadeiras, ele é considerado um argumento sólido. Quando o argumento é forte e as premissas são verdadeiras, ele é chamado de convincente. Ter argumentos válidos ou fortes é o mínimo esperado de um bom debatedor. Mas argumentos válidos e fortes também podem ser falaciosos.

Portanto, argumentos sólidos e convincentes não são suficientes para “ganhar” uma discussão. Os argumentos precisam se encaixar coerentemente uns com os outros para formar uma boa argumentação. Finalmente, uma boa argumentação não implica numa posição melhor, pois analisar uma posição exige critérios ainda mais complexos. Uma posição pode ser defendida ou atacada com uma argumentação composta tanto de argumentos dedutivos quanto indutivos, válidos e inválidos, fortes e fracos, falaciosos ou não.

Finalmente, argumentos dedutivos não são superiores aos indutivos só porque as conclusões são necessárias. Boa parte do conhecimento humano é feita de argumentos indutivos. Argumentos sobre política, por exemplo, raramente serão dedutivos.

Argumentos equivocados são geralmente chamados de falácias. Mas argumentos falaciosos podem, na maioria das vezes, ser facilmente reescritos de forma não falaciosa, mantendo-se a mesma conclusão, ou chegando a conclusões ainda melhores para se manter a mesma posição. Por isso, identificar falácias não é suficiente para invalidar uma posição. Com frequência, a identificação correta de falácias ajuda a fortalecer posições fortes e enfraquecer posições fracas. Tentar refutar uma posição apenas com a identificação de falácias é um recurso retórico que normalmente busca esconder a fragilidade de uma posição.

A prática de apontar falácias como se isso indicasse uma superioridade da sua própria posição deve ser evitada. Debates não são sobre a solidez dos argumentos, mas sobre a solidez das posições. Se uma pessoa nunca encontra falácias nos seus próprios argumentos, provavelmente está faltando autocrítica. Independente do quanto saibamos sobre um assunto, podemos cometer falácias. Tratar uma falácia como um “pecado”, vergonha ou burrice é uma prática contrária à ética da argumentação. O princípio da caridade pede que se releve pequenos erros e se concentre no “ponto central” da argumentação. Essa prática é fundamental para um debate saudável pois evita perder tempo com acusações desgastantes e que não levam a nada.

O princípio da caridade é um princípio metodológico que consiste em tratar a pessoa com quem você está debatendo como alguém tão racional e bem intencionada quanto você, até que ela prove o contrário. Tratar a pessoa como menos racional simplesmente por causa da posição que ela defende é uma atitude hostil ao debate. Quem insiste em tratar a outra pessoa como inferior ou irracional diminui a força da sua própria posição. Os erros formais em argumentos são bastante comuns e não podem ser considerados mais importantes do que aquilo que está sendo dito. 

Tipos de falácia

Não há uma classificação universal dos tipos de falácia, a divisão varia de autor para autor. Segundo Nolt e Rohatyn (1991), podemos dividir as falácias em seis classes:

  1. Falácias de relevância: as premissas do argumento não são relevantes o suficiente para suportar a conclusão.
  2. Falácias de raciocínio circular: as premissas já assumem o que se quer concluir.
  3. Falácias semânticas: termos ambíguos ou vagos demais interferem na avaliação do argumento.
  4. Falácias indutivas: a probabilidade da conclusão a partir das premissas é menor do que o argumentador supõe.
  5. Falácias formais: quando argumentos são inválidos por causa de um raciocínio equivocado.
  6. Falácias de premissa falsa. Se nenhuma das outras falácias se aplica, o problema do argumento deve vir de uma ou mais premissas falsas.

Vamos tratar de cada tipo nos focando nas acusações equivocadas. A maioria das falácias possui um nome em latim porque é assim que as pessoas que estudam lógica se acostumaram a chamá-las. Este guia não foi escrito para ser decorado e usado como um “conjunto de regras” para debates. Pelo contrário, ele foi escrito para que se evite essa prática. E ele pode estar errado, então fique à vontade para me corrigir se encontrar algo errado.

  1. Falácias de relevância. 

Falácias de relevância são falácias onde as premissas, mesmo que sejam verdadeiras, não são suficientes para sustentar a conclusão. Também são chamadas de ‘non sequitur’, que significa “não se segue”. A seguir veremos as principais falácias de relevância:

1.1 Ad hominem

Ad hominem significa literalmente “ao homem” e é uma abreviação de “argumentum ad hominem”, um argumento que é voltado a uma pessoa e não ao que ela diz. A falácia ad hominem é uma das mais comuns. É um argumento que tenta sustentar sua conclusão numa característica da pessoa, geralmente sugerindo que ela está errada porque não é uma boa pessoa. Ao mesmo tempo, acusações equivocadas de ad hominem são também as mais comuns.

Um ad hominem pode ser abusivo ou circunstancial. É abusivo quando há ofensa pessoal. Por exemplo: “você fede”. É circunstancial quando se baseia numa incoerência entre duas coisas que a pessoa disse, como em “você se diz ateu mas tem medo de Deus”.

É comum que as pessoas chamem de ad hominem algo que não é um argumento, mas sim apenas uma afirmação isolada sobre alguém. Uma afirmação isolada não pode ser um ad hominem, porque ad hominem se refere sempre a um argumento, não somente a uma de suas partes.

Em segundo lugar, é preciso considerar que nem todos os argumentos sobre pessoas são falaciosos. No sentido mais amplo, argumentos ad hominem são argumentos onde uma proposição sobre uma pessoa ou uma de suas características é feita com o objetivo de sustentar uma conclusão.

