Racismo em Ayn Rand

Esse texto é uma tentativa de analisar criticamente o conceito de racismo em Ayn Rand.

Existe um vídeo no YouTube chamado Ayn Rand — Racismo, com quase 10 mil visualizações, que foi postado pelo canal A Voz da Razão. É um trecho do livro A Virtude do Egoísmo de Ayn Rand, legendado do inglês a partir de um vídeo do canal LibertyPen. Ele foi recentemente repostado no site Objetivismo Brasil com o título Ayn Rand — o que é racismo?

Esse vídeo, supostamente sobre o que é racismo, na verdade pretende criticar o coletivismo. Rand trata o racismo como uma forma de coletivismo, um vício moral no qual o coletivo se sobrepõe ao individual: é a noção de atribuir significância moral, social ou política a algo que seria herdado geneticamente. Para Rand, o valor de um indivíduo é medido pela sua racionalidade. A racionalidade não é herdada geneticamente, logo, é absurdo pensar que algum valor, positivo ou negativo, possa ser produzido ou transmitido pela genética.

Rand afirma que considerar a raça como fator político ou social implica em negar a responsabilidade individual e afirmar que o conteúdo mental de um indivíduo seria determinado biologicamente, por meio da herança genética, antes do nascimento. Ela chega a essa conclusão a partir da premissa de que o valor do indivíduo corresponde à sua racionalidade em oposição ao que é herdado.

Supostamente, esta seria uma crítica ao reducionismo biológico: a racionalidade de uma pessoa não é determinada pela cor da sua pele. Mas o racismo é muito mais complexo que a crença na superioridade ou inferioridade biológica ou intelectual de um grupo de pessoas. Segundo Sílvio Almeida (2019), o racismo está implicado na nossa sociedade de forma institucional e estrutural. O racismo organiza a vida social. Racismo não é exatamente sobre diferenças biológicas, mas sim sobre diferenças sociais que se evidenciam também na cor da pele.

Rand não faz uma crítica coerente ao reducionismo biológico. Ela considera que qualidades herdadas podem ser significativas para outros animais, mas não para humanos, porque humanos são seres “racionais”. Ela não rejeita a determinação genética como um todo, uma vez que a herança genética é um fator evolutivo substancial. Mas ao diferenciar humanos de outros animais pela racionalidade, ela sugere que a evolução já não é um fator significativo para vida humana, porque a racionalidade se sobrepõe às diferenças genéticas.

O que é herdado geneticamente realmente não tem um papel determinante, mas tem um papel significativo no desenvolvimento, formando a base na qual o corpo e o comportamento de todos os animais, incluindo humanos, se estruturam (LORENZ, 1995). Isso não significa negar a cultura ou a autonomia individual. A plasticidade do nosso aparelho cognitivo torna impossível determinar qualquer hierarquia de racionalidade, seja a partir da herança genética ou de qualquer outro critério. Ao afirmar que algumas pessoas são mais racionais que outras com base em suas escolhas morais, Rand está cometendo um equívoco.

O conceito de racionalidade é usado de modo bastante confuso por Rand. De um lado, ela afirma que somente seres humanos são racionais, e de outro, considera que a racionalidade das pessoas pode ser medida pela sua moralidade. Em outras palavras, ela considera que pessoas mais “imorais” são também mais “irracionais” e também inferiores. Embora Rand considere seu critério como totalmente objetivo e racional, esse é um raciocínio reducionista.

Rand não está simplesmente afirmando que o papel da herança biológica no ser humano não é tão significativo quanto em outras espécies. O verdadeiro problema é que o objetivismo randiano é incompatível com os conceitos de racismo estrutural, herança histórica, ancestralidade e etnocídio. Sem esses conceitos, fica difícil compreender o que é racismo. Ao reduzir tudo às escolhas morais individuais, ela nega o significado social da genealogia na formação dos indivíduos: o indivíduo não surge do nada. Ele também é produto do meio, no sentido de que sua história está em continuidade com a história dos elementos que compõem o ambiente no qual o indivíduo é formado. Sem isso, é impossível compreender a relação entre escravidão, racismo e sociedade.

