Como entender e responder o anarcocapitalismo?

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Resumo de uma pesquisa filosófica sobre anarcocapitalismo.

Como Camila Jourdan e Acácio Augusto recentemente escreveram, “libertário é sinônimo de anarquista”. O anarquismo é fundamentalmente anticapitalista, pois “Estado e capitalismo estão intimamente relacionados” e a pretensão de “abolir um sem abolir o outro sempre acabará em restauração da parte supostamente abolida”. Tanto a ideia de Estado mínimo quanto de capitalismo sem Estado não fazem sentido no anarquismo, porque “poder econômico sempre foi e sempre será poder político”. Uma sociedade anarquista é uma sociedade CONTRA o Estado, e por isso é “incompatível com as diferenças sociais, políticas e econômicas que constituem o capitalismo”.

Por que então pessoas que se consideram libertárias pensam que o anarquismo pode ser capitalista, ou se misturar com a defesa do livre mercado ou da propriedade privada dos meios de produção?

Anarcocapitalistas (ancaps) entendem os conceitos de capitalismo e Estado um modo peculiar. Para criticar o anarcocapitalismo, é preciso compreender o pensamento de autores como Ayn Rand, Rothbard, David Friedman e Hoppe. Ao conhecer melhor esses autores, eu percebo que o fundamento filosófico do anarcocapitalismo está muito mais presente em nossa cultura do que parece. Logo, não basta dizer que é uma contradição ou algo que “não existe”. É preciso entender o que o anarcocapitalismo realmente afirma, para saber como respondê-lo.

Em primeiro lugar, o que é o anarcocapitalismo? Segundo Alexandre Porto, o anarcocapitalismo é um sistema ético e jurídico baseado na propriedade privada. Ele não reduz a finalidade da vida humana ao acúmulo de propriedade, nem reduz a totalidade da ética humana à lei da propriedade. Mas é um sistema logicamente necessário para evitar a violação da propriedade.

As premissas básicas do anarcocapitalismo são:

  1. Indivíduos existem e agem.
  2. A ação humana é o uso de meios para alcançar fins.
  3. Esses meios são escassos.

Para que o anarcocapitalismo faça sentido, essas premissas precisam ser irrefutáveis. Delas, se conclui que conflitos de interesses são inevitáveis. Uma premissa secundária seria que conflitos podem ser resolvidos de apenas dois modos: pela violência ou pela racionalidade/ética . As leis de propriedade seriam os critérios universais para evitar o uso da violência nesses conflitos, determinando como os meios podem ser usados do modo mais racional/ético possível, em qualquer situação. Sem leis de propriedade logicamente válidas em si mesmas, o que prevaleceria seria uma lei contingente, que em última instância se torna lei do mais forte, ou seja, depende do uso da violência. Vamos analisar cada uma das premissas:

Indivíduos existem?

Existem diversos argumentos que problematizam o conceito moderno de indivíduo e individualidade. Alguns autores consideram que “indivíduo” é uma invenção moderna. Outros, que é uma invenção da filosofia ocidental antiga. De todo modo, o conceito de indivíduo pode ser colocado em xeque por algumas referências antropológicas (sociedades indígenas sem conceito de indivíduo) e psicológicas (crítica ao conceito de self individual) muito pouco discutidas no meio ancap. Além disso, ao defender a existência de seres individuais, é possível que o ancap acabe reproduzindo algum discurso que na verdade é uma defesa do individualismo, que é bem diferente e bem mais controverso nas ciências sociais. Embora o individualismo metodológico possa ter alguma aplicação, ele geralmente é extrapolado ou aplicado de modo equivocado nos argumentos anarcocapitalistas. É importante notar também que anarco-individualistas compreendem o conceito de indivíduo de um modo diferente, e não defendem o capitalismo.

Existe ação individual?

Mesmo considerando que indivíduos existem, é possível questionar se existem ações individuais, ou seja, se alguém faz algo sozinho. Também há referências na anarquia e na sociologia que permitem compreender essa crítica, como o conceito de apoio mútuo e cooperação em Kropotkin.

A ação humana é o uso de meios para alcançar fins?

É possível definir a ação humana como “uso de meios para realização de fins”? Muita coisa pode estar implicada nessa premissa. Por exemplo, a teoria da ação racional, da intencionalidade da ação, da ação teleológica, da racionalidade instrumental, etc… Em geral, ao tentar explicar o que isso significa, ancaps podem recorrer à praxeologia de Mises ou à teoria da ação de Rothbard ou de Hoppe. Vou falar mais sobre elas mais adiante.

Os meios são escassos?

A premissa da escassez é central no pensamento econômico liberal, pois mesmo considerando a verdades das premissas anteriores, se os meios não fossem escassos nenhuma filosofia da propriedade privada seria necessária. Se os meios são escassos, isso significa que haverão conflitos entre duas ou mais pessoas disputando ou competindo por esses meios. E por isso precisaríamos de um princípio da não agressão e do conceito de propriedade privada como única alternativa civilizada para resolver esses conflitos.

Embora Alexandre Porto afirme que a escassez está pressuposta no próprio conceito de ação humana, pois sem recursos escassos não seria sequer preciso agir, a abundância de recursos não implica necessariamente na ausência de ação humana. Como Marshal Sahlins demonstra em sua antropologia econômica, a escassez tem uma origem histórica. Os povos mais antigos do mundo tinham uma economia de abundância, não porque tinham meios infinitos, mas porque suas necessidades eram limitadas. A escassez é uma invenção da civilização, ela multiplica as necessidades para além dos meios naturalmente disponíveis. A premissa da escassez, embora central, é uma das mais frágeis, mesmo sendo reproduzida também no pensamento econômico de esquerda.

Se os meios não são necessariamente escassos, então o anarcocapitalismo está refutado? Não exatamente. A abundância de recursos não implica na ausência de conflitos. Mesmo em sociedades sem propriedade privada dos meios de produção haviam conflitos. A resolução desses conflitos não exclui totalmente o uso da violência. O argumento ancap nesse ponto pode ser facilmente transformado num argumento contra o uso injustificado da violência (como defende Raphael Lima). Se o objetivo da ética anarcocapitalista é evitar o uso injustificado da violência, o problema pode se tornar um pouco mais complexo de entender e responder.

A propriedade privada é natural?

No texto A origem da propriedade privada e da família, Hoppe elenca alguns critérios para definir o que é humano, que estão nitidamente distantes da compreensão antropológica da maioria dos autores contemporâneos. Ele lê a ação humana pela lente da teoria econômica da escassez, que é bastante frágil. Hoppe afirma que os elementos externos que nos “limitam” devem ser colocados sobre “controle”. Ele justifica a propriedade privada com base numa lei supostamente natural: “Foi ao controlar a terra que o homem de fato começou a produzir bens ao invés de meramente consumi-los”. Aqui, diversas críticas à ideologia do progresso, da racionalidade instrumental ou da relação de domínio sobre a natureza podem servir de resposta.

Com relação à família, ao invés de falar de patriarcado, Hoppe pretende explicar a origem da família nuclear como se esta fosse uma necessidade econômica natural da humanidade. A crítica ao patriarcado parece ausente na visão de Hoppe.

É possível uma ética analítica da propriedade?

A filosofia moral do anarcocapitalismo compreende as relações de propriedade por meio de afirmações analíticas, válidas independentemente do contexto. Se a lei de propriedade não fosse universalmente válida, ela precisaria de interpretação de acordo com o contexto, o que levaria a um direito positivo, um corpo jurídico ou uma instância superior aos indivíduos para julgar os litígios (agressões), ou seja, um tipo de autoridade e de coerção social. Para anarcocapitalistas, isso implicaria na submissão dos indivíduos ao interesse coletivo, impondo uma relação de modo unilateral, não-voluntário e pelo uso da violência. Os únicos direitos aceitos pelo anticapitalismo são direitos negativos, ou seja, proibições (não roubar, por exemplo). Essa conclusão é justificada por uma visão que não pode admitir a complexidade do fenômeno humano, porque está concentrada na pureza de uma verdade analítica, que só existe num plano ideal. Não há garantia de que uma sociedade ancap seria melhor que a nossa, mas o objetivo dessa filosofia não é necessariamente “melhorar” a sociedade, e sim possibilitar que ela seja “mais ética”, ou seja, mais coerente com esse sistema ético que eles julgam como necessariamente verdadeiro.

Essa posição, porém, é extremamente controversa na filosofia. Segundo a enciclopédia de filosofia Routledge, a meta-ética ou ética analítica é distinta da ética normativa, o que significa que dela não se pode derivar um direito negativo. Ela procura entender se um julgamento moral deriva de um fato da experiência ou não. Existem basicamente dois entendimentos sobre isso, o cognitivismo  e não-cognitivismo. Isso significa que apresentar a ética anarcocapitalista como “analítica” não significa que ela não pode ser criticada. Alguns ancaps pedem que ela seja refutada com fatos, o que é logicamente impossível se eles partem de uma meta-ética não cognitivista. Logo, utilizam um recurso retórico para se blindar da crítica, quando o que deveria ser colocado em questão é o próprio sentido de tratar a ética da propriedade como uma meta-ética, ao invés de uma ética normativa.

É possível abolir o Estado sem abolir o capitalismo?

O anarcocapitalismo busca a abolição do Estado porque o enxerga como a negação do direito à propriedade ao invés da instância que legitima a propriedade, na medida em que depende de coerção social e monopólio do uso da força para funcionar. Nesse ponto, diversos teóricos das ciências humanas já teceram críticas aprofundadas, seja baseando-se na Teoria Geral do Estado, no materialismo histórico ou na filosofia política. A conclusão comum é que não é possível abolir o Estado sem abolir estruturas que possibilitam acúmulo de poder econômico de modo desigual.

A propriedade privada pode ser legitimada somente pela ética?

Na teoria ancap, a legitimação da propriedade ocorre basicamente de dois modos:

  1. A apropriação original, na qual algo que não tinha dono passa a ter dono, ocorre pelo primeiro uso. O uso é comprovado pela ação de “cercar socialmente” a propriedade, colocar seu nome nela, por exemplo, indicando que ela tem dono.
  2. A transferência de propriedade. Ela deve ser voluntária, podendo implicar em troca voluntária. As leis que emergem das trocas voluntárias formam o mercado.

A exemplo da questão sobre a ética analítica, esse tipo de legitimação da propriedade não leva em consideração a complexidade da realidade social. Não considera, por exemplo, todos os conflitos passíveis de ocorrer no processo de apropriação original ou na transferência de propriedade, que não podem ser resolvidos dentro da ética ancap em si. Em grupos e fóruns de ancap é comum encontrar discussões sobre o que aconteceria nesses casos. A diversidade de respostas a essas hipóteses é tão grande que sugere que não existe de fato um conjunto definido de compreensões éticas e filosóficas sobre os conflitos de propriedade no anarcocapitalismo. Nem os teóricos nem os sujeitos que se consideram “praticantes” dessa ética concordam entre si sobre o que deveria ser feito em casos que seriam extremamente comuns na sociedade que eles defendem. Mais do que isso, é muito comum que eles relativizem outros princípios éticos bastante aceitos na nossa sociedade para privilegiar seus próprios princípios. Assim, referências mais consistentes da ética podem demonstrar que a “ética ancap” é extremamente frágil e irrealista.

O princípio da não agressão diminuiria a violência?

Quando o princípio da não agressão é ferido, ocorre uma violação ou crime. O praticante da violação não pode mais ser protegido pela lei da propriedade, perdendo parcialmente ou totalmente o direito sobre sua propriedade (incluindo seu próprio corpo), o que significa que pode ser punido. Rothbard chega a propor que o criminoso pode ser escravizado ou excluído da sociedade. O professor André Guimarães Augusto afirma que anarcocapitalistas não estão propondo ausência de coerção. A coerção é justificada quando dirigida a quem procura restringir o uso da propriedade privada. Isso significa que “a coerção é para quem pode pagar”, e implica em “dominação direta de classes”. Se há dominação de classes, então há Estado.

Na perspectiva do anarcocapitalismo, o contrato social que dá origem ao Estado é fundamentalmente contraditório e injusto porque é coletivo. Contratos em si são legítimos, mas só quando estabelecidos entre indivíduos, sem uma instância superior para legitimar esse acordo. Isso inclui a ordem legal representada no poder de legislar, julgar e punir. A punição numa sociedade anarcocapitalista seria legitimada por uma lógica universal, ou seja, ela não seria regulada por uma instância formal. As pessoas que melhor pudessem cumprir esse ideal de “justiça retributiva da punição” poderiam ser contratadas para fazê-lo. Nas palavras de André Augusto, “milícias privadas” para realizar uma justiça do tipo “olho por olho, dente por dente”. Aqui, as referências que serviriam de resposta estão na teoria jurídica do abolicionismo penal, na sociologia da violência ou na filosofia política, em especial na área de biopolítica e nas discussões sobre estado de exceção e microfísica do poder.

O corpo é uma propriedade?

Um dos pontos centrais da filosofia ancap é o conceito de autopropriedade. Cada pessoa é dona do seu próprio corpo, esta é sua primeira propriedade. Como toda propriedade é adquirida com o uso de outra propriedade, toda propriedade é como uma extensão da primeira propriedade, o corpo. Roubar uma propriedade é como roubar uma parte da vida de alguém, por isso é inaceitável em qualquer situação. A violência só é aceitável como reação a uma violência que já foi iniciada. Há vários problemas filosóficos nesse ponto, incluindo o excepcionalismo humano (somente o corpo humano é tratado como autopropriedade) e a discussão sobre a dicotomia mente-corpo (o corpo não é propriedade da pessoa, a pessoa é um corpo).

Você pode ferir ou matar quem tenta roubar sua propriedade, porque ao fazer isso a pessoa nega o direito à propriedade e não pode ser defendida por esse mesmo direito, enquanto você está defendido pelo direito de autodefesa. Já falamos sobre os problemas práticos disso, já que não há critérios objetivos para definir quem está certo caso alguém decida mentir ou falsificar uma evidência de propriedade. Uma ética que identifica o direito à vida e à liberdade com o direito à propriedade vai inevitavelmente reduzir pessoas a objetos, contradizendo um princípio ético do valor intrínseco da vida humana.

Além disso, embora teoricamente as pessoas possam contratar agências de segurança privada, como evitar que a pessoa com maior poder econômico “compre sua legitimidade” ao contratar serviços de segurança privada mais “eficientes”? Uma das críticas mais comuns ao anarcocapitalismo é que ele resulta, na prática, num retorno ao feudalismo.

O mercado é oposto ao Estado?

Na lógica ancap, Estado e mercado se apresentam como forças incompatíveis e contrárias. O Estado representa uma ordem autoritária se impondo sobre indivíduos, enquanto o mercado representa as regras lógicas necessárias à sociedade organizada. A discussão sobre até que ponto o mercado é incompatível com algum grau de interferência estatal, ou até que ponto pode e deve regular a si mesmo sem nenhuma interferência externa, é o principal ponto de conflito entre as duas principais vertentes do libertarianismo: o minarquismo e o anarcocapitalismo. Vamos avaliar as diferenças teóricas entre ambos a seguir.

Primeiro, é preciso dizer que o anarcocapitalismo também possui divisões internas. Enquanto Rothbard defende um sistema universal de direitos que pode ser derivado da “lei natural”, David Friedman pretende combinar o anarcocapitalismo com a economia neoclássica, e acredita ser possível justificar o anarcocapitalismo com uma teoria da eficiência econômica ao invés de uma “lei natural”.

Minarquistas e anarquistas de mercado

Atualmente, o minarquismo é a corrente majoritária do libertarianismo. Ela defende a minimização do Estado, enquanto o anarcocapitalismo defende a abolição do Estado. Para entender a diferença, é preciso compreender outras divisões entre os liberais.

Para economistas como Hayek, a sociedade humana possui uma ordem espontânea, emergente e auto-organizada. Esta ordem emerge da combinação dos interesses de indivíduos, mesmo que estes não estejam intencionalmente tentando criar ordem. A sociedade é regida pelo conjunto de comportamentos emergentes. A economia seria complexa demais para ser socialmente planejada. A intenção de organizar uma sociedade de modo planificado implica sempre numa opressão. O controle econômico produz apenas servidão, ineficiência e irracionalidade. O anarquismo libertário tem outra visão sobre o problema do cálculo econômico, e pode defender outros critérios de eficiência e racionalidade da organização da produção, pois não acredita que o mercado seja tão espontâneo ou racional quanto os liberais afirmam.

Ludwig von Mises, professor de Hayek, foi um dos grandes defensores do liberalismo clássico. É um economista da escola austríaca, conhecido pela sua contribuição com a praxeologia. Ele influenciou Murray Rothbard, que partiu para uma teoria mais heterodoxa, e é considerado por muitos o principal teórico do anarcocapitalismo. Rothbard defendeu a apropriação do termo “libertário”: tirá-lo do contexto histórico do socialismo libertário e levá-lo para a direita. Ele também defendeu o revisionismo histórico como estratégia para justificação teórica do libertarianismo. Ele e Hoppe defenderam teorias jurídicas fundadas no direito de propriedade, com algumas diferenças. Foi Rothbard que afirmou que “o capitalismo é a maior expressão do anarquismo, e anarquismo é a maior expressão do capitalismo”, enquanto Hoppe se considera um anarcocapitalista paleolibertário, ou seja, ele mistura elementos do conservadorismo cultural com o libertarianismo, defendendo, por exemplo, a superioridade da monarquia sobre a democracia.

A praxeologia, um método de análise usado no libertarianismo, foi resumida por Mises da seguinte forma: “A ação é a vontade posta em funcionamento, transformada em força motriz; é procurar alcançar fins e objetivos; é a significativa resposta do ego aos estímulos e às condições do seu meio ambiente; é o ajustamento consciente ao estado do universo que lhe determina a vida”. Em outras palavras, a finalidade da ação é sempre a satisfação do desejo. Seguindo essa ideia, ancaps enxergam a economia a partir da vontade individual. O efeito da junção de vontades individuais díspares é o mercado, e o capitalismo de livre mercado seria o melhor modo de evitar as forças coletivas e sociais que ameaçam a liberdade individual, pois o coletivo para eles não parte da livre associação de indivíduos, e sim a nega.

Diferenças entre as correntes liberais

No liberalismo clássico, se o volume da riqueza de um indivíduo foi totalmente adquirido sem ferir o direito de propriedade de ninguém, então houve mérito, ou seja, aquela propriedade é justa não importa o quão grande seja. Essa perspectiva econômica não julga a riqueza de alguém pelo tamanho, pela comparação, pelo efeito na sociedade ou pela natureza dessa propriedade, mas unicamente pelo modo com foi adquirida. Sendo assim, a meritocracia seria um modelo no qual o poder está concentrado nas mãos de quem o mereceu, quem acumulou esse poder jogando dentro das regras de mercado.