A falácia ad hominem só ocorre quando as premissas não nos levam à conclusão. Por exemplo: “Ele diz que devemos virar à direita no próximo cruzamento, mas ele é um liberal, então devemos virar à esquerda”. Sem informações adicionais, não há porque pensar que um liberal está equivocado ao sugerir um trajeto, somente por ser liberal. Em algumas situações, porém, algo dito sobre uma pessoa é relevante para a conclusão. Por exemplo: “Fulano diz que devemos virar à direita no próximo cruzamento, mas ele quase sempre confunde a direita com a esquerda, então devemos virar à esquerda”.

Argumentos ad hominem muitas vezes são indispensáveis para a contextualização de uma posição. Especialmente se for uma “discussão de relacionamento”, por exemplo, onde as características pessoais são muito relevantes para se chegar a uma conclusão.

Algumas vezes o ad hominem é considerado como uma classificação mais ampla, abrangendo muitas das falácias de relevância tratadas aqui.

1.2 Culpa por associação

A culpa por associação pode ser considerada uma variação do argumento ad hominem que consiste em sustentar uma conclusão com premissas sobre o tipo de pessoa com quem alguém está “andando”. A afirmação sobre a pessoa está pressuposta na afirmação sobre outras pessoas. Quando a culpa por associação é falaciosa, é chamada de “envenenando o poço”. Porém, a culpa por associação não é necessariamente falaciosa. Ela pode ser relevante para um argumento sempre que se puder assumir que uma coisa leva de fato à outra. Por exemplo, se a pessoa está associada a um grupo racista, a acusação de culpa por associação num argumento que envolve questões raciais faz todo sentido. Fazer ou não parte de um grupo social geralmente é relevante para determinar a validade de argumentos sobre conflitos sociais.

1.3 Tu quoque

Argumentos do tipo tu quoque (que significa “você também”) geralmente são acusações de hipocrisia, como por exemplo: “você me diz que cigarro faz mal à saúde, mas você fuma”, sendo usadas para sustentar uma conclusão. No caso, essa conclusão poderia ser que “cigarro não faz mal à saúde”. Isso seria falacioso porque o fato de que a pessoa fuma não significa que cigarro não faz mal à saúde. É um tipo de ad hominem circunstancial, e por isso nem sempre é falacioso. A inconsistência entre o que a pessoa diz e o que ela faz pode ser de fato relevante para sustentar certas conclusões, especialmente se o argumento da pessoa for justamente uma exaltação a ela mesma ou às coisas que ela faz.

1.4 Conflito de interesses

Argumentos com conflito de interesses também podem ser classificados como ad hominem circunstancial. São argumentos nos quais se acusa uma pessoa de estar errada pelo interesse ou benefício pessoal que ela tem em afirmar aquilo. É fácil entender que nem sempre uma acusação de conflito de interesses é falaciosa. Ela é falaciosa quando o interesse é falso ou não sustenta a conclusão. Não é falacioso se o interesse de fato sustenta a conclusão. Compare esses dois argumentos: “você defende as cotas raciais porque é negro” e “você rejeita as cotas raciais porque é racista”. Embora ambos sejam argumentos do mesmo tipo, o primeiro é falacioso. Ser beneficiado por uma ação afirmativa não implica que o argumento da pessoa sobre isso seja equivocado. Mas defender posições racistas é um forte indício de que o argumento contra cotas raciais está contaminado por interesses racistas. Acusar essa contaminação não é falacioso, embora não seja suficiente para rejeitar uma posição. Isso exige uma avaliação que implica em saber sobre questões raciais. Se uma pessoa parte de um conceito equivocado de racismo, ela pode confundir um argumento indutivo forte com um argumento dedutivo inválido, ou um argumento indutivo fraco com um argumento dedutivo válido.

1.5 Espantalho

Diferente das falácias descritas acima, a falácia do espantalho não é sobre uma pessoa, mas uma resposta a algo que ela NÃO disse. Geralmente, uma afirmação mais sensata é trocada por uma versão menos sensata e mais fácil de atacar. Muitas vezes isso leva a uma simplificação exagerada de uma posição mais complexa.

Acusar alguém de “espantalhar” não deve ser visto como uma acusação grave, embora geralmente seja tratada assim, porque nem sempre a confusão entre o que foi dito e o que não foi dito é proposital. As pessoas podem entender errado, e parte da culpa pode ser de quem falou de modo vago ou ambíguo, e nesse caso vale a pena perguntar antes de acusar. Também é comum que argumentos atacando espantalhos sejam bons argumentos, que podem contribuir com outros debates, mas que são irrelevantes para ESTE debate, porque se desviam do assunto.

Quando se acusa alguém de atacar um espantalho, é bom demonstrar a diferença entre o que foi dito e o espantalho que foi respondido. Acusar alguém de atacar um espantalho que na verdade é praticamente a mesma coisa que você disse soa como uma tentativa desesperada de se defender ou “ganhar vantagem” na discussão. Por fim, a posição real da pessoa pode ser ainda mais absurda do que o espantalho que foi usado.

1.6 Apelo à força

O apelo à força, ou ad baculum, é um argumento que tenta se sustentar com base numa ameaça. Muitas vezes essa ameaça é velada (está disfarçada de outra coisa). Porém, é comum confundir qualquer tipo de ameaça com uma falácia de apelo à força. Sugerir violência contra a pessoa caso ela não aceite sua posição não é algo que necessariamente invalida essa posição, embora possa enfraquecer. Só há falácia de apelo à força quando a pessoa tenta sustentar a conclusão de um argumento com base numa ameaça. Por exemplo: “Nós estamos sozinhos aqui. Se você se recusar a ficar comigo, ninguém vai ouvir você gritar. Logo, você deveria ficar comigo”. Já a frase “Fique comigo ou então eu vou te bater” não é uma falácia ad baculum, porque não é um argumento, embora na prática a ameaça seja a mesma. Nesse caso, vale lembrar que uma ameaça do tipo “se você tentar ficar comigo à força, eu vou te bater”, não é equivalente à primeira ameaça, porque é uma reação de defesa a uma ameaça, e não um ataque. 