Tal pressuposto serve de fachada para negar a relação entre capitalismo e racismo, justificando, por exemplo, argumentos contra as políticas afirmativas, que são pautas do movimento negro e do ativismo pelos direitos humanos. O raciocínio de Rand sugere que os defensores das cotas raciais são os verdadeiros racistas. Esse argumento também é reproduzido num artigo escrito por Thomas Sowell e publicado no dia 20/11/15 no site Mises Brasil, chamado Afinal, quem são os racistas? Neste artigo, Sowell afirma que acadêmicos, sociólogos e líderes do movimento negro que defendem as cotas raciais são os verdadeiros racistas: 

“Será tão difícil entender, mesmo com todos os exemplos históricos, que o progresso não pode ser alcançado por meio de líderes raciais ou étnicos?  Tais líderes possuem incentivos em demasia para promover atitudes e políticas polarizadoras que são contraproducentes para as minorias que eles juram defender e desastrosas para o país. Eles se utilizam das minorias para proveito próprio, atribuindo a elas incapacidades crônicas que supostamente só podem ser resolvidas por políticas que eles irão criar.  Eles são os verdadeiros racistas.” (SOWELL, 2015).

Embora seja considerada por alguns como “anarquista” (por sua crítica ao Estado), a visão de mundo randiana se distancia do anarquismo, pois não se trata de uma crítica às estruturas sociais que oprimem indivíduos, mas sim de uma crença ideológica que substitui as questões estruturais por questões de “responsabilidade individual” e está centrada no dever moral de respeitar a propriedade privada, que Rand muitas vezes chama de “direitos individuais”.

Segundo Emma Goldman, tal pensamento na verdade contradiz o conceito de indivíduo e de individualidade, porque pensar o indivíduo separado do seu meio é o mesmo que não pensar no indivíduo concreto.

“A individualidade não deve ser confundida com as várias ideias e conceitos do individualismo; muito menos com aquele ‘individualismo rude’ que é apenas uma tentativa mascarada de reprimir e derrotar o indivíduo e sua individualidade. O chamado Individualismo é o laissez faire social e econômico. (…) Esse ‘individualismo’ corrupto e perverso é a camisa-de-força da individualidade. Converteu a vida em uma corrida degradante por coisas externas, por posse, por prestígio social e supremacia.” (GOLDMAN, 1840).

O objetivismo randiano é uma conclusão lógica a partir da crença ideológica no liberalismo de mercado. Ela considerou o capitalismo laissez-faire como único modelo econômico moralmente aceitável porque analisou a realidade social pelo viés da ideologia liberal e de uma “filosofia moral” que trata o “egoísmo racional” como uma virtude e o coletivismo como um vício.

O conceito randiano de razão supervaloriza uma racionalidade civilizatória, que teria livrado o humano da opressão representada pelo modo de vida “coletivista” dos povos originários: “O coletivismo é a premissa tribal dos selvagens primitivos que, incapazes de conceber direitos individuais, acreditavam que a tribo é uma entidade suprema e onipotente, dona das vidas de seus membros e que pode sacrificá-los a seu bel-prazer”  (RAND, 1986).

Rand teria afirmado que os povos nativos do continente americano não tinham direito ao território em que viviam, pois não tinham conceito de propriedade. Segundo ela, esses povos estariam impedindo o progresso da humanidade ao impedir que os colonizadores tomassem suas terras, pois mantinham modos de vida atrasados. Numa sessão de perguntas na academia militar de West Point, em 1974, Rand declarou: “Por que eles estavam lutando, se eles se opunham aos homens brancos neste continente? Por seu desejo de continuar uma existência primitiva, seu direito de manter parte da terra intocada, sem uso, e nem mesmo como propriedade, mas apenas manter todos fora para que você viva praticamente como um animal? (…) Qualquer pessoa branca que trouxesse os elementos da civilização tinha o direito de dominar este continente” (ver NORTON, 2015).