O liberalismo de Keynes defendia a necessidade do Estado na regulamentação do mercado como uma resposta à crise econômica dos EUA. A Escola de Chicago (economia neoclássica) criticou o keynesianismo e adotou, com limitações, ideais monetaristas no Chile, durante a década de 1970. Estes ideais posteriormente foram adotados, também com limitações, na década de 1980, por Margaret Thatcher na Inglaterra (thatcherismo) e por Ronald Reagan nos Estados Unidos (reaganomics). Alguns economistas liberais reagiram à Escola de Chicago, como James Tobin. Ele defendeu um liberalismo com uma face mais humana, sugerindo criar impostos sobre transações financeiras, como o CPMF. Joseph Stiglitz, um neokeynesiano, criticou o chamado fundamentalismo de livre-mercado e a teoria da mão invisível. Para ele, o Estado seria responsável pelo equilíbrio de mercados.

Outros exemplos de liberalismo são o Ordoliberalismo Alemão e o chamado Liberalismo Social. O economista Gunnar Myrdal, teórico inspirador do Estado do bem-estar social sueco, ironicamente, dividiu o Prêmio “Nobel” de Ciências Econômicas, em 1974, com seu maior rival ideológico, von Hayek, cujo livro “O Caminho da Servidão” tornou-se referência para os defensores do capitalismo laissez-faire, onde o investimento social é trocado pela livre concorrência.

PS. O "Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel" não é um prêmio Nobel, ele apenas tem Nobel no nome. Ele foi criado para promover ideais liberais com apoio da Sociedade Mont Pèlerin, fundada por Hayek, Mises e Friedman, entre outros.

Escola de Chicago e Escola Austríaca

A Escola Austríaca é uma escola de economia heterodoxa, baseada no individualismo metodológico e na teoria subjetiva do valor. Nesse sentido, o anarcocapitalismo está mais próximo da Escola Austríaca, embora a Escola de Chicago também se oponha à economia marxista.

A metodologia da Escola Austríaca é fundada no individualismo. Ela procura explicar fenômenos econômicos por meio da ação de indivíduos, não de grupos ou coletivos. Os julgamentos e escolhas são individuais, baseadas em gostos e preferências, ou seja, “avaliações subjetivas de bens e serviços determinam a demanda”. Os custos que refletem outros usos possíveis de um bem são descartados do cálculo. Isso é chamado de marginalismo: o valor é determinado pelo consumidor final, e nada mais. Mises chama isso de “soberania do consumidor”, que só pode ser alcançada evitando a interferência governamental no mercado. Isso também implica em individualismo político: a liberdade econômica leva à liberdade política e moral, minando o poder do Estado e realizando um “capitalismo de verdade”. Por causa dessa visão, muitos teóricos acreditam que mesmo países considerados como potências capitalistas, como os EUA, estariam dominados pelos princípios econômicos do socialismo.

O diferencial do anarcocapitalismo é que este possui uma teoria ética e do direito que elimina o direito positivo, ou seja, a liberdade individual depende de que ninguém seja obrigado a fazer coisa alguma. O único direito legítimo seria o direito negativo: regras sobre o que não pode ser feito. Não se trata apenas de uma lei econômica, mas de uma teoria jurídica da ação humana. Uma lei que é ética e logicamente necessária, não pode ser negada sem auto-contradição. Como já afirmado, a possibilidade de uma ética logicamente necessária para a ação humana é filosoficamente controversa, e mais ainda se ela necessariamente está relacionada aos conceitos de propriedade, indivíduo e escassez.

Críticas mutuamente excludentes?

As críticas dos minarquistas aos anarcocapitalistas, e as respostas destes a essas críticas, fazem parte de uma longa discussão, e podem ser bem contraditórias, combinando diversas vezes com a crítica da esquerda. Por exemplo, minarquistas afirmam que é preciso alguma estrutura estatal para manter uma sociedade de massas, de outro modo é simplesmente inviável sequer manter o direito à propriedade. Instituições que na prática são estatais tendem a se formar mesmo na ausência formal de Estado. Para eles, essa posição moderada não pode ser confundida com a “idolatria esquerdista ao Estado”, que supostamente pretende resolver todos os problemas sociais por meio de um Estado forte.

Anarcocapitalistas denunciam que minarquistas estão caindo numa armadilha porque todo Estado mínimo tende se tornar um Estado máximo e jamais seremos realmente livres enquanto não nos livrarmos do Estado por completo. Eles acusam anarquistas anticapitalistas de se oporem ao livre mercado por pura desinformação, uma vez que o mercado só é ruim quando dominado pelo corporativismo, ou seja, justamente por causa da interferência do Estado ou de um interesse semelhante ao do Estado.

Algumas críticas equivocadas ao anarcocapitalismo

Teoricamente, os anarcocapitalistas não necessariamente se opõem à propriedade coletiva dos meios de produção, desde que isso seja feito por consenso geral, ou seja, que todos concordem individualmente com isso. Anarcocapitalistas interpretam o voluntarismo como uma base fundamental para a vida em sociedade, o que significa que nada é obrigatório, tudo é permitido desde que voluntário e consensual.

Logo, criticar apenas a propriedade privada dos meios de produção ou o acúmulo injusto de capital não é uma crítica forte, pois embora o capitalismo atual seja fundado no acúmulo de propriedade privada dos meios de produção, o anarcocapitalismo não está fundado necessariamente no que atualmente se entende como capitalismo. Anarcocapitalistas tendem a achar que o capitalismo de verdade está quase ou totalmente ausente no mundo hoje, já que capitalismo para eles não implica em exploração da força de trabalho ou corporativismo, mas sim nas “trocas voluntárias”, “livre concorrência” e “livre associação”. A propriedade de meios que dependem da cooperação entre diversos indivíduos só seria válida se essa cooperação for voluntária, assim como o uso de uma propriedade que afeta outros indivíduos, como por exemplo uma fábrica que polui a atmosfera terrestre.

Os trabalhadores precisam concordar em trabalhar na fábrica por determinado salário, e as pessoas que pagam esse salário precisam concordar em pagá-lo. Teoricamente, não haveria nada para forçar um preço ao empregador ou ao empregado, seria tudo estabelecido por acordos entre indivíduos, o que significa que seria regulado pelas variações espontâneas do mercado.

Alguns liberais tendem a ver a liberdade como um meio para outros fins, enquanto ancaps podem entender que a liberdade é um fim em si mesmo. Além disso, liberais podem querer cortar gastos sociais com argumentos econômicos, enquanto para anarcocapitalistas se trata de uma questão de princípios. Seria um vício moral trocar sua independência por “direitos” concedidos pelo Estado. Pessoas em necessidade devem ser ajudadas voluntariamente por outras pessoas, e não por obrigação, e por isso o “bem-estar social” não faria sentido independente do benefício real que produza.

Quanto ao problema ético da distribuição de recursos, a perspectiva anarcocapitalista é que um recurso pertence a quem chegar primeiro até ele e utilizar sua propriedade para adquiri-lo. Assim como na maior parte das perspectivas liberais, anarcocapitalistas partem da premissa econômica da escassez e do “homo economicus”. Mas não é a escassez que legitima a propriedade.

A ética anarcocapitalista dita que você não é obrigado a dividir as maçãs de uma macieira que é sua, mesmo que outras pessoas famintas implorem, mesmo que seja sua mãe ou seus filhos, mesmo que elas tenham plantado e cuidado da macieira (porém não tenham estabelecido relação de propriedade). Nada pode te obrigar a compartilhar o que é seu, exclusivamente seu. Se você decidir compartilhar, é por bondade e generosidade sua. E o anarcocapitalismo não está interessado em discutir a bondade e a generosidade das pessoas, ou mesmo se essas características subjetivas possuem funções econômicas. Ela é uma filosofia que não trata de outras questões morais, apenas da justiça da propriedade. A doação não faz parte de seus problemas. Vale enfatizar, essa ética não pode admitir contradição dependendo do contexto, ela deve ser necessariamente verdadeira.

Pode parecer cruel que uma pessoa não tenha direito de roubar um pão para alimentar seus filhos em hipótese alguma, mas na perspectiva anarcocapitalista isso produz um benefício geral. Uma vez que as pessoas querem sobreviver, e precisam sobreviver apenas com o que conseguem produzir, elas precisam tomar cuidado com as decisões que fazem. O que significa que, com o passar do tempo, as pessoas que tomam decisões melhores sobrevivem, as que tomam decisões erradas morrem. E isso para eles significa um acúmulo de conhecimento, uma evolução no processo de tomada de decisões, que nos leva a aprimorar nossas capacidades. Segundo José Geraldo Gouvêa, Ayn Rand partiu do darwinismo social “para argumentar que a ‘mão invisível’ do mercado regularia o egoísmo dos indivíduos de maneira a obter o resultado ótimo para a sociedade”. Logo, o que ancaps entendem por ética pode ser bem diferente do que geralmente se encontra nos estudos sobre ética.

Na minha experiência conversando com essas pessoas, eu diria que anarcocapitalistas não são necessariamente pessoas totalmente acríticas, doutrinadas ou zumbis que sofreram lavagem cerebral de um think tank liberal. Isso quer dizer que são capazes de compreender as críticas à sua ideologia e de fazer autocrítica. A acusação de que estão sendo doutrinadas não será muito efetiva. Os princípios liberais valorizam o exemplo e são contrários à ideia de interferir na vida de outras pessoas.

Críticas relevantes ao anarcocapitalismo, segundo os liberais

Embora na internet exista uma cultura de refutação, um debate sério não pode se reduzir uma série de refutações de ideias contrárias. Já que muitos ancaps acreditam serem capazes de “vencer debates”, o ideal seria providenciar um ambiente em que um debate realmente sério possa ocorrer, e permitir que eles defendam (propositivamente) suas ideias, mostrando exemplos e a aplicabilidade da teoria ao invés de inverter o ônus da prova (quem afirma é que precisa demonstrar suas razões) e ficar apenas na retórica. Quanto mais ancaps expõem o que realmente acreditam e aproximam isso com a realidade prática, mais os problemas e fragilidades se tornarão visíveis.

O ponto central para criticar o anarcocapitalismo é a bifurcação entre Estado e mercado. Existe uma crença de que o livre mercado é a única alternativa viável ao Estado. O mercado seria não apenas primário como também totalizante na manutenção de todas as relações sociais, e isso distingue o anarcocapitalismo de outras correntes liberais ou socialistas. Outros liberais podem até mesmo considerar o anarcocapitalismo como reducionista e determinista, pois consideram o mercado como apenas um dos aspectos da sociedade. Religião, ciência, ética e tecnologia, por exemplo, seriam outros aspectos da sociedade que não podem estar totalmente subordinados ao mercado. Anarcocapitalistas entendem o mercado como uma esfera especial cuja validade é axiomática.

Teóricos do anarcocapitalismo pretendem rejeitar qualquer associação entre o Estado e o mercado, mas não enxergam problema na existência de uma pessoa excepcionalmente boa em acumular propriedades. Para eles, isso acontece naturalmente, e seria uma violência construir um sistema para impedir estas pessoas de acumularem poder ou privilégios. Para eles, o mercado é natural, e a natureza é individualista, voluntarista e competitiva. Logo, a crítica a eles precisa levar em conta também o conceito de sociedade e natureza. Não basta uma crítica ao capitalismo atual.

Algumas críticas ao libertarianismo como um todo também se aplicam ao anarcocapitalismo, com algumas ressalvas. Segundo Alex Merced, professor de um curso sobre libertarianismo, as críticas mais relevantes ao libertarianismo são:

“O livre mercado aumenta a desigualdade humana”

A esquerda geralmente argumenta que o Estado é a única proteção da população pobre contra a exploração desregulada dos ricos e donos de empresas. Na perspectiva ancap, o livre mercado não pode ser culpado pela desigualdade, pois a desigualdade é um resultado inevitável da vida social, e a intervenção do Estado apenas aumenta a desigualdade ao impedir a livre competição. Então a menor desigualdade possível é a desigualdade natural que ocorre no livre mercado. O mercado é necessário para a sociedade, e não há outro modo de distribuir recursos sem interferir na liberdade individual que não seja pelas trocas voluntárias. Qualquer outro sistema de distribuição de recursos implicaria em coerção social e produziria um totalitarismo.

Porém, ancaps não necessariamente acreditam na total ausência de regulação de mercado. Alguns podem sugerir modelos de regulação descentralizada de mercado, ou seja, regulação independente de instituições estatais. Novamente, a ideia seriam regras surgindo de modo emergente das relações, sem nenhuma coerção social. A desigualdade natural deveria ser aceita como aceitamos a agressividade natural. Qualquer tentativa de reprimi-la implicaria numa erupção de desigualdade acumulada em algum momento. A crítica mais relevante, nesse caso, seria questionar o argumento que naturaliza a estrutura desigual da sociedade, que só é possível a partir do acúmulo de excedentes.

“A ética libertariana é individualista”

A ética ancap é um pouco diferente da ética da maioria dos liberais. Liberais tendem a defender o utilitarismo de Bentham e Stuart Mill. Já a moralidade ancap seria resumida assim: o que quer que não seja obrigatório é moral. Toda ação humana é moral contanto que não agrida ou atropele outra pessoa. Não se trata de fazer recomendações sobre como se deve agir, seria apenas uma teoria sobre quando é “apropriado” usar sua força: somente em autodefesa. Nunca é apropriado iniciar força sobre outros que não fizeram nada com você. Ancaps discutem como seriam os sistemas para lidar com pessoas que quebram essa regra. O princípio de não agressão apenas indica uma moldura para a consideração ética, mas não é uma filosofia moral completa. Diversas formas de moralidade poderiam se encaixar nessa moldura e não caberia ao anarcocapitalismo definir quais seriam mais apropriadas. Essa suposta neutralidade também é um problema discutido na crítica filosófica ao utilitarismo, e portanto parte da crítica ao utilitarismo poderia atingir também a teoria anarcocapitalista, mesmo que ancaps sejam contra o utilitarismo.

“O capitalismo é ambientalmente insustentável”

Enquanto perspectivas como o ecossocialismo acusam o industrialismo e o desenvolvimentismo capitalista de causar degradação ambiental, ancaps não se sentem na responsabilidade de resolver nenhuma questão ecológica. Uma vez que o anarcocapitalismo seria a própria teoria da liberdade humana, não há porque supor que seres humanos fazendo escolhas livres vão escolher o pior para o meio ambiente. As escolhas livres são naturais, pessoas livres sempre irão escolher o curso de ação de menor custo por causa de seu interesse inerente em eficiência, logo não faz sentido cobrar que as pessoas façam algo “ecológico”. Para alguns, os problemas ambientais seriam causados justamente pela ausência de propriedade privada sobre os recursos do planeta. Segundo uma concepção controversa conhecida como “tragédia dos comuns”, quando algo não é de ninguém e a responsabilidade de cuidar é compartilhada por todos, as pessoas tendem a esperar que outras façam o trabalho, e ninguém acaba fazendo, sendo assim aquele bem coletivo se perde. A solução para o meio ambiente, para ancaps, seria a privatização de todos os recursos naturais.

A maioria dos economistas tem dificuldades de aceitar as limitações ecológicas para o crescimento econômico. Por isso tendem a reduzir essa limitação a uma questão de desenvolvimento científico e tecnológico ou reorganização social. Se existem externalidades que não podem ser resolvidas pelo próprio mercado, isso implicaria numa limitação para a legitimidade da apropriação original. Numa sociedade complexa, a única instância capaz de realizar essa limitação seria uma autoridade do tipo estatal.

É importante não confundir a teoria do limite econômico com a teoria da escassez. A escassez implica em meios limitados para fins infinitos. O anarcocapitalismo afirma ao mesmo tempo a escassez e a ausência de limite do crescimento, pois embora haja concorrência pela posse de um recurso escasso, o uso dos recursos não pode ser limitado por uma instância superior. Isso é: nem todo mundo realizará sua vontade com o mesmo meio, mas tudo que existe pode servir para realizar a vontade de alguém. Não pode existir limite para o que pode se tornar sua propriedade, exceto o que é propriedade de outra pessoa.

Segundo a perspectiva da ecologia social, a administração de externalidades negativas (efeitos negativos que afetam a sociedade como um todo, como a poluição) é inviável sem uma representação coletiva, e este tipo de conflito de interesse acabaria exigindo a criação de autoridades para evitar o abuso privado ou coletivo dos recursos naturais numa sociedade industrial.

“O anarcocapitalismo é purista ou idealista demais”

O anarcocapitalismo, mais ainda que o minarquismo, apresenta uma visão de mundo que parte de princípios irrefutáveis, axiomas ou verdades analíticas. Na prática, a realidade é muito mais complexa que o modelo teórico. A liberdade que procuram é um ideal abstrato que nunca existiu. Por isso, o anarcocapitalismo acaba se juntando a outras ideologias puristas, como o nacionalismo branco (Stefan Molyneux e Richard Spencer são dois exemplos disso). A associação voluntária de indivíduos depende de mais do que um simples pacto de não agressão. Hoppeanos chegam a defender abertamente a “remoção física“, isso é, intolerância ativa a quem defende ideias que não combinam com os seus princípios éticos.

O ideal anarcocapitalista dificilmente funcionaria em economias grandes e complexas, que exigem algum grau de coordenação centralizada para funcionar de modo eficiente. Na prática, algumas empresas precisariam fazer o papel do Estado para coordenar a relação complexa entre produtores e consumidores finais.

Na esfera moral, conservadores defendem a necessidade do Estado para evitar a decadência moral e a perda da estrutura social. Anarcocapitalistas, no outro extremo, consideram que obrigações morais são eticamente inaceitáveis, porque atentam contra a liberdade humana, um valor inegociável. Na prática, porém, se a defesa de valores humanos se reduz à vontade de indivíduos, o resultado provável é a inexistência de valores comuns. A extrema relativização ou subjetivação de valores tem as mesmas consequências práticas da negação dos valores compartilhados, e nunca houve uma sociedade de massas em que valores comuns fossem mantidos sem algum tipo de autoridade socialmente estabelecida. Existe também um problema fundamental na distinção entre “obrigação” e “proibição”, que não é necessariamente objetiva ou analítica.

O que leva alguém a se tornar anarcocapitalista?

Se existem tantos argumentos contra o anarcocapitalismo, porque ele parece tão atraente e tão bem fundamentado para tantas pessoas? Há diversas formas de explicar isso, mas eu quero resumir algumas ideias anarcocapitalistas que, se tomadas separadamente, podem fazer muito sentido. Por exemplo:

“Quando você perceber que para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e pela influência, mais que pelo trabalho; que as leis não nos protegem deles mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto-sacrifício, então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.” – Ayn Rand (1905-1982), filósofa russa-americana.

Apesar de ser criadora de uma corrente filosófica que não é reconhecida como tal pela comunidade acadêmica, e cometer diversos equívocos teóricos, Ayn Rand tinha uma capacidade retórica admirável, o que a fez atrair diversos seguidores. Mais ou menos como Olavo de Carvalho faz hoje. Com seu livro de ficção, “A revolta de Atlas”, ela conquistou a imaginação de diversas pessoas e influenciou uma geração de economistas e capitalistas americanos.

É possível entender que, quando esses autores falam de capitalismo e anarquismo, estão falando basicamente de um conceito de natureza humana que parte de uma distinção entre social (tudo que aquilo que é imposto de forma coercitiva ao indivíduo) e individual (tudo aquilo que é criado espontaneamente e naturalmente a partir de interações livres entre indivíduos). A sociedade só pode ser livre se os indivíduos que a formam são livres e se relacionam voluntariamente. Este apelo ao indivíduo e seus desejos pode ser bastante tentador numa era de liberação contra moralismos e imposições sociais.