1.7 Apelo à autoridade

Esse é um dos tipos de argumento que é mais frequentemente acusado de falácia sem ser falácia. O equívoco acontece quando alguém acusa outra pessoa de apelar à autoridade simplesmente porque ela citou uma referência para sustentar uma conclusão. Uma autoridade, nesse caso, é alguém com um determinado reconhecimento social, status ou experiência. Esse alguém pode ser você. Citar uma especialista não é falacioso se a área de estudo, a experiência ou o reconhecimento da pessoa em questão for de fato relevante para a conclusão, quando não há um grande conflito entre o que essa pessoa diz e a posição da maioria dos especialistas da área. Quase todo bom argumento sobre um fato histórico ou social, por exemplo, é um argumento de autoridade.

Sustentar um argumento sobre cotas raciais com base nas afirmações de um sociólogo que não estudou questões raciais, por exemplo, pode ser uma falácia de autoridade, porque ser sociólogo não implica em saber sobre ações afirmativas. Um argumento de autoridade válido depende dessa autoridade ser uma boa representante daquela área, isso é, ter suas pesquisas reconhecidas como relevantes. Sustentar a verdade de uma premissa com base numa autoridade RECONHECIDA da área não é falácia, é embasamento. Por isso, na maioria das vezes, argumentos de apelo à autoridade podem se tornar melhores com a adição de premissas verdadeiras sobre o reconhecimento de tal autoridade naquela área.

1.8 Apelo ao povo

O argumento ad populum, ou de apelo ao povo, é um apelo ao que a maioria das pessoas pensa. Ele se torna falacioso quando o conhecimento comum, aquilo que a maioria das pessoas aceita como verdade, não é relevante para sustentar a conclusão. Parecido com o argumento de autoridade, ele deixa de ser falacioso se a conclusão realmente puder ser sustentada pelo senso comum ou consenso dentro de um grupo. Para chegar a essa conclusão, porém, é preciso saber a frequência de uma opinião entre aquele grupo de pessoas. Observações particulares, como “eu vejo isso ser muito repetido entre pessoas desse grupo” não dão força ao argumento se não puderem ser demonstradas objetivamente, como por exemplo mostrando o resultado de uma enquete em que um número significativo de pessoas expressou aquela opinião.

1.9 Apelo à piedade

O apelo à piedade, ou argumento ad misericordiam, é um pedido para relevar algo errado devido a circunstâncias atenuantes. Por exemplo, quando um aluno argumenta com seu professor: “Eu sei que o prazo final para a entrega do trabalho foi ontem, mas eu fiquei muito doente e não pude fazer. Logo, você deveria permitir que eu o entregue hoje”. Os argumentos de apelo à piedade não são falaciosos quando existirem motivos ou circunstâncias que justifiquem a exceção. Exigir que as regras sejam cumpridas independente das circunstâncias pode ferir princípios éticos, que são mais importantes do que estar certo.

1.10 Apelo à ignorância

Argumentos de apelo à ignorância se baseiam na premissa de que ninguém provou se determinada afirmação é verdadeira, ou que ninguém provou que é falsa. Em ambos os casos, esses argumentos sugerem o seguinte: se ninguém verificou que X, então devemos concluir o contrário de X. Em geral, a falácia ocorre quando há uma dedução falsa ou questionável. Por exemplo: “Ninguém comprovou que tal tratamento não é eficiente, logo, ele é recomendável”. Uma coisa não se segue da outra porque há outras possibilidades, como por exemplo, testar antes. Em certas situações, porém, a dedução é verdadeira, e a conclusão é razoável, como por exemplo: “Ninguém comprovou que esse produto é seguro, logo, não devemos comercializá-lo”. A diferença é pequena mas suficiente para distinguir uma falácia de um argumento válido.

1.11 Conclusão irrelevante

Argumentos com conclusão irrelevante, ou ignoratio elenchi, são argumentos cujo problema está não nas premissas, mas na conclusão. Eles podem ser muito difíceis de admitir, pois exigem a revisão mais atenciosa do argumento. Por exemplo, um economista pode dizer que a economia está melhorando usando dados que na verdade indicam que a economia está piorando. A leitura equivocada dos dados, ao ser apontada, pode reforçar o argumento do opositor, mas também pode enfraquecê-lo. É possível acusar uma conclusão irrelevante sendo que a conclusão correta, na verdade, é muito mais relevante para a sustentação da posição do oponente do que ele mesmo imaginava. Algumas pessoas chegam a conclusões equivocadas que são mais “tímidas” do que as corretas. Por exemplo, se alguém argumenta “Este economista leu os dados de forma errada porque sua formação é deficitária”, e seu opositor responde demonstrando que a formação dele foi excelente, isso piora ainda mais o caso, pois cometer um erro de análise de dados é muito pior se a pessoa tem a formação necessária do que se ela não tem. Nesse caso, acusar o erro na verdade fortalece o ponto da pessoa sendo corrigida. Quando alguém identifica e corrige seu próprio erro, ela fortalece sua própria posição. Daí a importância de manter a autocrítica e não procurar falácias só nos argumentos dos outros.