Tendo isso em vista, é de estranhar que alguém ainda considere Ayn Rand como uma boa referência para definir o que é racismo. Hoje sabemos que a imagem do indígena “selvagem, bruto e irracional” foi construída como justificação para a colonização, e que isso também é racismo.

Junto com o conceito equivocado de racismo, há um conceito equivocado de cultura, que Rand define como “a soma das conquistas intelectuais de indivíduos”. Cultura é o conjunto das práticas e representações sociais, e essas não são redutíveis a conquistas individuais, quanto mais a coisas que poderiam ser consideradas como “conquistas intelectuais”. Há um consenso hoje de que o racismo atual não é baseado no conceito biológico de raça, mas sim no conceito sociológico de raça, no qual os componentes culturais e sociais se misturam com a corporeidade. “Ou seja, as raças são, cientificamente, uma construção social e devem ser estudadas por um ramo próprio da sociologia ou das ciências sociais, que trata das identidades sociais” (GUIMARÃES, 2003).

A base psicológica do racismo, segundo Rand, é a busca pelo que não é merecido: o fruto do trabalho alheio. É a necessidade de autoafirmação de um valor que não é seu, negando a responsabilidade individual. Isso viria da falta de autoestima. Assim, ela trata o racismo como uma patologia, produto da incapacidade do indivíduo de compreender a realidade e a si mesmo. Por isso, o racismo seria menos comum entre pessoas cultas.

O conceito de racismo usado na psicologia e na sociologia atuais, porém, é incompatível com essa definição. Racismo não é uma patologia. Ao moralizar e patologizar o racismo, Rand perpetua uma ideia equivocada, que leva pessoas a continuarem apoiando e reproduzindo discursos racistas enquanto acreditam ter superado intelectualmente seus preconceitos. O racismo é um tipo de racionalidade social, e por isso intelectuais e acadêmicos apoiaram regimes racistas em diversas sociedades. Por exemplo, o regime nazista alemão foi apoiado por médicos e filósofos.

Como explica Djamila Ribeiro (2019) em seu Pequeno Manual Antirracista:

“O primeiro ponto a entender é que falar sobre racismo no Brasil é, sobretudo, fazer um debate estrutural. É fundamental trazer a perspectiva histórica e começar pela relação entre escravidão e racismo, mapeando suas consequências. Deve-se pensar como esse sistema vem beneficiando economicamente por toda a história a população branca, ao passo que a negra, tratada como mercadoria, não teve acesso a direitos básicos e à distribuição de riquezas. (…) O racismo é, portanto, um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato da vontade de um indivíduo. (…) O que está em questão não é um posicionamento moral, individual, mas um problema estrutural.” (RIBEIRO, 2019).

Racismo é apenas um exemplo de fenômeno social que não pode ser corretamente analisado a partir do objetivismo randiano. Quando se tenta fazer isso, o resultado é uma tese absurda que só será acolhida por quem se encontra dentro de uma bolha ideológica.

O Atlas da Violência 2020, estudo sociológico realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), indica que, num mesmo período, quando o investimento na polícia cresce, o número de pessoas negras assassinadas pela polícia também cresce, enquanto o número de pessoas brancas assassinadas pela polícia diminui, mesmo quando você considera pessoas da mesma faixa de renda. Isso ocorre porque a polícia militar no Brasil é uma instituição racista.

Sociedade não é apenas um conjunto de indivíduos. A ação individual só pode ser entendida dentro do seu contexto social. A individualidade depende do reconhecimento dos fatores sociais que possibilitam a formação dos indivíduos.