Em certo sentido, a teoria ética do anarcocapitalismo é uma radicalização da teoria econômica baseada em modelos matemáticos, como a econometria. Ela guarda uma semelhança peculiar com esquemas disfuncionais/desadaptativos produzidos pelo estresse pós-traumático: supervalorização da regra em detrimento do contexto. Pessoas que sofrem traumas tendem a criar regras extremamente rígidas para evitar qualquer tipo de violação/agressão. Nesse processo, elas se isolam socialmente. Não quer dizer que ancaps em geral são pessoas traumatizadas. Mas é possível que o aprofundamento da crise da sociabilidade na modernidade, produzindo certos efeitos psicossociais, acabe também tornando as pessoas mais suscetíveis a esse tipo de abordagem ou visão de mundo.

Qual a maior dificuldade da esquerda em lidar com ancaps?

Na minha humilde opinião, o que mais dificulta a esquerda na tarefa de conter o avanço do anarcocapitalismo é não compreender o que ancaps estão realmente dizendo. A asserção de que o capitalismo é inseparável do Estado é insuficiente, pois o que eles compreendem por capitalismo e Estado vem de uma tradição teórica completamente diferente. Trata-se de princípios da ação humana, como eu pretendi demonstrar. A resposta precisa retornar ao âmago do liberalismo, questionando, por exemplo: o conceito de indivíduo, de liberdade, de direito, de propriedade, de sociedade e de escassez.

Como fazer isso? Minha sugestão é questionar o mito do “homo economicus” e compreender criticamente o paradigma econômico no qual o anarcocapitalismo, e o capitalismo como um todo, está fundado. Por exemplo, as compreensões básicas sobre a natureza das decisões racionais, ou da ação humana, e a teoria da escassez. As teorias anarcocapitalistas não conseguem explicar adequadamente as relações de interdependência entre seres humanos e o ecossistema. Uma perspectiva ecológica da economia é uma boa alternativa de crítica ao capitalismo, pois ela não pode ser imediatamente recusada com base numa crítica ao “comunismo”, que é o tipo de resposta padrão de ancaps.

A teoria anarcocapitalista também pode ser criticada pelo seu enviesamento normativo, mesmo quando tentam se esconder por detrás da “meta-ética”. Isso é, ela não explica como as coisas são, mas descreve um mundo ideal, baseado num princípio de eficiência que em geral não se encontra na natureza, e muito menos no fenômeno social humano. Aqui cabe uma crítica epistemológica, que não é fácil de compreender, porém que atinge o cerne da filosofia ancap.

Outro ponto seria o pressuposto da racionalidade da ação humana. Uma vez que o “homem econômico” é uma ficção, e que pessoas reais se comportam de modo muito diferente do que indivíduos que apenas buscam “otimizar seus ganhos”, o pressuposto praxiológico é colocado em xeque. Evidências empíricas de que o modelo liberal de escolha racional não combina com as teorias do comportamento humano mais atuais podem servir para chamar ancaps de volta à realidade social, mas infelizmente eles podem estar isolados dessa realidade por fatores psicossociais.

Apontar evidências não irá funcionar com todos, assim como evidências não convencem terraplanistas de que a terra não é plana, mas pode semear a dúvida que os levará a reconsiderar essa ideologia quando, e se, amadurecerem intelectualmente. Logo, o mais eficiente seria conversar de modo mais paciente justamente com os ancaps mais novos, e não com os mais velhos, que tem menos probabilidade de mudar de ideia. Por isso, ridicularizar ancaps pela idade deles não é uma boa estratégia. A maioria deles são garotos realmente inteligentes, porém socialmente isolados e que PODEM estar perturbados por alguma experiência traumática (embora não haja uma relação direta).

Um ponto central a ser enfatizado numa conversa com ancaps é que o ser humano não age apenas em auto-interesse. A teoria da empatia demonstra que agimos também em interesse de outros, e que é racional equilibrar o Eu e o Outro na ação humana. Embora a teoria de Ayn Rand afirme o contrário (ela defende o egoísmo virtuoso), essa teoria não é realmente aplicável e não tem relevância nas áreas que estudam o comportamento humano.

Ancaps estão entre os mais visados para serem aliciados ou recrutados por extremistas de direta (nacionalistas brancos e neofascistas), mas é bom lembrar que eles não são necessariamente fascistas. Uma mistura de empatia, possibilidade de sociabilidade real e referências teóricas menos dogmáticas (mais abertas à possibilidade de crítica e autocrítica) pode ser um diferencial para afastá-los do extremismo.

Fontes de pesquisa:

Sociedade contra o Estado: Libertário é sinônimo de anarquista

Anarcocapitalismo provado, por Alexandre Porto

A origem da propriedade privada e da família, por Hans-Hermann Hoppe

A nova direita, o ”libertarianismo” e o anarcocapitalismo, por André Guimarães Augusto

Ideias Radicais, por Raphael Lima

Libertarianism 101 – Understanding Libertarians, por Alex Merced

FAQ anarcocapitalista, por Bryan Caplan

The New Right and Anarcho-capitalism, por Peter Marshall

Exclusive Interview With Murray Rothbard

Rothbardian Ethics, por Hans-Hermann Hoppe

The “Stirner Wasn’t A Capitalist You Fucking Idiot” Cheat Sheet

Classical Liberalism versus Anarchocapitalism, por Jesús Huerta de Soto

On Anarchism, entrevista com Noam Chomsky

Anarcho-capitalism dissolves into city states, por Paul Birch

Contra a praxeologia, a favor da ciência

The Property and Freedom Society

Understanding “Austrian” Economics, por Henry Hazlitt

Adam Smith to Richard Spencer: Why Libertarians turn to the Alt-Right, por Elliot Gulliver-Needham

Haverá escravidão no ancapistão?

A moralidade da remoção física hoppeana

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

33 comentários em “Como entender e responder o anarcocapitalismo?”

  1. Não é clichê mas seu artigo está errado desde o primeiro parágrafo, quando diz que “anarquistas são contrários ao capitalismo”. Os anarcocapitalistas usam esse nome exatamente para se diferenciar dos que você considera como anarquistas. Os “anarquistas” (pessoas que se apropriaram do termo para designar um movimento errado) a rigor não são anarquistas exatamente por INCLUIR o capitalismo como algo a ser superado. Para ser curto, seu artigo discorre longamente sobre suposições de institutos que, por alguma maneira que ninguém sabe, só funcionaria se fosse prestado por uma instituição chamada “estado”. Isso se chama: ideologia. Não existe absolutamente nenhuma comprovação de que somente o Estado pode prestar este ou aquele serviço. Aliás, sequer anarcocapitalistas como David Friedman dizem isso. Dois: anarquismo é ausência de Estado. Não é ausência de capitalismo. Entendeu? Para não alongar: pesquise o surgimento do termo “anarquismo”, o qual remonta a tempos bem anteriores à existência da ideia de capitalismo. Aqui: “O termo anarquismo é composto pela palavra anarquia e pelo sufixo -ismo, derivando do grego ἀναρχος, transliterado anarkhos, que significa “sem governantes”. O que quero explicar é: para de incluir capitalismo como algo incluso na pauta REAL da anarquia. Anarquia é ausência de Estado, não de capitalismo.

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    1. A referência citada no primeiro parágrafo é um texto da professora de filosofia Camila Jourdan (UERJ) e do professor de ciências sociais Acácio Augusto (UNIFESP). Ambos são referência em teoria anarquista no Brasil. O anarquismo está historicamente relacionado ao socialismo e à crítica ao capitalismo, como pode ser verificado na ampla literatura anarquista (Max Stirner, Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Emma Goldman e muitas outras). Sua afirmação de que não há anarquismo sem capitalismo não tem embasamento teórico.

      Seu argumento sugere que a crítica ao capitalismo implica numa defesa ao estado. O argumento do texto não leva de modo algum a essa conclusão. Anarquismo é ausência de estado e capitalismo, porque ambas são formas de concentração de poder nas mãos de poucos, e nas teorias sociais ambas estão relacionadas: o capitalismo só surge a partir do estado. A etimologia da palavra “anarquia” não é um argumento. Recomento que você leia a teoria anarquista.

      A oposição ao estado é central para o anarquismo, mas há muitas formas de definir o estado. O anarquismo é um conjunto de filosofias políticas que se opõem à organização hierárquica e autoritária da sociedade, e isso inclui a crítica ao capitalismo, ao nacionalismo, ao patriarcado, ao racismo e tudo mais. Anarquismo é muito mais que antiestatismo.

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      1. Volto a dizer: exatamente por esse erro que surgiu a expressão anarcocapitalismo. Não tivessem os que se denominam anarquistas utilizado erradamente esse termo para designar a ideia de ser contra propriedade privada, nós, anarcocapitalistas, usaríamos a expressão anarquismo. O que os movimentos do século 19, de socialistas, chama de anarquismo, não é anarquismo. Anarquismo é ausência de estatismo, de governos. Nada, absolutamente nada além disso. Qualquer pessoa que critique o anarcocapitalismo sem explicar que essa escolha do termo (ancap) se deve pelo motivo que falei, não está realizando uma exposição honesta da situação.

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      2. Proudhon usou o conceito de anarquia em 1840 em sua obra “O que é a propriedade?”, onde ele esboçava uma crítica à propriedade privada. A partir dessa discussão, o conceito de anarquia passou a ser usado como sinônimo de socialismo libertário. Não faz sentido disputar uma suposta pureza do termo e ignorar o sentido que ele adquiriu historicamente. O movimento anarquista se estabeleceu como um movimento anti-capitalista e anti-estatista compreendendo que capitalismo e estado são parte da mesma estrutura de poder que implica em dominação de classe. Você quer defender que os verdadeiros anarquistas são os anarcocapitalistas por uma questão meramente semântica. Essa não é uma discussão relevante para a crítica ao anarcocapitalismo. A questão depende do conceito de capitalismo e de estado. Há diferentes teorias sobre a relação entre capitalismo e estado nas ciências sociais, e o que geralmente se chama de “anarquismo” hoje nessa área é “socialismo libertário”, não um anti-estatismo de livre mercado.

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      3. Pois é. Exatamente por esse motivo os teóricos passaram a usar o termo anarcocapitalismo. Porque ficou associado anarquismo a também não aceitação da propriedade privada e não somente de ausência de governantes.

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      4. Cientistas sociais podem argumentar que o anarquismo não existia enquanto movimento com um conjunto de teorias e práticas distinto, antes do socialismo libertário. Teóricos como Bakunin e Kropotkin usaram um conceito que era vago e em geral associado a conotações negativas, como a ausência de ordem social, e o transformaram em um movimento social e político que visa a emancipação humana por meio da abolição da dominação de classes. Isso quer dizer, transformaram a anarquia em anarquismo. A palavra existia, mas não o conceito enquanto posição política. O motivo pelo qual o termo foi associado a uma crítica à propriedade privada tem a ver com o desenvolvimento de uma postura crítica, não com uma distorção ou deturpação de um termo.

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  2. Há vários conceitos errados neste artigo. A própria definição do que é capitalismo em economia. CAPITALISMO:
    sistema econômico baseado na legitimidade dos bens privados e na IRRESTRITA liberdade de comércio e indústria, com o principal objetivo de adquirir lucro. OU seja, no conceito clássico sequer entra a idéia de Estado, muito menos de qualquer regulação externa.
    O Estado sempre procura regular a economia por imposições coercitivas, por motivos utilitaristas, mesmo em regimes democráticos, nunca por bases éticas e morais.
    CAPITALISMO é: Propriedade privada + troca livre.
    Qualquer palavra a mais neste conceito descaracteriza o conceito de capitalismo.
    Outro absurdo de nível psiquiátrico, é ter a noção que indivíduos podem não existir. Parece que no entender do autor do artigo as pessoas nascem para servir às demais.
    E ainda no início do texto, sim, a esquerda sempre quis historicamente se apoderar do vocábulo “anarquia”, como se apenas parte desta vertente não quisesse o Estado presente.
    Anarquia , semelhante à MONArquia, significa sem “cabeça”.
    Explicando – Etimologia: A palavra monarca (do latim: monarcha) vem do grego μονάρχης (monarkhía, de μόνος, “um/singular,” e ἀρχων, “líder/chefe”), posteriormente no latim, monarcha, monarchìa, referindo-se a um soberano único. O termo Anarquismo é composto pela palavra anarquia e pelo sufixo -ismo, derivando do grego ἀναρχος, transliterado anarkhos, que significa “sem governantes”, a partir do prefixo ἀν-, an-, “sem” + ἄρχή, arkhê, “soberania, reino, magistratura” + o sufixo -ισμός, -ismós, da raiz verbal -ιζειν, -izein.
    Outro erro fundamental foi negar que não existem recursos escassos para os meios de produção. Então como equacionar o problema de vários interessados terem uma fazenda, fábrica, casa, etc, em uma determinada localidade geográfica?
    Afinal como diz o canal ANCAPSU: “- Como escolher quem vai morar na concorrida Av Vieira Souto, em Ipanema?”.
    Concluindo, devo dizer que a compilação de vários temas ancaps aqui foi deveras interessante, mas as críticas tem um
    olhar socialista bastante típico, logo como provado, deturpado.

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    1. Alex, acho que é importante compreender que o capitalismo não é um objeto de estudo exclusivo da economia, se trata de um termo complexo que comporta uma série de abordagens nas ciências sociais, e mesmo na economia, que é uma ciência social aplicada, há diferentes compreensões. Temos que superar essa tendência positivista de entender os termos de modo monolítico.

      Essa legitimidade da propriedade privada, o conceito de liberdade irrestrita do mercado e o lucro como fim são questionadas de várias formas por diversos teóricos das mais diversas linhas de pensamento e posicionamentos políticos. Não é porque não aparece a ideia de Estado ali que historicamente, materialmente, essas estruturas se desenvolveram de modo independente do Estado. Como eu já tratei no texto, essa compreensão dicotômica entre Estado e Mercado reflete uma única perspectiva e não necessariamente a realidade do fenômeno social. Tal definição reducionista de capitalismo não cabe mais nas ciências sociais. O que você chama de “descaracterização” é na verdade um desvelamento, uma problematização, uma análise mais profunda do fenômeno.

      Do mesmo modo, sua fala se apresente de modo impositivo quando você “patologiza” compreensões que escapam da sua norma ou esquema conceitual. A filosofia que questiona o conceito de indivíduo, não é coisa de louco, é coisa de quem tem qualificação intelectual para se aprofundar no pensamento crítico. Se você insiste em manter a conversa na superficialidade dos conceitos como eles se apresentam no dicionário, ou do senso comum, então você está se excluindo do debate filosófico.

      Por isso apelos a etimologia da palavra não tem relevância nesse debate. Se bastassem os dicionários comuns, não seria preciso escrever dicionários filosóficos, ou mesmo qualquer obra filosófica. Tudo estaria resolvido pelo que está estabelecido pela linguagem dominante. Mas não é assim que se faz filosofia.

      Não basta olhar para etimologia da palavra e ignorar os movimentos sociais e o uso real e concreto do termo historicamente. Quais foram os grupos sociais que adotaram o conceito de anarquia como mera negação do Estado, e quais grupos sociais o adotaram com um sentido diferente, compreendendo-se dentro de uma tradição anticapitalista? Essa é a questão. O uso social do termo é que molda sua semântica, seu significado no atual contexto.

      Os “erros fundamentais” que você está apontando na verdade partem de erros de argumentação da sua parte. Não existe possibilidade de diálogo sem partirmos de pressupostos comuns. No mínimo, é preciso que você aceite que, se partimos de uma abordagem diferente, não é por ignorarmos os fatos que você trouxe, mas por olharmos para além dele, por aplicarmos outra metodologia de análise. Para entender o que Rothbard e Hoppe dizem, eu precisei também me colocar no ponto de vista deles, porque se eu partisse simplesmente de um conceito socialista de capitalismo, eu não veria sentido nenhum no que eles dizem, e não seria capaz de compreender o pensamento deles. Do mesmo modo, para criticar o socialismo, é preciso colocar-se no ponto de vista do outro. Se você permanece fixo no seu, obviamente só a sua visão de mundo será correta. A capacidade de flexibilidade de pontos de vista é uma ferramenta do pensamento crítico.

      Por exemplo, quando você fala sobre a escassez, e pergunta: como resolver o problema X sem postular a escassez? Não tem como, porque se trata de uma abordagem que parte desse pressuposto. É como tentar resolver um problema de física sem o conceito de tempo e espaço. Porém, em outras abordagens da física teórica, tempo e espaço são relativos, fazendo-se necessário outras teorias para explicar os fenômenos de nível subatômico. É a mesma coisa na antropologia da economia, que trata do fenômeno econômico a partir de um nível completamente diferente. O que eu posso dizer é sugerir que você leia os autores dessa área pra compreender, como Marshall Sahlins. A economia também comporta diferentes paradigmas, como você pode ver em https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69091998000300002.

      Não existe necessariamente apenas um modo resolver o problema do conflito de interesses, porque os interesses humanos não são dados por natureza, eles também são em parte produtos de uma cultura. Numa economia de não-mercado, como afirmava Mauss, os problemas humanos não são resolvidos por leis de oferta e procura. Tais leis não são eternas e universais, mas existem também dentro de um contexto social. Na sociedade Guarani, por exemplo, onde não há conceito de propriedade, os conflitos são de outra natureza e as soluções também. É um outro tipo de economia. A crítica ao capitalismo pressupõe justamente que a economia é uma criação humana, e não um destino inevitável. Assim como construímos essa economia, podemos construir outras, com base em outros valores.

      A críticas ao anarco-capitalismo contidas aqui são apenas indicações de onde procurar outras abordagens e outras visões de mundo, e não refutações. Achar que o socialismo pode ser “refutado” por uma argumentação lógica idealista, unilateral e que toma conceitos de modo conivente e seletivo para afirmar aquilo que já se tem interesse de afirmar antes mesmo de iniciar a investigação é o que chamamos de desonestidade intelectual. Uma análise honesta precisa considerar conceitos de modo relativo a um esquema conceitual, ser capaz de compreender a mesma coisa por mais de um ponto de vista. Foi isso que eu tentei fazer nesse texto, e é isso que eu espero dos críticos dele.

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  3. Achei o texto bem interessante.

    Particularmente, eu acho que o anarcocapitalismo sofre de problemas semelhantes ao socialismo. Assim como ele, simplifica e reduz demasiadamente a complexidade do mundo. Tal como os socialistas, os anarcocapitalistas partem de uma série de premissas que enxergam como óbvias, mas que quando não estão incorretas, são insuficientes para criar um modelo que funcione no mundo real.

    Como você mencionou no texto, na ausência de um Estado, outro acaba por se formar no lugar. O melhor que se consegue é um Estado mínimo, cuja função seja basicamente a de evitar que algo pior surja no lugar. Este Estado deve ter seu tamanho e poder restritos por uma constituição que tenha mecanismos que possam prevenir seu crescimento descontrolado. Esse é o mais próximo de uma economia sem Estado que se pode chegar e se manter no longo prazo.