1.12 Impertinência

Um argumento impertinente é um argumento introduzido na discussão com o objetivo de desviar o assunto para longe do ponto central, supostamente apontando para outros aspectos que também são importantes. A avaliação do que é pertinente ou não depende de muitos fatores. Nesse caso, o problema não está nem nas premissas nem na conclusão, mas no argumento como um todo. Introduzir impertinências é uma estratégia retórica que pode ser usada para dificultar um debate e evitar certas críticas. Porém, às vezes uma mudança natural de assunto, para longe de um assunto já esgotado ou sem saída, pode ser acusada de ser impertinente por alguém que insiste em eternizar um debate nitidamente infrutífero, somente para evitar o questionamento de outras posições. Isso às vezes é chamado de “controle da conversa”. A função dos argumentos deve ser sustentar uma posição confrontando argumentos contrários, e não fugindo deles.

  1. Raciocínio circular

Falácias de raciocínio circular também são chamadas de “petição de princípio”. Diferente do que vimos até agora, argumentos com raciocínio circular são sempre relevantes, são sempre válidos ou fortes, podem ter apenas premissas verdadeiras (ou seja, serem sólidos ou convincentes), porém ainda serem falaciosos. Por que raciocínios circulares são falaciosos se são perfeitos? Exatamente porque são perfeitos demais. Qualquer coisa pode ser defendida com argumentos circulares, mesmo as mais absurdas. As premissas de um argumento têm a função de dar credibilidade à conclusão. Se a conclusão já está nas premissas, nenhuma credibilidade é adicionada. Um argumento circular não soma nem subtrai nada de uma discussão. Ele conta como uma declaração isolada, não tem valor argumentativo. Por isso, faz sentido acusar de falácia quando se percebe que a circularidade está sendo apresentada como argumento relevante para sustentar uma posição. Faz menos sentido acusar a falácia quando se trata apenas de reafirmar algo óbvio ou estabelecer pontos de partida em comum para a discussão. Afinal, às vezes é preciso realmente reafirmar o óbvio.

A falácia de petição, como às vezes é chamada, prejudica a discussão porque não nos permite chegar à conclusão por nossos próprios meios. Por exemplo: “Você é um ateu, ateus não acreditam em Deus, logo, você não acredita em Deus”. Este raciocínio circular pode estar dando base a outra conclusão, como por exemplo “ateus não tem respeito pela vida”. Quando o argumento real é questionado, a pessoa tende a retornar ao raciocínio circular, como se o que estivesse sendo negado é algo óbvio (que a pessoa não acredita em Deus), e não a conclusão real (que ateus não tem respeito pela vida), ignorando completamente que está faltando um argumento cuja premissa é “você não acredita em Deus” e a conclusão é “você não tem respeito pela vida”.

A petição também pode estar implicada em perguntas capciosas, como por exemplo “você já parou de roubar sua família?”, o que implica que a pessoa já fez ou continua fazendo isso. Perguntas capciosas são armadilhas retóricas que não podem ser respondidas sem incorrer em algo falso. Numa discussão abusiva, é comum que alguém faça “controle da conversa” insistindo em perguntas capciosas, sem questionar o que está pressuposto na pergunta. Quando a outra pessoa questiona a validade da pergunta, a primeira pode acusá-la de fugir do debate ao se recusar a responder. Mas se recusar a responder uma pergunta capciosa não é apenas válido, às vezes é a única opção. Responder a pergunta capciosa significa assumir a validade da pergunta e aceitar a afirmação que está implicada na pergunta.

  1. Falácias semânticas

As falácias semânticas são falácias informais que induzem ao erro de interpretação do sentido das sentenças usadas na premissas ou na conclusão. As falácias semânticas mais comuns são a ambiguidade, a vaguidade e a ênfase.

Algumas vezes argumentos são expressos em sentenças vagas ou ambíguas demais para permitir uma avaliação precisa. A ambiguidade ocorre quando há mais de um sentido possível para uma sentença. A ambiguidade pode ser semântica ou sintática. Ela é semântica quando resulta do uso de termos polissêmicos, aqueles com mais de um sentido (como, por exemplo, “manga”). Ela é sintática quando a ambiguidade se encontra não nos termos, mas na estrutura gramatical, no arranjo da sentença. Por exemplo, “ele cortou a manga” é uma ambiguidade semântica, (a manga pode ser uma fruta ou uma parte da roupa). Já no exemplo “trago boas notícias para vocês, que estão no meu coração”, há uma ambiguidade que não pode ser resolvida simplesmente descobrindo em que sentido os termos estão sendo usados. A estrutura gramatical dessa sentença é ambígua, pois a vírgula separando as duas partes da frase faz com que não dê pra saber se a expressão “que estão no meu coração” se refere às notícias ou às pessoas. A ambiguidade sintática também é chamada de anfibologia.

É possível se expressar com termos ambíguos de modo proposital ou não. Quando não é proposital, chamamos isso de “ato falho”. Um argumento com ambiguidades pode ser considerado falacioso quando todas as interpretações possíveis das proposições resultam em argumentos falaciosos. Se houver pelo menos um sentido em que o argumento é sólido ou convincente, porém, há razões para deixar a acusação de ambiguidade de lado e considerar, pelo princípio da caridade, que era este sentido que a pessoa tinha em mente.

A ambiguidade é um vício de linguagem, e pode ser evitada com um bom hábito de leitura. A acusação de falácia semântica cabe mais quando há indícios de que a ambiguidade está sendo usada de modo proposital ou insistente, com o objetivo de confundir, desviar do assunto ou fazer um argumento parecer mais razoável do que realmente é. Algumas vezes, por diferentes motivos, a pessoa não está disposta a se expressar de modo mais compreensível, e aí talvez seria melhor deixar o debate para outro momento. Algumas vezes, porém, suspeitamos que a pessoa tem a capacidade para se expressar de modo mais nítido, mas parece estar evitando isso, escolhendo se expressar de modo confuso. 