A suposta crítica de Ayn Rand ao coletivismo vem de uma má compreensão da relação entre indivíduo e sociedade. Embora Rand negue isso, o capitalismo também implica em imposição de poder político sobre os indivíduos, pois a produção de capital aliena o trabalhador do produto do seu trabalho, gerando acúmulo de poder econômico para os donos dos meios de produção. Uma sociedade que produz desigualdade econômica, necessariamente também produz opressão política.

O egoísmo racional de Rand não é uma tese filosófica, mas sim uma ideologia liberal. Ela exaltou o conceito de liberdade individual criado pela cultura capitalista estadunidense após ter fugido do regime soviético. Em contraposição a Rand, Emma Goldman, que também fugiu do regime soviético e também se refugiou nos EUA, não exaltou o individualismo estadunidense. Rand influenciou pessoas como Alan Greenspan, que foi presidente do FED, o “Banco Central” dos Estados Unidos, de 1987 até 2006. Ao invés de se tornar uma figura amada por ricos empresários e pessoas poderosas, Emma foi considerada como inimiga pública número um dos EUA e foi presa diversas vezes. Nas palavras dela:

“A América é talvez o melhor representante desse tipo de individualismo, em cujo nome a tirania política e a opressão social são defendidas e tidas como virtudes; enquanto toda aspiração e tentativa do homem (sic) de ganhar liberdade e oportunidade social de viver são denunciadas como ‘não americanas’ e más em nome desse mesmo individualismo.” (GOLDMAN, 1840).

Além de ser uma péssima referência sobre o racismo, Rand também é uma péssima crítica do coletivismo, e alguém que jamais deveria ser confundida com uma anarquista. Sua obra não questiona concretamente o Estado e problemas sociais estruturais, como o racismo. É preciso entender o papel das políticas afirmativas raciais, que visam fazer uma reparação histórica, diminuindo o distanciamento social provocado por privilégios acumulados e normalizados por gerações. Políticas de inclusão e afirmação não são por si só soluções para o racismo, mas buscam resolver problemas específicos e imediatos. Por exemplo, formar bases para que o etnocídio resultante das políticas econômicas neoliberais, que afastam os membros de uma comunidade das tradições de seus ancestrais, possa ser sequer discutido. Apenas uma mudança estrutural mais ampla pode resolver o racismo. As distorções e desinformações sobre racismo vindas de pessoas como Rand nos atrapalham a discutir as relações entre racismo e economia, o que perpetua a violência racial em nossa sociedade. Daí a importância de nos posicionarmos ativamente contra essas distorções.

Referências:

ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen Produção Editorial Ltda, 2019.

AYN Rand – Racismo. S.I.: A Voz da Razão, 2018. Son., color. Legendado. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=51UgcLU_HtU. Acesso em: 19 dez. 2021.

GOLDMAN, Emma. The Individual, Society and the State. 1940. Tradução própria. Disponível em: http://theanarchistlibrary.org/library/emma-goldman-the-individual-society-and-the-state. Acesso em: 19 dez. 2021.

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Como trabalhar com “raça” em sociologia. Educação e pesquisa 29.1 (2003): 93-107.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Atlas da violência 2020. Brasil: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2020. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/10214. Acesso em: 19 dez. 2021.

LORENZ, Konrad. Os fundamentos da etologia. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

NORTON, Ben. Libertarian superstar Ayn Rand defended Native American genocide: “racism didn’t exist in this country until the liberals brought it up”. 2015. Disponível em: https://www.salon.com/2015/10/14/libertarian_superstar_ayn_rand_defended_genocide_of_savage_native_americans/. Acesso em: 19 dez. 2021.

RAND, Ayn et al. Capitalism: The unknown ideal. Penguin, 1986.

RIBEIRO, Djamila. Pequeno manual antirracista. Rio de Janeiro: Companhia das letras, 2019.

SOWELL, Thomas. Afinal, quem são os racistas? 2015. Disponível em: https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1732. Acesso em: 19 dez. 2021.


Revisão: Victória Leopoldino, Lucas Sousa e Eduardo Carli e Eduardo Ruaro.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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