    E, de fato, a experiência mostra que os países que implementaram o liberalismo econômico, a estabilidade monetária, atingida por um equilíbrio das contas públicas, e evitaram o excesso de regulamentação econômica, atingiram um grande desenvolvimento, reduzindo drasticamente a pobreza em poucas décadas.

    No entanto, de um ponto de vista econômico, mesmo que um Estado nulo pudesse existir, ele muito provavelmente não seria o mais desejável. O mercado funcionaria com máxima eficiência sem precisar de intervenção externa apenas se não existissem externalidades na economia. Como elas existem, a presença de um Estado de tamanho moderado que se limite a mitigar ou eliminar essas externalidades acaba permitindo um nível de eficiência econômica maior do que uma economia puramente laissez-faire. É verdade que comparando-se uma economia laissez-faire com uma socialista, a segunda é muito menos eficiente mas, ainda assim, nenhuma das duas está no nível ótimo.

    Eu entendo que para os libertários, tanto quanto para os socialistas, eficiência econômica não é o objetivo principal, mas acredito que certamente é um item que tenha um peso forte na defesa de qualquer sistema político-econômico.

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    1. Existem diversas perspectivas econômicas socialistas. Alguns acreditam em Estado forte, estatização da indústria de base e planejamento econômico centralizado. Outros querem apenas reformas, conciliação de classes ou socialdemocracia. O anarquismo (socialismo libertário e demais correntes) também tem diferentes entendimentos sobre economia. Em geral a ideia não é crescimento econômico e sim acabar com os mecanismos de exploração do trabalho. A perspectiva econômica socialista geralmente é internacionalista, pois dificilmente funcionaria no nível nacional, como os experimentos históricos podem comprovar.

      Eu não sei muito sobre economia mas me parece que o que você disse está em linha com o keynesianismo, que aparentemente se tornou como que a principal vertente econômica hoje. E nesse cenário os monetaristas ou neoliberais se apresentam como se fossem “revolucionários” se opondo a uma teoria dominante. Não sei se isso é verdade. Gostaria de saber sua opinião.

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      1. Na realidade, o keynesianismo deixou de ser a teoria mais aceita após as crises da década de 1980. Dentre as ideias defendidas por Keynes, estava a de que a inflação era causada muito mais pelo nível de emprego do que pelo aumento da oferta monetária.

        Para Keynes, não seria possível haver desemprego em alta e inflação ao mesmo tempo. No entanto, isso foi exatamente o que ocorreu nessa época. O fenômeno de desemprego elevado, combinado à recessão econômica e inflação alta recebeu o nome de estagflação. Essa crise acabou por falsear a maior parte da teoria Keynesiana, embora muitos economistas ainda considerem as ideias de usar expansão monenetária e política fiscal expansionista como boas estratégias para encurtar alguns tipos de recessões econômicas causadas ou agravadas por um choque de demanda.

        Até onde eu sei, a teoria dominante entre os economistas atualmente é a neoclássica, embora ainda haja economistas neokeynesianos e mesmo Austríacos (ainda que não sejam mais mainstream).

        No que diz respeito aos objetivos, de fato, como você mencionou no texto e como venho percebendo ao longo dos anos, para a maioria dos anarcocapitalistas, a abolição do Estado é mais uma necessidade ética para acabar com a coerção do que uma estratégia para elevar a eficiência econômica.

        No que diz respeito ao socialismo, confesso que desde a época do colégio, quando aprendi sobre a teoria da exploração pela primeira vez, o conceito de mais-valia não fez muito sentido para mim.

        Por exemplo: se um operário de uma fábrica produz R$1.200,00 em valor para a empresa, mas recebe R$1.000,00 de salário, então a diferença de R$200,00 estaria sendo indevidamente embolsada pelo empregador, sendo esta chamada de mais-valia e vista como um forma de exploração, correto?

        Para mim, não faz nenhum sentido esperar que o empregador pagasse R$1.200,00 ao funcionário pois, se o fizesse, ele não teria nenhum motivo para contratá-lo, já que ele não ganharia nada com isso. Ademais, quando um funcionário produz R$1.200,00 em valor na empresa, ele só o faz porque pode usar as máquinas, estrutura logística, o nome da empresa, etc. Ele não produz R$1.200,00 sozinho, produz em conjunto com o empregador. Sem o empregador lhe emprestando todos os recursos e trabalhando para ordená-los junto com os demais funcionários, a produção dele seria muito menor do que R$1.200,00. Muito menor inclusive que R$1.000,00. É por isso que é muito mais vantajoso para ele trabalhar para a empresa pagando esse “aluguel” de R$200,00, do que tentar produzir os mesmos bens por conta própria.

        Repare que o dono da empresa (ou algum antepassado dele) teve que se sacrificar por anos poupando para abrir um negócio, ou arriscar-se pegando um empréstimo para começar uma empreitada que não sabia se seria bem-sucedida. Levou muito tempo para construir uma marca e conquistar um mercado consumidor.

        Uma grande parte dos empresários já foi à falência ao menos uma vez e, frequentemente, são os primeiros a chegar e os últimos a deixar a trabalho. O empregado chegou quando tudo já estava pronto e teve a permissão se usar toda essa infraestrutura para produzir uma quantidade de valor muito maior que produziria sozinho, sem ter que passar por todo o processo de começar um negócio por conta própria. Por que Marx acha que ele deveria ficar com o valor integral da produção, se ele não produziu aquele valor sozinho?

        Note que não estou aqui tentando discutir sobre o mérito do empresário em ter aberto um negócio e ter sido bem-sucedido versus o mérito do operário. Se o empresário começou tudo do zero e se sacrificou muito desde o início para chegar onde chegou ou se simplesmente herdou tudo pronto é pouco relevante para minha pergunta.

        Meu ponto é que, sem o empresário, a vida do operário estaria pior, já que ele seria forçado a trabalhar por conta própria ganhando muito menos do que recebe de salário. Faria sentido para mim chamar de exploração se ele pudesse ganhar mais sozinho mas fosse obrigado a trabalhar na empresa ganhando menos porque foi coagido. Semelhante ao que ocorria (e talvez ainda ocorra) em partes do Brasil em que os pequenos produtores eram obrigados a vender sua produção para o coronel (que pagava menos por ela) sob a ameaça de morte (ou coisa pior) caso se atrevessem a vender para outro. Nesse caso, claramente há uma exploração ocorrendo. Mas é uma situação bem diferente do exemplo anterior.

        Podemos também pensar em uma situação extrema de uma pessoa com a carteira cheia de dinheiro mas prestes a morrer de sede em um deserto. Quando está quase perecendo, aparece um vendedor de água mineral vendendo uma garrafa a R$10.000,00, os quais a pessoa aceita pagar para salvar sua vida.

        Neste caso, eu concordo totalmente que essa é uma atitude desprezível do vendedor de água e que qualquer ser humano com o mínimo de decência não se aproveitaria de uma situação como essa, então não vejo problema em chamar isso de exploração, mesmo sem haver coerção. Pode não ter sido o vendedor quem colocou a pessoa naquela situação, mas ele sabe que a única escolha que ela tem é comprar a água dele, senão irá morrer de sede. Mas, novamente, essa é um situação muito diferente do que ocorre nas relações entre empregadores e empregados no mundo real.

        Primeiro que não há uma única empresa na qual alguém pode se empregar. Se uma oferece remuneração muito abaixo do que o funcionário produz, ele pode procurar outra empresa que pague melhor. Se não houver nenhuma empresa disposta a pagar um valor maior do que ele ganharia trabalhando sozinho, então ele irá trabalhar por conta própria.

        O problema para mim é que, da forma com Marx definiu o conceito de mais-valia, me parece que qualquer que fosse a margem de lucro, ainda haveria exploração.

        Se o operário produzisse R$1.200,00 em valor e recebesse R$1.199,00 de salário, essa diferença de R$1,00 ainda seria chamada de mais-valia e, segundo Marx, ainda haveria exploração, ainda que numa escala muito menor, correto? E é isso que não faz sentido para mim: Por que Marx acha que o empresário não deveria receber nada, sendo que sem o trabalho e os recursos dele (conquistados ou herdados) o funcionário produziria muito menos?

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      2. Só uma correção: Eu disse a crise da década de 1980, mas é importante mencionar que ela se iniciou nos anos 1970, com os dois choques no preço do petróleo em 1973 e 1979, respectivamente, embora tenha se extendido ao longo dos anos 1980 em vários países. No caso do Brasil, ela só terminou com a chegada do Plano Real, em 1994.

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      3. Realmente faz muito mais sentido que a corrente neoclássica seja a mainstream hoje. Obrigado pelas informações.

        Também nunca fui fã de Marx e comecei a entender melhor somente no mestrado em Sociologia. Eu estava na área de sociologia do trabalho e tinha vários professores marxistas. Mas eu continuo me identificando como anarquista.

        Realmente não faz nenhum sentido dentro da lógica do lucro esperar que o empregador pague o “salário justo” ao empregado, ou seja, o valor total do seu trabalho (e Marx não estava propondo isso), porque, como você disse, o trabalhador não produziria aquele valor sem a máquina que é do empresário, e existem outros gastos para a empresa funcionar. Porém a mais-valia é mais complexa que isso. É preciso entender a questão da comodificação do trabalho, a transformação do trabalhador em “mercadoria”, que o dono da fábrica compra para que a fábrica produza. Para Marx, essa relação entre o dono e o empregado leva a uma contradição, um conflito sem conciliação possível. Ao mesmo tempo que o trabalhador não produziria tanto sem as máquinas, o empregador e as máquinas não produzem sem os trabalhadores, e o empregador não compra máquinas com o próprio trabalho, mas sim com capital que vem do trabalho de outros. Então no fim os trabalhadores também pagaram pelas máquinas.

        A máquina permite maior produção, o que diminui o preço do produto. O artesão que vende o mesmo produto feito à mão não consegue mais vender seu produto pelo mesmo preço, porque o mesmo produto é vendido pela fábrica por um preço menor, desvalorizando o trabalho do artesão e obrigando ele a deixar de ser dono do que produz e se tornar empregado da fábrica. Enquanto o dono da fábrica recebe pelos produtos que vende, o que o empregado vende é sua própria força de trabalho, seu tempo, sua vida.

        Dentro dessa lógica, o dono dos meios de produção sempre poderá obter lucro, reinvestir na expansão do negócio e ganhar mais dinheiro. Ele tem acesso a uma mercadoria que produz lucro, que é a força de trabalho dos outros. O trabalhador não tem acesso a essa mercadoria, a mercadoria que ele compra são os bens que ele precisa para sua subsistência, bens que não geram lucro. O trabalhador tende a receber menos, porque na medida em que o desenvolvimento das forças produtivas ocorre, o próprio trabalhador é substituído por máquinas, tornando-se descartável e por isso seu trabalho vale cada vez menos, enquanto o consumo precisa crescer.

        Tudo isso deve ser entendido no contexto histórico correto, ele estava analisando a situação da Inglaterra pós-revolução industrial.

        Para Marx não faria sentido dizer que o empregador empresta as máquinas para que o trabalhador produza, porque ele não produziu nem as máquinas, nem os produtos que ele vendeu para pagar pelas máquinas. Pulando para a conclusão, a propriedade privada dos meios de produção faz com que os proprietários enriqueçam cada vez mais, enquanto os trabalhadores trabalhem cada vez mais recebendo cada vez menos. O resultado disso seria uma situação em que o proletariado estaria tão desvalorizado que não poderia mais pagar pela sua própria subsistência, não importa o quanto trabalhe, levando-o a se revoltar. O acirramento do conflito levaria a uma revolução social semelhante à revolução francesa, na qual a classe proprietária seria destituída e os meios de produção seriam socializados entre os trabalhadores.

        Nessa lógica também não faz sentido dizer que o capital inicial da empresa veio do trabalho duro de alguém. A acumulação primitiva de capital se deu na base da violência e expropriação. Os donos de capital são herdeiros de colonizadores e donos de escravos. O ideal de “self-made man”, de começar pobre e terminar rico com seu próprio esforço, é parte do que Marx chama de ideologia, uma inversão da realidade, é um mito. A própria estrutura do capital produz desigualdade econômica, que gera desigualdade de acesso e desigualdade social, que se reproduz e é institucionalizada. Por exemplo, o filho do proletário não terá acesso às mesmas oportunidades que o filho do proprietário.

        A narrativa de que a riqueza é uma recompensa pela disciplina pessoal vem, segundo um outro autor da sociologia, Max Weber, de uma crença religiosa. Foram os protestantes que, por causa do rompimento com a igreja católica, criaram uma ética ascética para poder se diferenciar nos “iníquos”. É que na fé católica sua salvação estava garantida pela compra de indulgência ou expiação no ritual da comunhão. Mas os protestantes romperam com isso e precisavam demonstrar que são salvos no seu modo de agir. Isso logo foi interpretado como uma disciplina ascética, ou seja, de poupar seu dinheiro, não gastar com regalias, e dedicar-se ao trabalho. Antes do Lutero, o trabalho mundano, como do sapateiro, não podia ser dedicado a Deus. O trabalho dedicado a Deus era sacerdotal somente. Lutero transformou o conceito de profissão, dando um sentido moral/religioso ao trabalho mundano. O homem poderia servir a Deus ao servir o próprio homem. Por isso a relação de afinidade entre ética protestante e o “espírito” do capitalismo.

        Hoje em dia praticamente não há sociólogo que acredite no discurso meritocrático, seja ele marxista ou não. Principalmente na sociologia do trabalho, onde os dados demonstram que a precarização do trabalho anda junto com as políticas do liberalismo econômico, por mais que os economistas queiram negar isso. Existe um conflito de interpretação dos dados entre sociólogos e economistas.

        Mas voltando a Marx, ele não acha que o trabalhador “deveria ficar com o valor integral da produção”. Ele não defendeu aumento de salários. Ao contrário, ele demonstrou que isso é uma forma de iludir o trabalhador. Não importa o quanto o trabalhador ganhe, a classe proprietária dos meios de produção é dona do jogo. Um dono de fábrica pode perder tudo, mas a classe dele sempre ganha, enquanto a classe trabalhadora sempre perde. Ninguém produz nada sozinho, isso é certo. Mas enquanto classe, os trabalhadores permanecerão trabalhando mais e recebendo menos, enquanto o oposto ocorre na classe proprietária. A análise marxista só pode ser entendida no plano social. Se você joga para o plano individual, ela perde o sentido. É isso que ele chamou de consciência de classe: ao invés de se satisfazer com um salário melhor, o trabalhador deveria compreender que a classe trabalhadora em si permanecerá pobre, independente daqueles que se tornam ricos. A classe proprietária continuará rica, independente daqueles que se tornam pobres.

        Se o operário se tornou dependente do empresário, o empresário por outro lado também é dependente do operário. Essa é a dialética senhor-escravo de Hegel. Se
        a vida do trabalhador se torna pior sem estar empregado, por outro lado isso é só acontece porque a sociedade capitalista gira em torno da produção e consumo massivo de mercadorias. Sem emprego, eu não tenho mais acesso aos meios para produzir minha própria subsistência, porque esses meios foram expropriados pelo classe proprietária. Por exemplo, a terra para produzir alimento.

        A vida do trabalhador era relativamente melhor antes das fábricas, porque ele era dono do produto do seu trabalho. Foi o próprio modo de produção capitalista que forçou o trabalhador a vender seu trabalho em troca de salário. Ele ganharia mais empregando seu tempo para garantir sua própria subsistência: fazendo suas roupas, produzindo sua comida, e trocando com outros trabalhadores próximos. No contexto da revolução industrial, porém, isso não é mais possível. A exploração está pressuposta na falta de opção que é resultado da condição material da própria acumulação de capital, do desenvolvimento das forças produtivas (as máquinas) e da urbanização.

        Para Marx, a mesma lógica que você descreveu na relação entre pequenos produtores e os coronéis acontece no capitalismo, porém num nível social mais amplo. Os liberais porém partem do pressuposto que as condições que tornam mais vantajoso vender sua vida por um salário mínimo são dadas, constitutivas da realidade social, como se sempre tivesse sido assim, como se fosse natural. Enquanto marxistas compreendem que essas condições foram construídas pelas classes dominantes para garantir sua dominação, portanto não são naturais, são relações de exploração que implicam em violência.

        A crença de que o trabalhador é livre, para o marxismo, é uma ideologia. Não corresponde a uma análise histórica, material, empírica e cientificamente válida da sociedade. Corresponde a uma análise falsa, como se vacas acreditassem que estão na fazenda para serem alimentadas e bem cuidadas, e não para serem engordadas e comidas. Os marxistas dedicam boa parte de seus esforços teóricos para desvelar essa realidade e demonstrar o falseamento da realidade produzido pela ideologia liberal.

        Mas numa coisa você tá certo: segundo Marx, qualquer que fosse a margem de lucro, ainda haveria exploração. A exploração é inerente ao sistema, não pode ser desfeita por um ajuste salarial. Ela é estrutural das relações sociais na sociedade capitalista. Por isso mesmo é que não cabe reforma, é preciso abolir o capitalismo.

        Marx não acha que o empresário não deveria receber nada. O que ele defendeu é que a propriedade privada dos meios de produção não deveria existir. Os meios de produção seriam socializados, a divisão de classe acabaria. Todos trabalhariam como que em cooperativas, em que todos os envolvidos no trabalho recebem o mesmo e compartilham as mesmas responsabilidades.

        Como eu disse, a proposta marxista não é aplicável no nível parcial. Ou você muda o mundo inteiro, ou então não vai funcionar. Mas ele estava convencido que no mundo inteiro iria acontecer o mesmo que na Inglaterra, os trabalhadores seriam sugados até não ter mais nada a perder, e aí os trabalhadores do mundo se juntariam para derrubar o capitalismo globalmente.

        Espero que isso tenha resolvido alguma dúvida.

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    2. Recomendo ler sobre o Problema do Cálculo Econômico. Demostra como o socialismo é uma impossibilidade econômica.

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  4. Boa tarde, Janos. Obrigado pela resposta e por sua disposição em me explicar a lógica do pensamento Marxista.

    Concordo com boa parte do que você disse, como na importância de se levar em conta o contexto histórico em que o Marxismo surgiu e também com o fato de as fábricas, ao produzirem bens a um custo menor do que os artesãos, acabam por obrigá-los a deixar seu ofício.

    Por outro lado, vejo alguns problemas com algumas afirmações.

    Quando você diz, por exemplo, que o empregador não está comprando uma máquina com o próprio trabalho, mas sim com o capital que veio do trabalho dos outros, eu não entendo porque esse seria o caso.

    Eu poderia ser o funcionário de uma empresa que passei um bom tempo juntando dinheiro do meu salário. Eventualmente, eu peço demissão e uso minhas reservas para abrir um negócio. Neste caso, como dizer que não paguei pelas máquinas? A outra possibilidade é que eu tenha tomado um empréstimo para abrir uma empresa. Estaria me arriscando, pois se meu negócio não prosperar, eu acabaria falido, sem emprego e endividado. Mas, se der certo, posso ganhar muito dinheiro. Neste segundo caso, assumindo que minha empresa prospere, eu pagarei pelas máquinas com parte da minha produção futura.