Existem muitas razões para isso. A pessoa pode estar com medo de expor seu verdadeiro argumento, talvez porque está insegura sobre ele, ou porque acredita que ele é complexo demais para ser exposto sem uma preparação prévia. Algumas vezes, em discussões públicas (onde além dos debatedores, temos também a presença de espectadores da discussão) a linguagem ambígua é usada como “apito de cachorro”, um recurso retórico para dizer uma coisa ao debatedor e outra aos espectadores, com uma mesma sentença.

É comum na internet ver debates que se focam mais em convencer espectadores do que a pessoa com quem se debate. Alguns grupos sociais possuem seus próprios conceitos, mas usam termos comuns. Assim, um debatedor pode usar uma palavra que significa uma coisa para a pessoa com quem está debatendo, e outra coisa para o grupo ao qual ele pertence, que está assistindo o debate. O grupo dela entende o que ela quis dizer, mas as outras pessoas não. Assim, o argumento parece válido ou forte aos olhos de quem pertence àquele grupo, mas inválido ou fraco para o resto das pessoas.

Quando a ambiguidade nos força a analisar muitos argumentos possíveis, é possível que a outra pessoa te acuse de espantalho (“não foi isso que eu disse”). É injusto acusar de espantalho se você deixa seu argumento aberto a diferentes interpretações. Nesse caso, pedimos que a pessoa explique o que ela quis dizer. Se ela se negar a isso, é possível que ela esteja evitando o debate.

Enquanto a ambiguidade é a multiplicidade de sentido, a vaguidade é a ausência ou indistinção de sentido. A sentença ambígua pode ser entendida em mais de um sentido, mas a sentença vaga não pode ser entendida em nenhum sentido específico. Por exemplo, o argumento “Pessoas com a audição apurada preferem ouvir música clássica. Eu sou uma pessoa com a audição apurada, por isso eu prefiro ouvir música clássica” parece válido. Porém, o que significa ter uma “audição apurada”? Que critérios definem uma audição apurada? Se o critério for justamente “ouvir música clássica”, teremos uma circularidade. Ao invés de muitas interpretações, temos apenas uma incógnita. Resta apenas perguntar “o que é uma audição apurada?”.

Já a falácia de ênfase ocorre quando uma importância desproporcional é dada a partes de uma argumentação e não à argumentação como um todo. Por exemplo, quando julgamos um argumento pelas suas primeiras sentenças, ou um artigo pelo primeiro parágrafo, sem considerar a argumentação como um todo, e sem considerar os pontos centrais.

  1. Falácias indutivas

Falácias indutivas são falácias que ocorrem especificamente em argumentos indutivos, ou seja, argumentos cuja conclusão não se segue necessariamente das premissas, mas sim de acordo com uma probabilidade. Argumentos indutivos são fortes quando a probabilidade é alta, e fracos quando a probabilidade é baixa. A maioria dessas falácias também pode ser considerada como falácias de relevância, mas as separamos aqui apenas porque elas só ocorrem em argumentos indutivos.

4.1 Falácia de generalização apressada

Quando as pessoas dizem “você está generalizando”, elas normalmente querem dizer que está havendo uma generalização apressada. Todo argumento indutivo implica numa generalização, e nem toda generalização é errada. Por exemplo, se uma pessoa argumenta que bateu o carro na segunda-feira, e na segunda-feira seguinte ela foi demitida, e disso conclui que coisas ruins acontecem com mais frequência nas segundas, este é um argumento com uma probabilidade indutiva extremamente baixa. É como jogar um dado duas vezes, obter o mesmo resultado nas duas, e concluir que o dado está viciado e quase sempre vai dar aquele mesmo resultado. Usar isso como argumento implica numa falácia de generalização apressada, que é o tipo mais comum de falácia indutiva.

Para determinar o que significa uma probabilidade ser “baixa” ou “alta”, é preciso a aplicação de metodologia estatística. Quando uma pessoa acusa uma falácia indutiva, espera-se que ela entenda de probabilidade, o que é bem raro (a probabilidade é menos intuitiva do que parece). Não basta expor uma opinião pessoal de que “a chance disso acontecer é mínima” ou “quase certeza que vai dar certo”, sustentada por observações particulares como por exemplo “eu quase nunca vejo isso acontecer” ou “sempre que fiz deu certo”. Ou, pior ainda, expectativas que não tem base em observação nenhuma.

Chamamos de “amostra” a quantidade de casos que a pessoa usa para chegar a uma generalização. Se a amostra é pequena demais para o número de possibilidades (como por exemplo apenas 2 lançamentos de um dado que tem 6 lados), dizemos que essa amostra não é representativa ou significativa. Nas ciências humanas, a pesquisa é quase sempre limitada a conclusões indutivas. Isso não significa que os trabalhos da área de humanas são mais suscetíveis a falácias indutivas. Considerando que o fenômeno social é mais complexo que o funcionamento de um motor, é injusto exigir que as análises sociais (sobre política, por exemplo) sejam tão precisas quanto as generalizações da matemática. 

4.2 Analogia equivocada

A analogia equivocada é uma falácia que deriva de um erro num raciocínio analógico. O raciocínio analógico ocorre quando comparamos duas coisas e dizemos que elas são de um mesmo tipo por causa das semelhanças entre elas. Por exemplo, concluir que golfinhos são peixes por serem parecidos com tubarões é uma analogia equivocada. Analogias equivocadas nem sempre têm probabilidade indutiva baixa. Sem nenhum conhecimento sobre quais os critérios que a biologia usa para determinar o que são peixes, por exemplo, concluir que golfinhos são peixes na verdade tem uma alta probabilidade indutiva. Faz todo sentido que certas culturas considerem esses animais como sendo do mesmo tipo, por exemplo, porque partem de critérios totalmente diferentes daqueles estabelecidos pelas ciências biológicas da nossa cultura.

4.3 Falácia do apostador

A falácia do apostador é um tipo de falácia indutiva em que se conclui que a probabilidade de algo acontecer é alta porque essa coisa está “demorando” para acontecer. Ela é chamada assim por causa de um raciocínio comum a apostadores: “quanto mais eu perco, maior a chance de que na próxima aposta eu ganhe”. Este raciocínio em si não é equivocado. Por exemplo, se você está jogando “cara ou coroa” (jogando uma moeda pro ar e vendo de que lado ela cai), quanto mais vezes a moeda dá “cara”, maior a chance de que na próxima jogada ela dê “coroa” (caia do outro lado), considerando que a moeda não esteja “viciada” (com um lado significativamente mais pesado que o outro, o que altera a probabilidade em comparação com uma moeda “balanceada”).

Porém, se a mesma pessoa jogando a moeda disser que existe uma grande probabilidade de que a moeda caia “em pé” (equilibrada na sua “terceira face”) na próxima jogada, apenas porque ela caiu “deitada” todas as outras vezes, aí teríamos uma falácia. Esta falácia depende de que uma coisa não afete significativamente a probabilidade da ocorrência da outra. Do fato de que a moeda caiu várias vezes “deitada”, não se pode concluir que existe uma boa probabilidade de que na próxima jogada ela caia em pé. É possível que sim, mas é altamente improvável.

Nesse tipo de falácia indutiva, apontar o equívoco do argumento não é equivalente a uma acusação de que “isso não vai acontecer”, mas sim sobre eventos com BAIXA probabilidade sendo tratados como se tivessem uma ALTA probabilidade. Assim, mesmo que a pessoa conseguisse o resultado previsto na jogada seguinte, isso ainda não serviria de demonstração de que o argumento dela estava correto, pois a probabilidade não deixa de ser baixa só porque realmente aconteceu como previsto.

No cotidiano usamos esse raciocínio do apostador toda vez que dizemos “eu sabia que isso ia acontecer, porque estava demorando pra acontecer”. Isso pode ser um mecanismo psicológico para lidar com a frustração, mas não é um erro lógico.

4.4 Falsa causa

As falácias de falsa causa ocorrem em argumentos que explicam uma causa, mas essa causa é falsa. Na maioria das vezes, a falsa causa na verdade é um efeito. Um tipo comum de falácia de falsa causa é a chamada falácia “post hoc”. Esse nome deriva da frase em latim “post hoc ergo propter hoc”, que significa “aconteceu depois disso, logo, foi causado por isso”. O problema do post hoc é inferir uma relação causal a partir do fato de que duas coisas aconteceram em “sequência”, ou uma coisa aconteceu “logo depois” da outra. As falácias de falsa causa ocorrem quando as premissas não sustentam as conclusões. Por exemplo: “Eu vi ele sair correndo da loja logo depois dos tiros. Então foi ele que matou o comerciante”. Conclusões causais exigem uma definição precisa da relação entre uma coisa e outra, que raramente se resume ao tempo em que acontecem. Ou seja, espera-se que a pessoa que acusa de falácia saiba definir com maior precisão essa relação, e não apenas julgue que a causa é falsa só porque é um “post hoc”. O “post hoc”, como o “ad hominem”, não é em si uma falácia. O erro é tratar um post hoc como se ele fosse mais relevante do que realmente é. No caso das falácias indutivas, isso significa tratar como se ele aumentasse significativamente a probabilidade indutiva, num caso em que a relação causal temporal não é relevante.

4.5 Evidência suprimida

A falácia de evidência suprimida é considerada como uma falácia indutiva e ela ocorre quando um argumento desconsidera uma evidência que mudaria significativamente a probabilidade indutiva da conclusão. Mesmo que a probabilidade indutiva seja alta, suprimir a evidência pode levar a conclusões equivocadas sobre o motivo para se considerar algo como provável. Assim, por exemplo, alguém pode estar certo sobre o fato de que é altamente provável que seu time ganhe o campeonato, mas não pelos motivos sugeridos (meu time está bem preparado), e sim por outro motivo (o outro time foi prejudicado por algum outro fator), que a pessoa convenientemente escolheu ignorar ou tratar como se não fosse importante.

  1. Falácias formais

Falácias formais se diferenciam das demais falácias porque dependem dos métodos da lógica formal para serem identificadas, como tabelas-verdade e árvores de refutação (que não serão explicadas aqui). O que é importante enfatizar é que identificar uma forma inválida não é suficiente para uma acusação de falácia formal. Quando suspeitamos que alguém tem um bom argumento, mas está usando uma regra de inferência inválida sem perceber que ela é inválida, vale a pena pedir que a pessoa reformule o argumento.

Entre as falácias formais mais comuns, cabe destacar a falácia de negação do antecedente, a falácia de afirmação do consequente, a falácia de composição e a falácia de divisão. Mais uma vez, lembre-se que identificar uma dessas formas lógicas num argumento NÃO É SUFICIENTE para acusar uma falácia formal.