    Também me parece inexato dizer que os mais ricos estão no topo desde sempre. Toda hora eu vejo exemplos de pessoas que prosperaram vindas de baixo.

    John D. Rockefeller, o homem mais rico da história, era pobre. Quantos exemplos como ele não existem? Só no Brasil podemos citar o Matarazzo e o Martilnelli, mas quantos outros não há? Mesmo que todas essas histórias fossem falsas, eu conheço pessoalmente inúmeras pessoas que tiveram uma infância pobre hoje estão muito bem de vida. Algumas até milionárias.

    Voltando ao caso do artesão, se por um lado ele perdeu seu ofício por conta da concorrência com a fábrica e agora terá que buscar outra ocupação (que não necessariamente precisa ser trabalhar na fábrica), por outro, agora existe uma oferta maior produtos baratos o que faz com que a sociedade como um todo fique mais rica. Antes da revolução industrial, roupas de algodão manufaturadas eram demasiadamente caras e apenas os ricos podiam pagar por elas. Os pobres precisavam confeccionar suas próprias. Foi o advento da industrialização que fez o preço delas despencar e as tornou acessíveis a todos.

    Podemos fazer um paralelo com o mundo moderno. Lembro há muitos anos de ter visto em programa um alfaiate se queixando da concorrência com as roupas vindas da China. Ele queria que o governo interviesse para taxar, ou mesmo proibir, as importações de roupas Chinesas, já que a concorrência com elas estava inviabilizando seu negócio. De fato, as roupas baratas vindas da China prejudicam os alfaiates brasileiros, mas em contrapartida beneficiam toda a sociedade com roupas baratas.

    É justamente o aumento constante da produtividade que tem elevado o padrão de vida das pessoas nos últimos séculos, reduzindo dramaticamente a pobreza e extrema pobreza na maior parte do mundo.

    As pessoas tendem a falar muito no aumento da desigualdade social, como se ele implicasse num aumento continuo da pobreza. Porém, esse raciocínio assume que a economia é um jogo de soma zero, em que se alguém está ganhando, então alguém automaticamente está perdendo. Mas não é isso que ocorre. A desigualdade aumenta porque uma parte da população está enriquecendo mais rápido do que a outra, mas, no geral, todos estão ficando mais ricos.

    Se a renda dos 10% mais ricos aumentar 10 vezes e a renda dos 10% mais pobres aumentar 3 vezes, a desigualdade social aumentará, mas todos estarão mais ricos do que antes. Além disso, mais importante do que a desigualdade de renda, é a desigualdade de consumo que, graças ao aumento constante da produtividade, vem caindo ao longo do tempo na maior parte do mundo. Existe uma renda acima da qual sua qualidade de vida não melhora mais mesmo que sua renda aumente. Quando toda a população estiver acima desse patamar, todos terão a mesma qualidade de vida a despeito de qualquer diferença de renda que ainda exista.

    Nesse sentido, mesmo a questão da desigualdade de oportunidades perde importância. O que é preferível: Duas pessoas terem um “nível 4” de oportunidade ou uma ter “nível 5” e a outra ter “nível 7”? O mais importante não é se o filho da empregada recebe a mesma educação que a filha do patrão, mas sim se ao longo do tempo, a educação de ambos está melhorando, mesmo que a da filha do patrão estivesse melhorando mais rapidamente.

    Repare também que eu me preocupei em evidenciar que minha argumentação não se fundamentava em uma crença numa perfeita meritocracia. É evidente que sem igualdade de oportunidades, a meritocracia será sempre parcial ou, em alguns casos, até inexistente. Meu ponto é que a questão do mérito é majoritariamente irrelevante na discussão.

    O capitalismo não recompensa o esforço, recompensa a produtividade. Eu posso passar dias trabalhando duro e me sacrificando para cavar buracos e fazer sorvetes de lama, mas não ganharei nem um centavo com eles, já que ninguém se interessa em comprá-los. Isso pode parecer injusto, mas é o sistema que maximiza o bem-estar geral ao incentivar cada pessoa a tentar produzir o máximo possível dos bens e serviços que são mais demandados com o menor esforço. Quando as pessoas vão a um dentista, por exemplo, esperam receber o melhor serviço possível pagando o menor preço que puderem. Acredito que ninguém preferiria um dentista que seja esforçado mas que faça um serviço ruim e cobre caro a um outro que com pouco esforço faça um bom serviço cobrando pouco.

    Voltando à questão da automação, desde a primeira Revolução Industrial existe o temor de que as máquinas tirarão todos os empregos e deixarão a maior parte da população na miséria. Um temor que tem se mostrado falso incontáveis vezes. Sim, a tecnologia e a automação destroem muitas profissões, quase sempre as com baixa qualificação, mas também criaram muitas outras novas e mais bem-remuneradas.

    O aumento da produtividade trazido pelo desenvolvimento tecnológico também foi o principal fator que permitiu a queda no número médio de horas trabalhadas no início da RI até os dias de hoje. Sem o avanço tecnológico, qualquer redução compulsória da jornada de trabalho (através de decretos legais, por exemplo) que levasse a uma redução na produção, necessariamente seria acompanhada por uma queda nos salários. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de elevar o piso salarial artificialmente (com uma lei de salário mínimo, por exemplo), apenas aumentaria o desemprego e/ou o nível geral de preços.

    Se admitirmos um cenário hipotético e muito provavelmente irreal em que as máquinas pudessem substituir totalmente o trabalho humano, o resultado seria um ganho de produtividade tão grande que os preços cairiam a zero. Sim, todos estariam desempregados, mas isso seria irrelevante porque o custo de vida também seria nulo.

    Acho que já me alonguei muito, então vou encerrar os comentários por hoje, hehehe.

    Até mais.

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    1. Você poderia, como você disse, passar um bom tempo economizando para comprar sua primeira “máquina” (chamemos isso de investimento). Porém o proprietário que já tem investimentos gerando renda pra ele consegue isso em muito menos tempo. O que significa que o dinheiro tende a se acumular nas mãos de quem tem mais dinheiro, não de quem trabalhou ou poupou mais.

      Suponha que você se forme em economia, trabalhe num banco e viva de modo absolutamente ascético, gastando o mínimo possível, para economizar o suficiente para comprar um pedaço de terra, pedir demissão e ir pra lá viver de agrofloresta, para preservar um pedaço da mata atlântica. Seria nobre da sua parte, porém, no mesmo período que você leva pra fazer isso, um único dono de agronegócio conseguiu desmatar dez vezes mais e com isso ganhar dinheiro para desmatar vinte vezes mais, e assim por diante. Percebe como é uma corrida impossível de vencer? Não dá pra ganhar dinheiro preservando a natureza, mas se ganha muito dinheiro destruindo.

      Na mesma lógica, o capitalismo não permite que você use seu o dinheiro para aumentar o bem social, quando é muito mais rentável explorar trabalhadores pobres. Sua justificativa de que é menos explorador que outros não muda nada. Ou você segue o fluxo do capital ou é excluído.

      Existe uma frase da anarquista Emma Goldman: “se votar mudasse alguma coisa, seria proibido”. Podemos aplicar esse mesmo raciocínio aqui: se poupar e conquistar sua independência mudasse alguma coisa, seria proibido. É necessário que que a vida do trabalhador seja dificultada. O problema é que liberais acreditam que isso é culpa do Estado, não do capitalismo. Enquanto anarquistas anticapitalistas entendem que essas forças agem conjuntamente para um mesmo fim. O Estado mantém o capitalismo ao permitir o acúmulo desproporcional dos mais ricos, o que necessariamente implicará numa precarização do trabalho. Para cada “máquina” comprada com seu próprio esforço, muitas outras são compradas com a exploração. O que resulta que esse caso sempre será uma exceção. O sistema continuará aumentando a desigualdade econômica não importa o quanto as pessoas se esforcem. Na verdade, quanto mais elas elas se esforçam, mais os salários diminuem, porque os empregadores tendem a pagar o mínimo possível. Ao mesmo tempo, ao aumentar a concentração de renda, o custo de vida se eleva.

      O empréstimo é apenas um outro mecanismo de geração de desigualdade. Aqueles que perdem a aposta pagam pelos que ganham. Para ganhar essa aposta não basta ter sorte, há fatores sociais influenciando sua chance de ganhar ou perder. Por exemplo, se você fica doente não consegue trabalhar para pagar a dívida, vai ficar preso na classe baixa. Mas se você tem um círculo social que vai te ajudar a não perder seu investimento em caso de uma fatalidade dessas, você consegue mesmo assim. Os obstáculos são desproporcionais dependendo da origem, da cor da pele, do gênero e da sexualidade da pessoa.

      Os exemplos particulares de pessoas que prosperaram vindas de baixo não são um bom argumento. O simples fato de que quanto mais dinheiro você tem, mais você pode ganhar, determina uma estrutura piramidal.

      Nesse sentido, Zygmunt Bauman faz uma análise contundente em 3 dos seus muitos livros: Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria (2008); Vidas desperdiçadas (2005), no qual ele explica a tese de que “o mundo está cheio” e como a modernidade produz exclusão; e Vida a crédito (2010), uma conversa com Citlali Rovirosa-Madrazo sobre a obra de Bauman na qual ela consegue identificar limites e fazer algumas críticas ao mesmo.

      Em resumo, a tese é que havia, em outros tempos, outra ocupação para se buscar. Porém o capitalismo se globalizou e saturou essas possibilidades. A “sociedade como um todo” ficou mais “rica” graças a essa oferta de produtos baratos, mas os mais pobres estão cada vez mais vulneráveis e sem saída. Dependem cada vez mais de caridade, e suas vidas valem cada vez menos para o mercado. Nesse sentido, algumas pessoas consideraram esta pandemia como uma ótima oportunidade para se livrar de pessoas que são “economicamente inviáveis”, porque a produtividade possível delas não compensa o investimento na qualificação delas. Estamos numa situação em que as pessoas podem comprar celulares ao mesmo tempo em que podem ficar sem água, comida, moradia e atendimento médico básico. Isso quer dizer, celulares se tornam baratos, mas isso não quer dizer que as pessoas estão vivendo melhor.

      No seu capítulo sobre a mercadoria, Marx diz, em outras palavras, que quanto melhor as coisas ficam para o trânsito das mercadorias, tanto mais miserável fica o trabalhador. O advento da industrialização pode ter baixado o preço de muitos produtos, mas o custo social desse rápido aumento produtivo disso é enorme, incluindo a urbanização desordenada.

      Produtos mais baratos implicam numa exploração maior do trabalho. Um exemplo: Uma indústria vem para um país pobre porém onde há matéria-prima para seu produto, e emprega a população desqualificada com um salário baixo para extrair e operar as máquinas que fazem o produto. A padrão de vida da população se eleva, ela poupa, estuda, começa abrir seus próprios negócios, exigindo salários melhores. A indústria então se muda para um país mais pobre e reinicia o ciclo. Ela negocia como conseguir a matéria-prima do primeiro país, explora a mão-de-obra barata do segundo, e vende o produto de volta ao primeiro, que já não consegue concorrer porque não tem mais acesso à matéria-prima.

      Não é a China que prejudica os pequenos fabricantes brasileiros, é o capitalismo mesmo. Esses produtores de roupas investiram num mercado que era promissor mas que deixou de ser num piscar de olhos. Sem alternativa, como eles vão consumir? Não importa se a roupa está mais barata, eles vão se empregar na revenda e ganhar bem menos do que quando eles mesmos produziam. Enquanto isso, o aluguel e o preço de outras coisas aumenta ao invés de diminuir.

      O aumento constante da produtividade não é o único fator para se entender a elevação do padrão de vida. A análise sobre a pobreza precisa ser mais profunda. É possível se enganar com gráficos que parecem otimistas quando na prática as coisas não estão melhorando. A matemática tem que ser confrontada com a realidade social mais ampla.

      Conheço a teoria dos jogos e já ouvi diversas vezes esse argumento de que “esse raciocínio assume que a economia é um jogo de soma zero”. Mas economia política não pode ser reduzida a um jogo de soma-zero ou não-zero. Existem vários fatores complexos relacionando a desigualdade econômica e social à concentração de renda. Mesmo num jogo de soma-não-zero é possível criar sistemas de desigualdade crescente. Na realidade concreta existem estruturas que desequilibram o jogo e que são difíceis de incluir nos modelos matemáticos. No capitalismo, segundo a análise marxista, a desigualdade aumenta porque está estruturada nas relações sociais entre as classes. O rico fica mais rico e o pobre mais pobre por uma estrutura política e econômica, e não somente econômica.

      Os próprios salários limitam a quantidade de consumo possível. Se todo mundo conseguisse abrir seus negócios, de onde viria o dinheiro? Os mercados se saturam, não há espaço para todos prosperarem de modo tão rápido assim, não importa o quanto se esforçarem. Assim como numa corrida em que todos os corredores são muito bons, aquele que por um detalhe mínimo ficou milímetros à frente vai crescer, e outros vão afundar.

      Do ponto de vista ecológico, a igualdade de consumo sendo definida pelo padrão de países como os EUA é insustentável. O aumento constante da produtividade é um fator de exclusão de populações marginalizadas, principais vítimas da produtividade massiva (da produção de energia, de minérios e de carne bovina principalmente). A pretensão de que toda a população eleve seu consumo ainda tem considerar as questões ecológicas e culturais, como o racismo por exemplo.

      Quando você diz que o importante é que “ao longo do tempo, a educação de ambos está melhorando”, está considerando qual critério? Pois, de certo ponto de vista, o que está acontecendo hoje não é uma melhora da qualidade de educação de ricos e pobres, mas o oposto, uma piora na educação de ambos. A crise educacional talvez seja ainda pior nas escolas particulares do que nas públicas, dependendo do critério que você analisar. Pois o objetivo da educação é emancipar o indivíduo, e não formar trabalhadores eficientes. O objetivo da produtividade e da educação libertária podem entrar em conflito.

      A teoria anticapitalista em geral critica a “produtividade” como critério privilegiado, pois considera esse conflito entre bem-estar social e produtividade. Você deu o exemplo dos sorvetes de lama. Hoje, um professor de filosofia é praticamente um fazedor de sorvetes de lama. Dá muito trabalho, é preciso ler e estudar muito, porém ninguém se interessa em professores de filosofia. Voltando à citação de Goldman: “se a educação mudasse alguma coisa, ela seria proibida”. A educação que dá condições de pensamento crítico sobre a sociedade que vivemos, na prática, é proibida. A educação que tem valor de mercado é a forma “robôs” que reproduzem a ideologia do modo de vida dominante automaticamente, mas mesmo assim se acham muito inteligentes. Hoje em dia compensa muito mais enganar pessoas com um discurso qualquer de coaching do que com uma educação sólida e embasada.

      O sistema não pode maximizar o bem-estar geral, porque o sistema não tem um critério para determinar o que é bem-estar. O critério é facilmente manipulável por aqueles que já estão no poder. Na prática, quem está no topo determina os padrões do “bem-estar”, e isso implica num jogo onde as regras mudam segundo a conveniência de quem está ganhando. Com certeza as pessoas preferem um dentista que faça um bom serviço cobrando pouco, porém os que tem mais dinheiro não querem frequentar o mesmo dentista que a ralé. Eles querem se sentir exclusivos e diferenciados. Então eles estimulam um sistema que separa os bons dentistas para eles, e torna apenas os mais dentistas, ou dentistas mal equipados, acessíveis aos mais pobres. O dentista bom que insiste em permanecer acessível, assim como um médico ou professor altruísta que insista em fazer isso, sempre será exceção, justamente porque isso implica em ser “menos produtivo” em termos econômicos, mesmo quando o bem social que ele faz é incrivelmente maior.

      Sobre a automação, tem um outro texto nesse site só sobre essa questão. É curto então eu recomendo: https://contrafatual.com/2020/02/02/automacao-e-emancipacao/. E bom lembrar que o argumento da automação está bastante presente na esquerda também. Aaron Bastani publicou o livro “Fully Automated Luxury Communism” ano passado, e reproduz alguns dos seus argumentos. Eu parto de outra base, a antropologia do trabalho, para discordar de ambos. Ao contrário do que se prega, a questão do desemprego gerado pela automação nunca esteve tão intensa. Basta pegar os estudos de sociólogos atuais sobre o assunto. O argumento de que o avanço tecnológico retira empregos de baixa qualificação mas os compensa criando novos empregos mais qualificados é extremamente frágil. Os dados que temos hoje mostram tendências bastante duvidosas, e interpretações equivocadas e enviesadas de ambos os lados.

      Eu pessoalmente me posiciono como um crítico do suposto “desenvolvimento tecnológico” civilizado, o que na verdade é o que mais me rende desafetos na esquerda. Com base em Marshall Sahlins e outras pesquisas de antropologia econômica, a ideia de que o avanço tecnológico diminui o tempo de trabalho é colocada em xeque. Novamente, não dá pra pegar só um número final e não analisar historicamente. O “avanço tecnológico” eleva o tempo de trabalho antes de diminuir, e provoca diversos efeitos nesse meio tempo.

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      1. As questões ecológicas, na realidade, são um dos principais motivos de eu discordar dos anarcocapitalistas. Há muitos exemplos de externalidades envolvendo ecologia, situações onde os incetivos de um economia totalmente livre frequentemente favorecem alguém que está explorando o meio-ambiente de forma insustentável e é exatamente aí que o Estado deve entrar. Mesmo de um ponto de vista econômico, quando levamos em conta os efeitos de longo prazo da degradação ambiental, as atividades mais rentáveis no presente acabam sendo pouco eficientes no longo prazo, justamente porque são insustentáveis. Neste caso, cabe ao Estado regular o mercado justamente para corrigir essas falhas do mercado. Externalidades não existem apenas na economia, mas também na saúde, na educação e em quase todas as áreas da economia. Por isso não sou a favor de abolir o Estado, apenas acho que existe um nível e um tipo ideal de regulamentação e taxação acima do qual ele começa a causar muito mais estragos do que benefícios.

        Quanto aos seus argumentos sobre as máquinas serem compradas principalmente com o dinheiro advindo da exploração, eu ainda não entendo o argumento. Eu não entendi ainda onde está a exploração dos trabalhadores que Marx menciona e qual a lógica da mais valia. Não faz sentido para mim que Marx considere injusto que o empregador fique com parte da produção sendo que ele e o empregado a fizeram um conjunto. A produção de uma empresa é fruto do trabalho conjunto do empregador e dos empregados. Separados eles produziriam menos do que em conjunto, por isso se associam. O empregador fica com uma parte da renda e os empregados com outra. O que há de errado nisso?

        Por essa lógica, o problema da exploração seria eliminado se eu abrisse uma empresa 100% automatizada. Não tenho nenhum empregado, sou apenas eu e as máquinas, logo não haveria nenhuma exploração do trabalho alheio e não restaria dúvidas de que toda a produção me pertence.

        Sim, nem todos os negócios abertos serão bem-sucedidos. Nem todas as pessoas tem vocação para serem empresárias. Eu por exemplo, sou cientista e não me imagino gerindo uma empresa. Mesmo as que tem vocação, muitas vezes, perdem. Henry Heinz foi à falência e chegou a ser preso por dívidas antes que sua empresa seguinte prosperasse. Ele não é um caso isolado, isso é extremante frequente no meio empresarial e é um risco inerente ao fato de não conhecermos o futuro.

        O fato de um negócio não dar lucro é um sinal e um incentivo do mercado de que aquela pessoa (salvo exceções ligadas à atividades sem fins lucrativos ou à distorções no mercado) não deveria estar fazendo aquilo. É uma atividade para a qual existe pouca demanda, logo ela deve alocar seus recursos de outra forma.

        “Os exemplos particulares de pessoas que prosperaram vindas de baixo não são um bom argumento. O simples fato de que quanto mais dinheiro você tem, mais você pode ganhar, determina uma estrutura piramidal.”

        Seu raciocínio ignora a redução marginal da utilidade do capital. Já se perguntou porque países pobres, em média crescem a taxas muito maiores do que países ricos? Porque quanto mais um país cresce, mais recursos ele precisa apenas para se manter grande e menos impacto novos recursos adicionados terão na economia. O que faz mais diferença: uma estrada num país que não tem nenhuma, ou uma estrada num país com centenas de milhares de quilômetros delas? Para uma empresa se manter no topo por muito tempo ela precisa estar inovando constantemente e empresas grandes, especialmente quando chegam perto de dominar o mercado, tendem a ser péssimas nisso. Veja o que aconteceu com a Kodak e a Blockbuster, por exemplo.

        “Estamos numa situação em que as pessoas podem comprar celulares ao mesmo tempo em que podem ficar sem água, comida, moradia e atendimento médico básico. Isso quer dizer, celulares se tornam baratos, mas isso não quer dizer que as pessoas estão vivendo melhor. ”

        Mas os custos de vida não estão se reduzindo apenas para celulares e equipamentos tecnológicos. Desde a revolução industrial, os custos de praticamente todos os bens caíram. Agora, se você se pergunta porque então nós temos inflação e porque os alimentos, hospitais e escolas não param de ter aumentos, olhe o que aconteceu com a base monetária mundial nas últimas décadas. A expansão constante do crédito sem lastro pelos governos em bancos centrais é o que explica a alta constante dos preços e elevação do custo de vida. Deve-se, claro, também levar em conta o que ocorre com os salários. Se o nível médio de preços sobe, mas os salários se elevam mais rapidamente, então o padrão de vida ainda está aumentando.

        Dito isso, inflação é um dos principais causadores da desigualdade social, tratando-se nada mais do que transferência de renda dos últimos a receberem o dinheiro, que quase sempre são os mais pobres para os primeiros a o receberem: governos, bancos, empresários amigos de políticos e por aí vai.

        Se o governo não se financiasse através do aumento constante da base monetária, praticamente todos os preços da economia estariam em queda constante.

        Mesmo com a inflação, o padrão de vida da maior parte das pessoas tem se elevado constantemente. Basta ver os dados de acesso à água potável e saneamento básico, taxa de mortalidade infantil, índices de analfabetismo, desnutrição, expectativa de vida, e por aí vai. Eu não entendo no que exatamente esses dados podem ser enganosos quando analisados num contexto sociológico mais amplo. Se bilhões de milhões de pessoas deixando a pobreza e ganhando acesso à bens e serviços que antes apenas os ricos podiam desfrutar e isso não é uma elevação do padrão de vida, então eu realmente não sei o que é. É claro que qualidade de vida não se resume apenas a consumir mais, mas um pessoa que está passando fome e que não tem onde morar, certamente ter alimentação melhor e uma moradia estarão entre as prioridades maiores.

        “Os próprios salários limitam a quantidade de consumo possível. Se todo mundo conseguisse abrir seus negócios, de onde viria o dinheiro? Os mercados se saturam, não há espaço para todos prosperarem de modo tão rápido assim, não importa o quanto se esforçarem. Assim como numa corrida em que todos os corredores são muito bons, aquele que por um detalhe mínimo ficou milímetros à frente vai crescer, e outros vão afundar.”

        Salários são preços. Num livre mercado, como qualquer outro preço, eles surgem como o ponto de equilíbrio entre oferta e demanda. Os empresários gostariam de pagar zero e os trabalhadores gostariam de receber infinito. É a interação desses interesses junto com a lei de oferta e demanda que irá determinar o valor dos salários. Dito isso, a não ser que a pessoa receba doações ou auxílios governamentais, ela só pode consumir, no máximo, um valor igual ao que produz. Quanto mais as pessoas produzem, mais elas podem consumir. Pode não ser do interesse de um fabricante de parafusos que surjam outra pessoas boas em produzir parafusos, mas certamente é do interesse de todo os restante da sociedade, porque isso significa parafusos mais baratos e mais pessoas com poder aquisitivo para consumir mais bens. A não ser que estejamos falando de acordos entre empresários e governantes para cartelizar/monopolizar o mercado dificultando a entrada de concorrentes ou de mafiosos mandando executá-los, não há nenhum sentido econômico em se supor que seja do interesse do mercado manter boa parte da população incapaz de consumir mais.

        “Quando você diz que o importante é que “ao longo do tempo, a educação de ambos está melhorando”, está considerando qual critério? Pois, de certo ponto de vista, o que está acontecendo hoje não é uma melhora da qualidade de educação de ricos e pobres, mas o oposto, uma piora na educação de ambos. A crise educacional talvez seja ainda pior nas escolas particulares do que nas públicas, dependendo do critério que você analisar. Pois o objetivo da educação é emancipar o indivíduo, e não formar trabalhadores eficientes. O objetivo da produtividade e da educação libertária podem entrar em conflito.”

        O Brasil, certamente, é um péssimo exemplo de melhora da educação. E concordo que a educação não serve apenas para formar pessoas mais produtivos, embora esse deva ser um dos objetivos centrais. Falei num sentido hipotético para ilustrar que a “igualdade de oportunidades” não quer dizer muita coisa. É melhor ter um sistema desigual onde a educação esteja melhorando para todos, mesmo que para alguns estivesse melhorando mais rápido, do que um sistema igualitário onde todos tem uma educação pior.

        O seu exemplo da corrida mostra um equívoco econômico de se considerar que no capitalismo tudo se resume à competição, onde os primeiros a chegar são os ganhadores e os últimos os perdedores. Muito do capitalismo é competição, mas muito é cooperação. Se todas as pessoas estão ficando mais produtivas, então todas ganham. As que tiverem um amento de produtividade maior terão um ganho maior, mas todas irão ganhar explorando um nicho diferente do mercado ou abrindo novos nichos. Na realidade, mesmo num cenário degenerado em que apenas os mais ricos estão ficando mais produtivos, os mais pobres ainda se beneficiam com os bens e serviços mais baratos. Mesmo sem que eles próprios não consigam produzir mais, conseguirão consumir mais porque os preços reais (descontada a inflação) estarão mais baixos em relação ao salários.

        Mas eu sou a favor de uma educação universal financiada pelo governo (seja ela pública ou privada) como modo de acelerar enormemente esse processo. Igualmente, sou a favor da saúde universal.

        “Você deu o exemplo dos sorvetes de lama. Hoje, um professor de filosofia é praticamente um fazedor de sorvetes de lama. Dá muito trabalho, é preciso ler e estudar muito, porém ninguém se interessa em professores de filosofia.”

        Olha, até certo ponto, eu sou a favor de financiar com o dinheiro público certas atividades para as quais não haja demanda suficiente no presente como um investimento de longo prazo ou de valor social. Um exemplo disso são os investimentos em ciência pura e em várias outras áreas do conhecimento, incluindo a filosofia. Mas acho também que sempre cabe a pergunta: Até que ponto é justo obrigar a sociedade a consumir algo que ela não está demando à pretexto de se considerar aquilo importante? Um político que gostasse de circo em sua infância pode querer subsidiar circos com o pretexto de que eles são parte do patrimônio cultural mas que não há mais demanda por eles. Eu, particularmente, ficaria bem revoltado se soubesse que parte dos meus impostos estão sendo usados para isso. É por isso que eu sempre menciono entre meus colegas a importância em tentarmos mostrar para a sociedade o valor do trabalho que fazemos no laboratório.

        “Com certeza as pessoas preferem um dentista que faça um bom serviço cobrando pouco, porém os que tem mais dinheiro não querem frequentar o mesmo dentista que a ralé. Eles querem se sentir exclusivos e diferenciados. Então eles estimulam um sistema que separa os bons dentistas para eles, e torna apenas os mais dentistas, ou dentistas mal equipados, acessíveis aos mais pobres. O dentista bom que insiste em permanecer acessível, assim como um médico ou professor altruísta que insista em fazer isso, sempre será exceção, justamente porque isso implica em ser “menos produtivo” em termos econômicos, mesmo quando o bem social que ele faz é incrivelmente maior.”

        Me desculpe, mas isso é um completo absurdo. Esse “argumento” de que “os ricos não suportam ver o pobre frequentando aeroportos, shoppings, universidades, etc….” para manterem seu status social pode ser verdade para algumas pessoas mesquinhas e dignas de piedade, mas querer generalizar isso é extremamente preconceituoso. É como se a classe social de uma pessoa definisse seu caráter.

        “O argumento de que o avanço tecnológico retira empregos de baixa qualificação mas os compensa criando novos empregos mais qualificados é extremamente frágil. Os dados que temos hoje mostram tendências bastante duvidosas, e interpretações equivocadas e enviesadas de ambos os lados.”

        Concordo. Pesquisei muito até chegar nessa opinião e lerei esse texto que você me enviou.

        “Eu pessoalmente me posiciono como um crítico do suposto “desenvolvimento tecnológico” civilizado, o que na verdade é o que mais me rende desafetos na esquerda. Com base em Marshall Sahlins e outras pesquisas de antropologia econômica, a ideia de que o avanço tecnológico diminui o tempo de trabalho é colocada em xeque. Novamente, não dá pra pegar só um número final e não analisar historicamente. O “avanço tecnológico” eleva o tempo de trabalho antes de diminuir, e provoca diversos efeitos nesse meio tempo.”

        Concordo também. Repare que algo semelhante ocorreu durante a Revolução Agrícola do Neolítico. Quando as pessoas se sedentarizaram e passaram a plantar seu próprio alimento, sua qualidade de vida e expectativa foi reduzida no início em relação ao que desfrutavam em relação ao tempo em que se sobrevivia da caça e da coleta. Antropologistas sugerem que incetivos sociais e culturais podem ter levado a humanidade à fazer essa mudança mesmo assim.

        Uma coisa que você comentou mais para o início do texto e que esqueci de comentar:

        “Do ponto de vista ecológico, a igualdade de consumo sendo definida pelo padrão de países como os EUA é insustentável.”

        Isso é verdade com a tecnologia atual. Com fontes de produção de energia sustentáveis e métodos mais eficientes, pode-se fazer cada vez mais com um impacto cada vez menor. Acho que não comentei no texto, mas recente eu li um artigo sobre a tecnologia de produção de alimentos do futuro. Bactérias geneticamente modificadas já estão sendo usadas para produzir alimentos consumindo dezenas de vezes menos água e centenas a milhares de vezes menos terra. Em algumas décadas, a comida do mundo será feita em tonéis de aço inox a um custo muito menor que o atual e sem a necessidade de desmatar ou matar animais. Os alimentos ficarão muito mais baratos e tudo o que hoje são lavouras e pasto, poderá retornar ao seu estado natural.

        “O aumento constante da produtividade é um fator de exclusão de populações marginalizadas, principais vítimas da produtividade massiva (da produção de energia, de minérios e de carne bovina principalmente).”

        Pelo contrário, é justamente o que torna esses bens acessíveis a cada vez mais pessoas.

        “A pretensão de que toda a população eleve seu consumo ainda tem considerar as questões ecológicas e culturais, como o racismo por exemplo.”

        Concordo, mas nada disso é um problema para minha argumentação.

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  5. Depois de dormir eu lembre de mais algumas coisas que queria ter dito.

    Novamente, vamos retornar ao caso do artesão.

    Durante um tempo, minha mãe trabalhou com bijouterias. Inicialmente, ela ia até o centro da cidade comprar as peças (miçangas, fio, fecho, embalagens, etc.), confeccionava todo o produto e depois ia vender. Era muito trabalhoso e ela tinha uma margem de lucro pequena.

    Porém, depois de alguns anos, ela percebeu que estavam chegando bijouterias prontas da China a um preço menor do que o que ela pagava pelas matérias primas. Logo, era impossível competir do modo que ela trabalhava antes. O que ela fez? Passou a comprar as peças prontas da China e a revendê-las. Isso poupava uma quantidade enorme de trabalho e permitia que ela ganhasse muito mais do que antes, já que agora podia dedicar todo o seu tempo às vendas. Como o custo da peça pronta era inferior ao do que ela pagava na matéria prima, a margem de lucro por unidade também aumentou.

    Toda vez que um modo de produção mais eficiente surge, ao mesmo tempo que ele acaba eliminando profissões antigas, os custos menores viabilizam muitas formas novas de emprego que antes eram impensáveis.

    Quando as roupas eram feitas sob medida por um alfaiate, ele tinha que cuidar de todo o processo, desde de as medidas do cliente, passando pelo projeto, confecção e venda. Uma vez que as fábricas surgiram, ele não tinha mais como competir sendo alfaiate, mas os preços muito menores das roupas tornaram possível que ele transformasse sua oficina em uma loja para revender os produtos feitos pelas fábricas, uma ocupação que era inviável sem essa mudança na forma de produzir roupas.

    Vemos esse processo ocorrendo diariamente, em que a tecnologia constantemente viabiliza novas ocupações. É por isso que a previsão de que as máquinas tirariam os empregos tem falhado constantemente ao longo da história. Não importa quantos empregos elas tirem, a redução dos custos que elas proporcionam abrem espaço para cada vez mais novas ocupações, ao mesmo tempo em que o custo dos bens e serviços caem, elevando o padrão de vida geral.

    A pessoa só é prejudicada pela competição quando não se adapta às novas condições. Se um técnico que consertava máquinas de escrever se recusar a aprender como consertar computadores, então sem dúvida ele ficará sem emprego…

    Mauro

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    1. Nessa história que você contou sobre a bijuteria não aparecem os custos sociais necessários para essa produção “mais eficiente” na China. Hannah Arendt, uma autora que marxistas odeiam porque comparou Stalin a Hitler, explica que o desenvolvimento das forças produtivas não elimina apenas profissões antigas, mas também pessoas e comunidades que estão estruturadas em torno dessas profissões. Nem todos tem a possibilidade de simplesmente se adaptar aos novos tempos.

      Eu não diria que a previsão do desemprego criado pelo uso de máquinas falhou. O aumento do subemprego ou do trabalho informal na verdade é uma evidência disso. Sua análise é extremamente otimista mas parcial.

      Inevitavelmente, por uma série de razões que não se limitam à responsabilidade individual, o tecido social como um todo é fragilizado pelo aumento da competição e da exigência de se adaptar a exigências mercado. As pessoas perdem a autonomia sobre o se produz. Onde o trabalho estava ligado à arte, por exemplo, o produto que antes também tinha um aspecto cultura se torna agora mera mercadoria. Essas transformações não podem ser desprezadas.

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      1. Mas a China foi justamente o lugar onde a maior parte dos benefícios foi vista. Nas últimas décadas, centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza e entraram na classe média chinesa. Com o novo arranjo, os chineses ganharam, minha mãe (e qualquer outra pessoa que se adaptou como ela) ganhou e os consumidores no Brasil, na China e no restante do mundo ganharam.

        Essas mudanças, sem dúvida, alteram a cultura e o modo de vida. Mas isso é necessariamente ruim? A cultura, assim como a língua, não é estática, ela é dinâmica. Está em constante transformação. Com o passar do tempo, de geração em geração, as pessoas mudam seus hábitos. Vem sendo assim desde o surgimento da humanidade, muito antes de o capitalismo surgir. A única diferença é que agora as transformações ocorrem numa velocidade muito maior.

        Esse processo de mudança não precisa excluir ninguém porque qualquer pessoa pode aprender se quiser. Sem dúvida, para minha avó de 90 anos, aprender a usar o computador não foi tão fácil quanto para mim, mas ainda assim ela aprendeu. Já minha outra avó não quis aprender a usar, e não o fez. Isso sem mencionar as comunidades que deliberadamente escolhem preservar seu modo de vida. Qualquer grupo de pessoas que seja auto-suficiente pode manter-se com os mesmos modos de produção indefinidamente. O motivo de vermos isso raramente é porque, na maior parte das vezes, as pessoas preferem novo estado, onde podem desfrutar de um padrão de vida maior.

        Quanto ao “subemprego” e “trabalho informal”, o problema é que, frequentemente, as pessoas costumam usar essas nomenclaturas com qualquer profissão que não se encaixe nos antigos moldes do trabalho CLT, onde se tem hora para entrar e para sair, férias remuneradas, 13° salário, FGTS, etc. Meu pai trabalhou com CLT durante duas décadas, até ser demitido. Depois disso ele virou autônomo. Ele não tem mais a constância do salário e os demais “direitos trabalhistas” que tinha antes. Mas, em média, trabalha menos e ganha bem mais do que ganhava quando era gerente.

        Um conhecido meu viveu uma situação parecida. Trabalhou por 25 anos em uma empresa com CLT mas acabou sendo demitido com a crise de 2015-2016. Depois ele passou a dirigir Uber, um trabalho que muitas pessoas chamam de precarizado. Pois bem, na empresa ele tinha um salário liquido de R$3.500,00. Ele me disse outro dia que, dirigindo Uber por um tempo semelhante ao que trabalhava na empresa ele costuma ganhar entre R$5.500,00 e R$6.000,00 por mês.

        As pessoas veem camelôs, marceneiros, pedreiros, serralheiros, etc. como profissões precarizadas porque não tem os supostos benefícios e estabilidade da CLT, quando muitas dessas pessoas, não raramente, ganham bem mais do que um funcionário celetista trabalhando a mesma quantidade. E isso não é difícil de entender, já que os benefícios da CLT são quase sempre ilusórios.

        A partir do momento em que a empresa se vê obrigada a pagar FGTS, previdência, férias remuneradas, 13° salário, etc. ela obrigatoriamente irá pagar um salário menor do que pagaria sem esses benefícios. Se não puder pagar porque esse salário ficaria abaixo do mínimo, simplesmente não irá contratar a pessoa, já que ela custaria mais do que produziria. Essa sim, ao contrário da automação, é uma das principais causas para taxas elevadas de desemprego. É fácil perceber isso comparando-se as taxas médias de desemprego nos EUA ao longo das últimas décadas (onde há poucas regulamentações trabalhistas) com a da França (onde há muitas). No caso de elas serem empregadas ainda assim, por outras distorções econômicas, os preços estarão mais altos e, na prática, o salário real será menor. A estabilidade do emprego CLT, quando muito, é benéfica para as pessoas que já estão empregadas. Pelas desempregadas, ela não faz outra coisa a não ser mantê-las fora do mercado, algumas vezes, deliberadamente.

        Isso visto nos EUA dos anos 1920, quando os trabalhadores brancos do Norte, que cobravam salários maiores do que os trabalhadores negros sulistas, pressionaram políticos para aprovarem uma lei de salário mínimo, com o objetivo de evitar que os negros fossem contratados. E assim foi feito. Não foi a primeira nem a última vez em que uma política de exclusão foi implementada travestida de defesa dos trabalhadores.