As falácias formais são as menos efetivas para se refutar o ponto central de uma argumentação, pois praticamente qualquer ideia pode ser defendida numa forma lógica válida e com argumentos válidos ou fortes. Portanto, apontar uma falácia formal raramente irá enfraquecer a posição do oponente. Pelo contrário, tende a fortalecer. O que costuma a acontecer, porém, é uma acusação de falácia formal ser combinada com a uma acusação de inferioridade cognitiva do oponente: “Se você não consegue construir argumentos formalmente válidos, seus argumentos não merecem qualquer consideração”. Esse tipo de depreciação em si pode ser considerada como um argumento ad hominem.

5.1 Negação do antecedente

A falácia de negação do antecedente ocorre em premissas condicionais. Premissas condicionais são aquelas do tipo “se X, então Y”. Note que esse tipo de premissa tem duas partes, separadas pela vírgula. A primeira contém uma condição (“X”). A segunda parte contém uma consequência (“Y”). Quando uma premissa que vem depois de uma premissa condicional nega o X (a condição) e a conclusão do argumento nega o Y (a consequência), temos uma negação do antecedente. Por exemplo:

Se não chover, vou sair.

Vai chover.

Logo, não vou sair.

A primeira premissa é condicional (“não chover” é a condição, “vou sair” é a consequência). A segunda premissa nega a condição (“vai chover”), e a conclusão é a negação da consequência (“não vou sair”). O argumento é inválido porque a primeira premissa estabelece apenas o que acontece se não chover, e não o que o acontece se chover. O fato de que vai chover não significa que não existam outras condições nas quais a pessoa vai sair. Por exemplo, se o telhado da casa desabar, ela provavelmente vai sair. Ou seja, é possível pensar em contra-exemplos em que a conclusão é falsa, mesmo que as premissas sejam verdadeiras. Isso acontece porque confundimos o “se” com o “somente se”. Se a primeira premissa fosse “Vou sair somente se não chover”, o argumento seria válido. O “se” indica apenas uma das condições possíveis, enquanto o “somente se” indica a única condição possível.

5.2 Afirmação do consequente

Do mesmo modo que na negação do antecedente, a afirmação do consequente vem de uma confusão entre condicionais “se” e “somente se”. A afirmação do consequente segue uma estrutura assim:

Se X, então Y. Y é verdade. Logo, X.

Por exemplo: Se meu pai ganhar na loteria, vai comprar um carro novo. Meu pai vai comprar um carro novo. Então, ele ganhou na loteria.

Ganhar na loteria não é o único modo de ter dinheiro para comprar um carro novo. Se a premissa fosse “O único modo do meu pai comprar um carro novo é se ele ganhar na loteria”, o argumento seria válido.

5.3 Falácias de composição e de divisão

As falácias de composição e divisão estão intimamente ligadas e derivam de tomar o todo pela parte ou a parte pelo todo. Por exemplo, no argumento: “Este texto é composto de frases. Cada frase deste texto está bem escrita, logo, este texto está bem escrito” há uma falácia de composição. As frases individualmente serem bem escritas não significa que o texto seja bem escrito, porque as frases podem ser incoerentes. Para ser bem escrito, um texto precisa de mais do que frases corretas, precisa de coerência entre as frases.

Nem sempre uma composição vai implicar numa falácia. Por exemplo: “Goiânia é parte do Brasil. Goiânia tem pelo menos 1 milhão de habitantes. Logo, o Brasil tem pelo menos 1 milhão de habitantes”. A forma lógica é a mesma do exemplo anterior: 

X é uma parte de Y

X tem a propriedade Z

Logo, Y tem a propriedade Z

Mas, nesse exemplo, se trata de um argumento válido, porque não há um caso em que a pessoa habite a cidade de Goiânia e não conte como habitante do Brasil.

A estrutura da forma lógica que chamamos de divisão é o outro lado da composição:

X é uma parte de Y

Y tem a propriedade Z

Logo, X tem a propriedade Z

Considere o argumento: “Este texto é composto inteiramente de palavras. O texto está em Português. Logo, cada palavra desse texto está em Português”. Essa é uma falácia de divisão, pois o texto pode conter palavras em latim, mas ainda estar em Português. Se o argumento usasse uma composição, como por exemplo “Este texto é composto inteiramente de palavras. Cada palavra desse texto está em Português. Logo, este texto está em Português”, ele seria válido. O mesmo ocorre quando se passa da composição para divisão. Do mesmo modo, é possível um argumento de divisão ser válido, como por exemplo: “Goiás está no Brasil. Goiânia está em Goiás. Logo, Goiânia está no Brasil”.

Devido ao fato de que a composição e a divisão implicam em problemas semânticos, alguns autores preferem classificar estas falácias como falácias semânticas.

  1. Falácias de premissas falsas

As falácias de premissas falsas, como o nome indica, se concentram não na relação entre premissas e conclusão, mas nas premissas em si. Apesar do nome, a simples presença de premissas falsas num argumento não implica em falácia. Para que essa acusação de falácia seja correta, é preciso que o único problema com o argumento seja a falsidade de uma ou mais premissas.

Diferente das falácias formais, as falácias de premissas falsas estão entre as mais efetivas para refutação de uma posição, porque a argumentação não pode ser facilmente reformulada para evitá-las. Principalmente se a premissa em questão é um ponto central da argumentação. Porém, estão também entre as falácias mais difíceis de serem identificadas, pois elas dependem de uma verificação de veracidade de afirmações (o que exige interpretação), além de uma verificação da validade do argumento. A falácia de premissa falsa é um “último recurso”, para argumentos equivocados que não se encaixam em nenhuma das outras falácias.

6.1 Falsa bifurcação

Esta falácia consiste em apresentar um número limitado de opções (em geral apenas duas) como se elas representassem a totalidade das possibilidades. Por exemplo: “Ou você apoia o exército russo, ou você apoia os nazistas”. Para saber se de fato essa premissa é falsa, é preciso conhecer o contexto e apontar contra-exemplos. 