        Se todas as pessoas compreendessem isso, a CLT já teria deixado de existir há muito tempo, se é que teria existido algum dia… Mas, muitas vezes, nem mesmo os políticos que defendem tais medidas estão cientes desses efeitos colaterais. Outros sabem e agem de ma fé, cientes de que a grande maioria das pessoas acreditará estar sendo beneficiada por essas políticas, tal como como ocorre com os congelamentos de preço.

        Quanto ao aspecto artístico do trabalho, ele pode ter perdido muito dessa característica com a criação da linha de montagem, mas os benefícios trazidos, a meu ver, superam largamente esse prejuízo. Especialmente quando levamos em conta que a redução da jornada de trabalho trazida pelo aumento da produtividade abre espaço para que cada vez mais pessoas possam ter um hobbie. Quando a maioria das pessoas precisava trabalhar 16 h por dia no campo apenas para ter o que comer, bem poucos podiam desfrutar dessa possibilidade.

        Eu entendo que você ache minha visão otimista e parcial. Isso porque nós tendemos a julgar as demais pessoas e o mundo pelo nosso referencial. Para mim, por exemplo, eu tenho uma visão realista e você uma pessimista. Não vou dizer que acredite que minha visão seja totalmente imparcial e livre de viesses porque isso não existe. Acreditar ser imparcial, por si só, já é um viés. Ninguém é totalmente imparcial.

        O que eu posso dizer é que tento ler um pouco de tudo, inclusive muita coisa escrita por pessoas que pensam bem diferente. Não foi a toa que encontrei seu site e li seu texto. Eu leio coisas de liberais e de conservadores, de direita, centro e esquerda, de coletivistas e individualistas. Tenho formação em exatas, mas gosto muito de humanas e biomédicas e tento aprender um pouco de tudo. Eu cruzo informações diferentes e tento enxergar o mesmo problema por mais de um ângulo, para buscar o que me parece ser o mais próximo da realidade… Não raramente, eu me engano e, quando vejo uma explicação melhor ou uma outra abordagem que me parece mais acertada, eu tendo a ir mudando de opinião.

        Mauro

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  6. Algumas correções e comentários adicionais para minhas respostas:

    ” Se bilhões de milhões de pessoas deixando a pobreza e ganhando acesso à bens e serviços que antes apenas os ricos podiam desfrutar e isso não é uma elevação do padrão de vida, então eu realmente não sei o que é.”

    Deveria ser: Se bilhões de pessoas deixando a pobreza e ganhando acesso à bens e serviços que antes apenas os ricos podiam desfrutar não é uma elevação do padrão de vida, então eu realmente não sei o que é.

    “O simples fato de que quanto mais dinheiro você tem, mais você pode ganhar, determina uma estrutura piramidal.”

    Além da redução da utilidade marginal do capital, eu não mencionei a questão dos custos de oportunidade e da informação do mercado.

    Custos de oportunidade existem sempre que se está ganhando menos do que se poderia em uma outra atividade. Um exemplo: mesmo que o Jeff Bezos fosse mais eficiente do que qualquer outra pessoa em passar roupa, isso não significa que seria vantajoso para ele passar a própria roupa. Isso porque no tempo em que ele passaria passando roupa, deixaria de ganhar milhões gerindo a Amazon. É muito mais vantajoso para ele pagar alguém para passar sua roupa, mesmo que essa pessoa fosse menos eficiente nisso do que ele seria.

    Já a informação do mercado diz respeito ao fato de que alguém de fora do mercado pode se beneficiar da informação advinda dos que estão dentro dele. Um novo empresário viu todos os erros e acertos cometidos pelas empresas que já estão no mercado e consegue ingressar nele com muito mais facilidade do que os pioneiros, justamente porque pode copiar o que deu certo e evitar o que deu errado. Isso também é outro motivo de os países pobres (que adotam boas regulamentações e algo próximos de um livre mercado) conseguirem crescer muito mais rápido do que os ricos. Eles não precisam descobrir tudo do zero, podem simplesmente copiar as instituições, leis e modelos que deram certo, importar tecnologia, máquinas e equipamentos.

    “Na verdade, quanto mais elas elas se esforçam, mais os salários diminuem, porque os empregadores tendem a pagar o mínimo possível. Ao mesmo tempo, ao aumentar a concentração de renda, o custo de vida se eleva. ”

    Como eu disse, não é uma questão de esforço, é uma questão de produtividade. Aumento da produtividade significa justamente conseguir produzir mais com o menos esforço. Quanto mais alguém consegue produzir, mais essa pessoa irá ganhar. Um trabalhador mais produtivo vai conseguir um emprego melhor remunerado do que um pouco produtivo. O fato de os empregadores quererem pagar o mínimo possível não afeta isso tanto quanto o fato de os consumidores quererem pagar o mínimo possível por laranjas não muda o fato de que um produtor de laranjas mais eficiente ganhará mais do que um menos eficiente.

    “Sua justificativa de que é menos explorador que outros não muda nada.”

    Há um equívoco aqui, porque eu nunca disse isso. Eu nunca falei que é menos explorador porque não consegui ainda entender onde está a exploração em primeiro lugar. O que eu disse é que uma pessoa aceita trabalhar para uma empresa se julga que ganhará mais nela do que ganharia trabalhando sozinha e não está disposta abrir uma empresa ela própria, seja porque não pode ou porque não quer correr os riscos inerentes a isso. Nunca falei que isso implica em menos exploração, porque não vejo exploração em nenhum dos casos.

    “Produtos mais baratos implicam numa exploração maior do trabalho. Um exemplo: Uma indústria vem para um país pobre porém onde há matéria-prima para seu produto, e emprega a população desqualificada com um salário baixo para extrair e operar as máquinas que fazem o produto. A padrão de vida da população se eleva, ela poupa, estuda, começa abrir seus próprios negócios, exigindo salários melhores. A indústria então se muda para um país mais pobre e reinicia o ciclo. Ela negocia como conseguir a matéria-prima do primeiro país, explora a mão-de-obra barata do segundo, e vende o produto de volta ao primeiro, que já não consegue concorrer porque não tem mais acesso à matéria-prima.”

    Você acabou de descrever (embora com alguns equívocos) um dos processos pelos quais a globalização do capitalismo ajuda a retirar países da miséria. No início, as industrias saíram dos países desenvolvidos e migraram para países pobres, como a China dos anos 1980. Isso encolheu a participação da industria no PIB dos países ricos, mas permitiu que o setor de serviços se expandisse e elevou o padrão de vida dos habitantes desses países porque reduziu o preço dos bens, ao mesmo tempo em que beneficiou muito mais os chineses, que saíram da miséria viraram um país de renda média caminhando para se tornar desenvolvido. Agora, o mesmo processo está ocorrendo na China, onde as indústrias estrangeiras e as próprias indústrias Chinesas estão se mudando para países como os da África subsaariana, permitindo que eles também deixem a pobreza.

    O que eu, novamente, não entendo é onde está a exploração nisso e como esse processo é ruim para as pessoas. Os únicos problemas que consigo ver no desenvolvimento dos países são de ordem ambiental, mas que podem ser corrigidos com as regulamentações corretas e o avanço tecnológico.

    “Não é a China que prejudica os pequenos fabricantes brasileiros, é o capitalismo mesmo. Esses produtores de roupas investiram num mercado que era promissor mas que deixou de ser num piscar de olhos. Sem alternativa, como eles vão consumir? Não importa se a roupa está mais barata, eles vão se empregar na revenda e ganhar bem menos do que quando eles mesmos produziam. Enquanto isso, o aluguel e o preço de outras coisas aumenta ao invés de diminuir.”

    Se você entendeu o restante do que eu disse, já deve ter percebido os erros desse raciocínio. Tem vários problemas na sua lógica, mas eu não quero me repetir novamente.

    Não comentei tudo o que você disse porque já escrevi demais e ficaria muito repetitivo, mas consigo resumir os problemas a dois itens chave:

    1- Não consigo entender a lógica socialista da exploração do trabalho e da mais valia. Me parece que ela advém de um entendimento incorreto de como a economia funciona e de como a riqueza é criada, assim como sua argumentação de como automação e o desenvolvimento tecnológico supostamente precarizam as condições de trabalho a pioram a chamada “exploração”. Eu vejo exatamente o contrário ocorrendo;

    2- É muito difícil para mim entender como os dados que mostram a enorme melhora nos índices de desenvolvimento humano da maior parte da população mundial podem ser enganosos e serem questionados dentro de uma análise sociológica mais ampla. Alguns dados podem ser questionados até certo ponto. Um aumento do PIB no curto prazo não reflete necessariamente uma aumento da qualidade de vida, por exemplo, porque os dados do PIB podem estar inflados por uma expansão monetária e por outros tipos de distorções, mas tem coisas que são difíceis de questionar. Se a porcentagem de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, desnutridas e sem acesso a bens de consumo e serviços básicos, de mortalidade infantil, de doenças caudadas por falta de saneamento, de analfabetismo, etc.. cai várias vezes num espaço de um século, então é bem difícil argumentar que não houve uma melhora expressiva na qualidade de vida das pessoas, a não ser que você tenha uma definição de “qualidade de vida” bem diferente do que a maioria das pessoas julga ser uma vida melhor.

    Mauro

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    1. Antes de mais nada, minha resposta ficou extremamente extensa (15 páginas) porque as questões que você levantou são extremamente complexas. Além disso, entramos em questões que fogem um pouco do tópico do post, que é o anarcocapitalismo. Por isso eu gostaria de pedir que, se possível, continuemos essa conversa em outro lugar. Eu sugiro o reddit r/Filosofia, que tem estrutura de fórum e outras pessoas podem agregar. Você pode sugerir outro lugar, ou se quiser podemos continuar por e-mail. Eu deixo esse convite e vou me limitar aqui aos itens chave que você enumerou. O resto da resposta eu deixo para postar em outro lugar, caso concorde.

      “1- Não consigo entender a lógica socialista da exploração do trabalho e da mais valia. Me parece que ela advém de um entendimento incorreto de como a economia funciona e de como a riqueza é criada, assim como sua argumentação de como automação e o desenvolvimento tecnológico supostamente precarizam as condições de trabalho a pioram a chamada “exploração”. Eu vejo exatamente o contrário ocorrendo;”

      Para ser direto, o problema é que não existe um único “entendimento correto” de como a economia funciona. A economia não é uma ciência exata, ela é uma ciência social aplicada. Nela cabem diferentes concepções ao mesmo tempo. E me parece que você está considerando apenas uma, por isso está com dificuldade de “entender” a “lógica socialista” da exploração do trabalho. É difícil resumir isso em poucas palavras, então terei que me limitar a dizer que para entender esse conceito é preciso entender a base teórica (outros conceitos base, distinções importantes, etc…). Em resumo, mais valia não é exatamente sobre a diferença entre salário e preço do produto. É mais complexo que isso, e falo melhor sobre isso no resto da resposta. Também tenho um resumo sobre o conceito de trabalho alienado em Marx (https://contrafatual.com/2019/08/09/o-trabalho-alienado/).

      Sobre a crítica à automação e à tecnologia, é outro assunto que eu dediquei muito tempo, e é extremamente complexo. Também não existe apenas um ponto de vista válido sobre isso, e tudo depende do entendimento da base teórica, que não é simples. Também tenho vários textos sobre essa questão publicados aqui.

      “2- É muito difícil para mim entender como os dados que mostram a enorme melhora nos índices de desenvolvimento humano da maior parte da população mundial podem ser enganosos e serem questionados dentro de uma análise sociológica mais ampla. Alguns dados podem ser questionados até certo ponto. Um aumento do PIB no curto prazo não reflete necessariamente uma aumento da qualidade de vida, por exemplo, porque os dados do PIB podem estar inflados por uma expansão monetária e por outros tipos de distorções, mas tem coisas que são difíceis de questionar. Se a porcentagem de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, desnutridas e sem acesso a bens de consumo e serviços básicos, de mortalidade infantil, de doenças caudadas por falta de saneamento, de analfabetismo, etc.. cai várias vezes num espaço de um século, então é bem difícil argumentar que não houve uma melhora expressiva na qualidade de vida das pessoas, a não ser que você tenha uma definição de “qualidade de vida” bem diferente do que a maioria das pessoas julga ser uma vida melhor.”

      Assim como na questão acima, existe mais de um modo válido de interpretar dados. Dados envolvem conceitos qualitativos como “desenvolvimento humano” dependem de pressupostos valorativos que não são unívocos. Não é possível usar um único índice ou uma única abordagem para determinar o que significa “aumento da qualidade de vida”. Há uma série de fatores que podem enviesar as conclusões. Eu concordo que tem coisas que não são comumente questionadas, especialmente nos cursos tradicionais de economia. Mas na filosofia política contemporânea esses questionamentos não são tão incomuns. Posso citar diversas referências que questionam a definição de “qualidade de vida”. Quem é essa “maioria das pessoas” que você cita e como essa ideia se tornou majoritária? Isso sempre foi assim? São questões válidas. Mas não quer dizer que os fatores que você citou são falsos, e sim que são relativos. Dependem do contexto. Por exemplo, há sociedades que não consideram que escrever seja importante para elas, vivem muito bem sem “saneamento básico”, pois não estão aglomeradas em cidades. Enfim, essas melhoras são relativas a uma situação criada por condições específicas das sociedades com Estado ou sociedades civilizadas. Sobre isso, minha recomendação é o livro Civilized to Death, do Christopher Ryan, lançado ano passado. Não tem tradução em português ainda, mas tem uns trechos aqui: https://contraciv.noblogs.org/civilizado-ate-a-morte/

      Nesse mesmo site tem uma publicação sobre pobreza do ponto de vista eco-anarquista: https://contraciv.noblogs.org/pobreza-e-eco-anarquia/

      Aguardo sua resposta para continuarmos a conversa e podemos deixar o link aqui para as outras pessoas acompanharem.

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      1. Jonas, agradeço sua disposição em ler e responder minhas perguntas, assim como seu convite para estendermos o debate e o migramos para outra plataforma. Mas minha intenção ao resumir os problemas nesses dois tópicos era justamente tentar fazer a conversa convergir, não ramificá-la ainda mais.

        Está mais claro para mim agora que o motivo de nossa discordância está num nível muito mais fundamental do que eu pensei inicialmente.

        Eu li alguns outros textos no seu blog, incluindo este:

        https://contrafatual.com/2020/02/08/contra-a-tecnologia/#more-1789

        Baseado na sua última resposta e nesses outros textos, me dei conta de que temos diferenças axiomáticas. Assim sendo, não importa o quanto venhamos a debater, nunca conseguiremos ir muito adiante porque não concordamos nem mesmo em tópicos básicos, como na definição do que é uma vida melhor. Se eu tivesse os mesmos axiomas que você, talvez concordasse com tudo ou quase tudo o que você diz e vice-versa, mas não é esse o caso.

        Como eu mencionei, desde que estava no colégio, eu tive muita dificuldade em entender o conceito de mais-valia porque, para mim, simplesmente não fazia nenhum sentido. Desde então eu li muita coisa em muitos lugares diferentes sobre a teoria da exploração e teoria do valor de Marx, bem como críticas e defesas a elas. Mas quanto mais eu lia o que os defensores dela diziam, menos sentido ela parecia fazer e mais razão eu dava aos críticos.

        Tem coisas que nós discordamos e conseguimos enunciar os motivos. Conseguimos até apontar com relativa precisão onde achamos que estão as causas do conflito. Mas no caso de algumas, incluindo a mais-valia, a discordância é muito mais grave: Eu mal consigo entender a lógica dela. Para mim, é como se a ideia estivesse tão incorreta e fizesse tão pouco sentido que eu não consigo nem dizer onde vejo problemas, porque é como se ela estivesse errada em quase todos os níveis e aspectos.

        Como eu falei, gosto de tentar enxergar as coisas sob vários ângulos diferentes. Consigo entender o ponto de vista de quem defende a pena de morte ou a legalização irrestrita do aborto, por exemplo, embora eu seja contra ambos. Mesmo discordando, entendo a lógica de quem é favor e porque a pessoa os julga corretos ou justificáveis. Mas, quando tento me colocar no lugar de Marx para tentar ver as coisas sob a ótica dele, por mais que eu me esforce, não consigo chegar a lugar nenhum. Imagino que a cabeça dele funcionava de uma forma tão diferente da minha que se tentássemos conversar, simplesmente não nos compreenderíamos.

        Agradeço a cordialidade,

        Mauro

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      2. Poxa Mauro, que pena que chegamos nesse impasse então. Eu acho que foi produtiva a nossa conversa. Eu me identifico com várias coisas que você diz. Meu foco não foi ramificar a conversa, mas demonstrar que as coisas não são tão simples quanto parecem. Com certeza temos pressupostos diferentes, mas é impossível fazer filosofia sem aprender a pensar com diferentes conjuntos de pressupostos. Mesmo onde você vê o fim do debate, eu vejo o começo de outro mais profundo e interessante. Mas eu entendo sua indisposição de entrar nisso.

        Só quero dizer que, da minha parte, acho difícil entender Marx, mas não impossível, e ainda assim, quanto mais eu entendo sobre ele, menos eu concordo. A contradição é que provavelmente você concorde ainda mais com Marx do que eu, pois ainda que diga não ser capaz de entender as ideias dele, você reproduziu várias delas no seus argumentos. Talvez essa dificuldade seja realmente uma questão mais ideológica do que teórica. A sua fala me lembra a de alguns religiosos que simplesmente não conseguem ver qualquer sentido no ateísmo. O fato é que sem entender, não é possível realmente discordar. Sem ver o sentido, não é possível dar razão aos críticos. A não ser que o marxismo não passasse realmente uma insanidade, uma coisa absolutamente sem sentido. E se fosse esse o caso, seria uma patologia ao invés de uma teoria, e todos os marxistas teriam que ser tratados, ao invés de refutados. Não preciso dizer que isso sim é completamente absurdo.

        O desafio de compreender a discordância é algo estimulante pra mim. Eu sinto que existe uma resistência da sua parte. Uma indisposição de entender, e não uma falta de capacidade. Também é impossível discordar de uma ideia em todos os aspectos. Os pontos de concordância, por menores que sejam, são as coisas que permitem a compreensão e o diálogo.

        Talvez você não esteja de fato interessado em se colocar num lugar que permita compreender esse conceito porque deduz que, se assim o fizesse, você seria forçado a concordar com ele, justamente porque você compartilha muito mais premissas com os marxistas do que comigo, por incrível que pareça. Afinal Marx foi influenciado pela filosofia econômica dos ingleses, não questionou os princípios, apenas a aplicação. Enquanto para mim os próprios princípios dessa filosofia econômica são questionáveis. Minha impressão é que seu estranhamento tem mais a ver com uma limitação auto imposta do que uma diferença tão grande assim no pensamento. Mas eu respeito sua vontade de não continuar.

        Agradeço também a discussão. Vou aproveitar o que eu escrevi pra você em outro texto então. Espero que não se importe.