A premissa acima pode fazer parte de um argumento válido do ponto de vista de sua forma lógica. Por exemplo:

Ou você apoia a interferência russa na Ucrânia, ou você apoia os nazistas

Você não apoia a interferência russa na Ucrânia

Logo, você apoia nazistas

A estrutura desse argumento é a de um silogismo disjuntivo simples. É uma forma lógica válida, as premissas são relevantes para a conclusão e não há outro tipo de falácia presente. Logo, a única coisa que pode estar errada no argumento é a falsidade da premissa.

6.2 Ladeira escorregadia

A ladeira escorregadia ocorre quando um raciocínio faz um encadeamento de premissas (geralmente condicionais), levando a uma conclusão muito distante do que seria a conclusão inicial. Por exemplo: 

Se você não ficar comigo, eu vou chorar

Se eu chorar, eu não vou dormir direito

Se eu não dormir direito, eu vou me atrasar para o trabalho

Se eu me atrasar para o trabalho, eu vou ser demitido

Se eu for demitido, eu não terei o que comer

Se eu não tiver o que comer, eu vou morrer

Você não vai ficar comigo

Logo, eu vou morrer

A validade de tal argumento depende da interpretação que se faz do operador condicional “se, então”. Assim como na falsa bifurcação, o problema não está na validade do raciocínio. Se as premissas são verdadeiras, então a conclusão é válida. Porém, se podemos apontar uma ou mais premissas falsas nesse argumento, significa que uma coisa não leva necessariamente à outra.

Como dito anteriormente, não é nada fácil analisar a veracidade de certas premissas. Por exemplo, suponha o argumento:

Se não apoiarmos a interferência russa na Ucrânia, a Ucrânia se tornará nazista

Se a Ucrânia se tornar nazista, a Europa se tornará nazista

Se a Europa se tornar nazista, teremos uma terceira guerra mundial

Devemos evitar uma terceira guerra mundial a todo custo

Logo, devemos apoiar a interferência russa na Ucrânia

Para apontar onde exatamente há verdade ou não nessas premissas é preciso conhecimento sobre um assunto extremamente complexo (as relações políticas internacionais). Sem informações adicionais, é difícil dizer que qualquer uma dessas afirmações é simplesmente falsa. O erro é tratá-las como verdades óbvias, ou afirmá-las de modo acrítico. Por exemplo, esse argumento sugere uma premissa implícita, que seria “A interferência russa é a única forma de combater o nazismo na Ucrânia”. Se essa premissa implícita for falsa, então o argumento se torna logicamente problemático, porque complica a primeira premissa, da qual dependem todas as outras. Mesmo que não tenhamos informações adicionais sobre o contexto histórico e político da Ucrânia e da Rússia, aqui caberia uma falácia de ladeira escorregadia.

Conclusão

A lógica é uma ferramenta limitada. Ela sozinha não pode nos fornecer tudo que é necessário para avaliar uma posição. Dominar as técnicas de argumentação pode ajudar a convencer pessoas de algo falso ou pelos motivos errados, ou se defender disso. Nesse ponto, a identificação de falácias é provavelmente a técnica mais popularizada entre debatedores comuns. Infelizmente, ela também é muito mal aplicada. Conhecer de fato as falácias pode nos levar a acusar menos falácias nos discursos de outros, e cuidar melhor da validade e força dos nossos próprios argumentos. Eu espero que este resumo possa ajudar nessa tarefa.

Referências:

NOLT, John; ROHATYN, Dennis. Lógica. São Paulo: McGraw-Hill, 1991. Tradução: Mineko Yamashita.

HURLEY, Patrick J. A concise introduction to logic. Cengage Learning, 2014.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

3 comentários em “Sobre como não acusar falácias”

  1. Bom resumo de lógica. É preciso, sim, ter a caridade argumentativa com o outro, no entanto ao mesmo tempo é mister ter cuidado para não sermos induzidos a seguir e lidar com os erros, tornando-nos presas(os) de armadilhas involuntárias.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo comentário. Eu concordo com a cuidado preventivo para evitar armadilhas, como por exemplo discussões entre pessoas cujo lugar de fala implica em conflitos estruturais. O limite da caridade argumentativa é “até que ela [a pessoa] prove o contrário”. Existem informações prévias sobre a pessoa que servem de evidência de que os argumentos dela tem uma maior probabilidade de serem maliciosos, mesmo antes que ela diga qualquer coisa (até porque a análise do discurso deve levar em consideração o contexto e o discurso implícito). É importante não confundir a caridade argumentativa com uma suposta obrigação ética de ouvir/respeitar a fala todas as pessoas, independente do histórico delas… Este critério ético é simplesmente sobre não desprezar pessoas INJUSTAMENTE. Algumas vezes, porém, é justo ignorar e desprezar pessoas. Nazistas, por exemplo, não tem que ser ouvidos. Tomar mais cuidado com pessoas cujo privilégio histórico atropela estruturalmente sua identidade, por exemplo, é uma questão de sobrevivência. Nossa paciência tem limites e algumas vezes somos obrigados a criar lógicas de interação mais desconfiadas quando sofremos desrespeito constantemente por um grupo dominante. Quase sempre podemos ter alguma ideia sobre o lugar de onde a pessoa está falando, e ajustar esse grau de caridade/confiança de acordo com essas percepções não é contraditório com o princípio ético. Também cabe a quem está no lugar de privilégio reconhecer esse privilégio e compreender a necessidade da outra pessoa de se precaver contra possíveis danos.

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