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  7. “Talvez você não esteja de fato interessado em se colocar num lugar que permita compreender esse conceito porque deduz que, se assim o fizesse, você seria forçado a concordar com ele, justamente porque você compartilha muito mais premissas com os marxistas do que comigo, por incrível que pareça.”

    Acho que eu me expressei mal. Não é que eu não compreenda as teorias de Marx do mesmo modo que uma pessoa leiga em física não entende Relatividade Geral. É que, dado o meu conjunto de axiomas, as ideias de Marx me parecem tão incorretas e ele, a meu ver, cometeu tantos erros na aplicação da teoria economia básica, que o marxismo me soa quase absurdo.

    No seu texto, você mencionou que não adianta apontar evidências em alguns casos de anarcocapitalistas, assim como não adianta fazê-lo com alguns terraplanistas. Meu problema é mais nesse sentido: Eu tenho dificuldade em entender a lógica dos marxistas do mesmo modo em que tenho de entender a dos terraplanistas, guardadas as devidas proporções.

    Para mim, é como se eles vissem o mundo e as relações humanas de uma forma completamente deturpada.

    “A não ser que o marxismo não passasse realmente uma insanidade, uma coisa absolutamente sem sentido.”

    Eu não diria insanidade. Embora tenha feito a analogia com o terraplanismo, é claro que não acho que os dois estão no mesmo nível. O terraplanismo, de fato, é uma insanidade. Para mim, de um ponto de vista econômico, o marxismo é só uma teoria extremamente ruim. Tão ruim, que eu mal consigo ver lógica nela.

    É claro que uma pessoa que tenha um conjunto de axiomas totalmente diferente do meu, terá uma visão igualmente distinta. Para ela, o marxismo poderá parecer uma teoria totalmente lógica e, como essa pessoa também enxergará o mundo de forma distinta da minha, poderá até ver uma ótima concordância com as previsões de Marx onde eu vejo total discordância. Ela também poderá achar que o liberalismo econômico é absurdo e ter dificuldade em entender como a cabeça dos liberais funciona. Tudo depende dos princípios de cada pessoa. Como percebi que os nossos são diferentes, vejo que não há muito sentido em prosseguir com o debate.

    Eu não tenho receio de acabar concordando Marx, mas cada vez me convenço mais de que isso só seria possível se eu tivesse um conjunto de princípios muito diferentes dos que tenho. Acho que toda a minha mente precisaria ser estruturada de forma distinta para que o marxismo fizesse sentido para mim.

    E claro, sinta-se à vontade para usar sua resposta para fazer outro texto.

    Mauro

    Curtido por 1 pessoa

    1. Agora compreendi melhor. Não é que você não consegue entender, é que você não vê sentido em entender algo que não tem como estar correto a partir dos seus axiomas. Não vou insistir nesse assunto, não quero parecer chato. Mas não acho que ter um conjunto diferente de axiomas impede de ter um debate. Na verdade, axiomas precisam ser tratados como ferramentas, não como algo fixo. Se você se fixa a um dado conjunto de axiomas, você limita bastante sua capacidade de compreensão do mundo. E aí na verdade não tem como dizer se outra visão está realmente incorreta, porque nada comprova que seus axiomas são os únicos válidos ou condizentes com a realidade.

      O que você parece estar dizendo com “dificuldade de entender” parece ser na verdade uma dificuldade de se desprender de um dado conjunto de axiomas que você assimilou. É tudo uma questão de perspectiva, algo muito caro à antropologia.

      Por exemplo, eu consigo ver sentido no terraplanismo. Não o considero insano. Ele é o resultado da afirmação de uma teoria empirista radical até as últimas consequências, é um produto previsível do nosso contexto cultural, da crise de autoridade da modernidade tardia, etc… Também vejo sentido no liberalismo. Partindo do individualismo metodológico é fácil ver a lógica das conclusões liberais. No fundo, nada é absurdo, assim como nada é impossível de entender, nem sequer a loucura. É uma questão de disposição para escavar terrenos que às vezes são extremamente duros. Como me dizem: haja paciência. Converso com pessoas que tem ideias que você nem imagina.

      Os princípios também são mutáveis. Na dialética, é possível aceitar princípios contraditórios ao mesmo tempo, sem ser contraditório. É a síntese das contradições. Mas enfim, são coisas da filosofia. Tenho amigos formados em economia que se “converteram” do liberalismo mais radical ao marxismo mais radical (não por influência minha, obviamente), e minha impressão, sinceramente, é que não mudaram tanto assim. A maioria das posições continuaram exatamente iguais, por incrível que pareça. Mas com isso não quero provocar você a responder. Eu encerro aqui. Até mais.

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      1. Sim, acho que você pegou bem a ideia agora.

        Eu concordo que ter princípios diferentes não impede o debate, e eu já tive muitos (literalmente centenas) de conversas em que escavamos até os níveis mais fundamentais da discussão.

        Mas, neste caso em particular, meu interesse era mais na questão puramente econômica. Específicamente, no conceito de mais-valia. Por isso achei que não faria sentido ir além, uma vez que já vi que o buraco é muito mais embaixo…

        Também encerro por aqui.

        Obrigado,

        Mauro

        Curtido por 1 pessoa

  8. Há muitos erros no texto. Vou apontar alguns.
    Ayn Rand, ao contrário do que diz o texto, era crítica do anarcocapitalismo, grupo que ela chamava de “hippies da direita”.
    O capitalismo rejeitado pelo anarquismo não é o mesmo capitalismo defendendo pelos libertários. O Mutualismo de Proudhon é uma espécie de livre mercado (primitiva e cheio dos erros da época). O libertário de esquerda Roderick T. Long diz que “capitalismo” e “socialismo” são palavras com tantos significados distintos que não deveriam ser usadas, causam mais confusão do que esclarecimento.

    “As premissas básicas do anarcocapitalismo são:”

    Não, não, não… essas são as premissas da Praxeologia, metodologia usada pelo economista Ludwig von Mises da Escola Austríaca, que não era nem nunca foi um anarquista de mercado.
    E Escola Austríaca de Economia não pode ser confundida com Filosofia Libertária. A primeira tem uma análise positivista, sem juízo de valor, enquanto a segunda, mesmo sendo a aplicação da primeira, aí sim, tem uma análise normativa.

    Ancaps não precisam necessariamente nem mesmo acreditar na ética libertária ou direito natural. Há ancaps que são utilitaristas como David Friedman (que é da Escola de Chicago).

    A escassez também é válida para o corpo, para a extensão do corpo, para o tempo e qualquer noção de custo de oportunidade é também um exemplo de escassez. A abundância de recursos naturais que ainda não foram extraídos não seria nenhum exemplo de não-escassez para nenhuma escola de economia minimamento séria até onde eu saiba.

    O argumento de que é necessário um estado para existam direitos de propriedade é um non sequitur. Já hoje há registro de contratos e propriedades em blockchain. Além de ser um argumento de ignorância, “só o estado pode fazer tal coisa pq até hoje só o estado fez tal coisa”. Teria que provar que o estado é o única maneira de se realizar tal serviço, o que nunca foi feito. A existência de câmaras de arbitragem, direito internacional, acordo marítimo, acordos privados e muitas outras coisas provam que a alegação é falsa em várias áreas consideradas como “monopólio natural”.

    O Princípio da Não-Agressão não tem como objetivo acabar com a iniciação de agressão ou diminuí-la, é apenas uma noção racionalista ou jusnaturalista de definir o certo e o errado, o que deve ser proibido ou não, baseado em isonomia, lógica e sobrevivência da espécie humana.

    O artigo foi resultado de uma pesquisa extensa de alguém que não está familiarizado com o tema, se confundiu muitos conceitos. Não entendi a insistência em apontar estudos sociais como crítica a alguns pontos já que é uma área de pouco consenso científico e nem de perto tem a seriedade metodológica das ciências naturais. Inclusive, a metodologia das ciências naturais aplicadas às ciências sociais é parte da forte crítica da Escola Austríaca sobre metodologia, sendo esse o tema do Hayek no discurso do recebimento do Prêmio Nobel de Economia.

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    1. É verdade, Ayn Rand criticou o anarcocapitalismo, mas também o influenciou. Uma coisa não exclui a outra.

      “O capitalismo rejeitado pelo anarquismo não é o mesmo capitalismo defendendo pelos libertários”.

      Eu concordo mas notei que você usa o termo “libertário” também num sentido diferente. Pois segundo Camila Jourdan e Acácio Augusto (teóricos anarquistas), anarquistas são libertários, ancaps não são anarquistas nem são libertários. O termo foi apropriado estrategicamente por meio de revisionismo histórico. Usar o termo “libertário” para se referir a anarcocapitalistas (defensores da propriedade privada dos meios de produção) causa confusão. Anarcocapitalistas são “anarquistas de mercado” ou proprietaristas. É verdade que eles têm um outro conceito de capitalismo, mas esse conceito também é questionável. Mutualistas, que defendem um tipo de “livre mercado” anarquista, não são exatamente anarcocapitalistas. Quanto aos anarcocapitalistas “de esquerda”, esse é um assunto mais complexo, que valeria outro texto.

      Sobre as premissas, essa é uma ótima correção. Você tem razão, essas são as premissas da Praxeologia de Ludwig von Mises, e a Escola Austríaca de Economia não pode ser confundida com a filosofia que você chama de “libertária”. Há uma crítica “libertariana” à praxeologia na minha lista de referências. Eu estava citando Alexandre Porto nesse trecho. Ele disse que essas são as “as premissas do anarcocapitalismo”. Certamente sua correção é válida e demonstra que Porto é uma péssima referência até mesmo para ancaps, embora seja famoso.

      Eu citei de passagem o conflito entre ancaps da “ética libertária ou direito natural” e os ancaps utilitaristas como David Friedman. Infelizmente não deu pra aprofundar muito porque o texto tinha um limite de espaço.

      Já sobre a teoria da escassez e da abundância, não me pareceu que você fez uma correção ou um contra-argumento. Você reproduziu o discurso econômico baseado no paradigma da escassez. Eu recomendo ler a antropologia econômica de Marshall Sahlins sobre a abundância original. Embora se trate de uma antropologia da economia e não necessariamente uma escola de economia, existe uma corrente do pensamento econômico influenciada pela crítica ao conceito de escassez. Por exemplo, a teoria do “não-valor” e da pós-escassez.

      “O argumento de que é necessário um estado para existam direitos de propriedade é um non sequitur”.

      Aqui você fez duas acusações de falácia: “uma coisa não se segue necessariamente da outra” e “só porque não temos um exemplo de X não quer dizer que X não seja possível”. Porém, meu argumento não foi que o direito de propriedade se segue necessariamente da existência de Estado. O que eu disse é que, historicamente, o Estado foi a condição de possibilidade do direito à propriedade privada, como você reconheceu na segunda acusação: “até hoje só o estado fez tal coisa”. Então a primeira acusação não é consistente com a segunda. A segunda também ataca um espantalho, pois o argumento não é que não podemos, de modo algum, ter direito de propriedade sem o Estado. Quem teria que provar que isso é possível é quem afirma. Porém, dependendo do que você entende por “Estado”, é bem mais difícil demonstrar isso. Atente-se para a definição logo no começo do texto: anarquistas não se opõem ao Estado simplesmente como instituição governamental. Estado é uma relação de poder. Na teoria sociológica do Estado, as “soluções” ancaps, que envolvem complexos sistemas de acordos tais como os que você citou, acabam por funcionar como um Estado, apenas descentralizado ou privatizado.

      “O Princípio da Não-Agressão não tem como objetivo acabar com a iniciação de agressão ou diminuí-la, é apenas uma noção racionalista ou jusnaturalista de definir o certo e o errado, o que deve ser proibido ou não, baseado em isonomia, lógica e sobrevivência da espécie humana.”

      Realmente parece uma definição mais precisa de um ponto de vista ancap, mas não acho que isso muda substancialmente a crítica ao PNA.

      “O artigo foi resultado de uma pesquisa extensa de alguém que não está familiarizado com o tema, se confundiu muitos conceitos”. Eu aceito essa crítica como elogio. Sim, foi uma pesquisa extensa e eu não estava familiarizado com os conceitos. O objetivo foi apontar fontes que permitam uma resposta mais séria aos ancaps, ao invés de simplesmente ignorar que eles existam. O público alvo do artigo não são os ancaps, mas seus críticos.

      Quando ao debate epistemológico entre ciências sociais e ciências naturais, eu posso falar com mais familiaridade sobre isso porque é minha área de pesquisa. Dizer que existe mais “seriedade metodológica” nas ciências naturais do que nas sociais é um grande equívoco. São áreas diferentes, elas não podem ser equiparadas. Não se pode aplicar a metodologia das ciências naturais às ciências sociais como se existisse um fenômeno econômico que não é um fenômeno social ou humano, e portanto subjetivo. Essa crítica não é exclusiva da Escola Austríaca. Weber diz o mesmo em “Economia e sociedade”. O fato de que nas ciências sociais estudamos Weber e não Menger não se deve ao fato que um “ignora a subjetividade” e o outro não, mas sim que a metodologia de Weber é considerada mais completa, conciliando o subjetivo e o objetivo.

      O fato de que Hayek recebeu um “Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel” (que não é exatamente um prêmio Nobel) não é tão relevante quanto parece. Especialmente se você considerar quantos membros da Sociedade Mont Pelerin, fundada pelo Hayek, faziam parte do comitê que escolhia os vencedores do Prêmio, e o fato que oito membros da Sociedade Mont Pelerin receberam esse prêmio. O fato é que a organização criada por Hayek ajudou a criar esse prêmio com o objetivo de legitimar sua linha de pensamento econômico.

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      1. Creio que “Libertarian” nunca foi um termo para anarco-coletivistas nos EUA como na América do Sul. Termo que surgiu nos EUA para substituir o “liberal” tomado pela esquerda progressista. Mas debates semânticos não me interessam.

        Não há dúvidas que o anarco-individualismo foi uma influência para o libertarianismo junto com a tradição liberal clássica, com nomes como Tucker, Spooner, Spencer, Stirner, se não o próprio Proudhon diretamente. Apesar de todos os erros econômicos desta vertente: teoria valor-trabalho, falta de entendimento sobre juros e preferência temporal e tal. Liberais e anarquistas (anind) já foram aliados dentro da esquerda política no Parlamento Francês.

        Negar a escassez é negar a lógica.

        “Quem teria que provar que isso é possível é quem afirma.”
        Pois é, os ancaps adorariam poder provar isso se deixados em paz. Acontece que isso já está provado, já existe mercado em todas essas áreas. Já existe segurança privada, leis privadas, regulamentação privada, registros privados, ruas e estradas privadas. O ônus da prova se inverte, quem defende o estado que deve justificar por que um monopólio coercitivo e sempre ineficiente (em relação a competição de mercado, claro, todo monopólio gera ineficiência) deve existir em qualquer setor da economia.
        O que gera outra pergunta: Se a sua ideia é melhor que a minha, por que a sua é imposta na base da força, da agressão?

        Weber foi uma grande influência em Mises, ele é bastante citado no livro Teoria & História. Desconheço a teoria dele. Meu argumento foi mais no sentido de que empirismo e consenso no meio das ciências sociais não pode ter o mesmo peso que nas ciências naturais. Karl Marx, um charlatão que nada acertou, ser tratado como um deus indica que há algo muito errado com as ciências sociais, e principalmente com a elite acadêmica de humanas em países irrelevante para a produção científica mundial e iliberais como o Brasil. O pós-modernismo prova que a imbecilidade não tem limites nessa área. Poderia dizer o mesmo das malignas influências de Freud e seus seguidores em vários campos. As ciências naturais são imunes a tudo isso graças ao método científico que separa o joio do trigo. Mas esse método não funciona tão bem assim nas ciências sociais, e nem foi desenvolvido para isso.

        “O fato de que Hayek recebeu um “Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel” (que não é exatamente um prêmio Nobel) não é tão relevante quanto parece.”
        Não é mesmo, o que eu citei não foi o prêmio, foi o discurso do Hayek quando recebeu o prêmio! Prêmio “Nobel” de economia é dado pelo Banco Central da Suécia, a EA defende a extinção dos bancos centrais, logo, receber um prêmio desses é um demérito. Se uma instituição de planejamento econômico é quem vai dar um prêmio de economia, a piada já está pronta. Mas discurso do Hayek continua brilhante, se chama A Pretensão do Conhecimento.

        “O Nobel confere a um indivíduo autoridade que, em economia, nenhum homem deveria possuir… Isso não é um problema para as ciências da natureza.”
        FA Hayek

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      2. Não é só semântica:

        “One gratifying aspect of our rise to some prominence is that, for the first time in my memory, we, ‘our side,’ had captured a crucial word from the enemy . . . ‘Libertarians’ . . . had long been simply a polite word for left-wing anarchists, that is for anti-private property anarchists, either of the communist or syndicalist variety. But now we had taken it over…” – Murray N. Rothbard, The Betrayal Of The American Right.

        A anarco-individualismo está em constante desenvolvimento. O que você considera como “erros econômicos” depende muito da sua posição política, e não necessariamente do quanto estudou economia. As discussões sobre a teoria valor-trabalho; taxa de juros; preferência temporal e outras do tipo continuam abertas.

        Não neguei a escassez mas sim questionei a escassez como condição natural da humanidade. Este questionamento está presente na sociologia, na filosofia e na antropologia da economia. Por exemplo em “A primeira sociedade da abundância” de Marshall Sahlins e “Introdução à dádiva” de Godbout, a pobreza é produto da civilização, e apesar da escassez ser tomada como base pelo paradigma econômico dominante, outras perspectivas econômicas partem da abundância.

        Não faz sentido cobrar “ônus da prova” de uma afirmação que não foi feita. Eu estava respondendo a duas acusações de falácia. A primeira foi “uma coisa não se segue necessariamente da outra”, referindo-se ao Estado e ao direito à propriedade privada. Eu respondi que não afirmei relação de necessidade, mas sim de afinidade, pois uma coisa se seguiu da outra na história, o que é admitido na sua segunda acusação: “só porque não temos um exemplo de X não quer dizer que X não seja possível”. Não fiz afirmações sobre possibilidade lógica. O que eu disse é que, dependendo do que você entende por “Estado”, é bem mais difícil demonstrar que uma coisa pode acontecer sem a outra. O conceito anarquista de Estado, citado no começo do artigo, implica que “poder econômico sempre foi e sempre será poder político”. O ponto é que, se podemos abolir a propriedade, não precisamos nos preocupar com esse problema. Quem precisa demonstrar que é melhor perseguir um anarquismo de livre mercado do que um anarquismo com ausência de mercado é quem defende isso. E isso precisa ser defendido não apenas em termos lógicos, abstratos ou ideais, mas em termos concretos, políticos, materiais e sociologicamente informados.

        O que a globalização do mercado comprova? A questão de fundo não seria a suposta naturalidade do mercado, isso é, das mercadorias com valor de troca? A discussão aqui é sobre como esse tipo de mercadoria poderia existir sem nenhuma forma de coerção social ou exploração do trabalho. Essa discussão tem vários níveis e atravessa várias concepções econômicas e políticas diferentes.

        Um dos pontos principais do artigo é que atacar o Estado não significa necessariamente defender o livre mercado, e vice-versa. As opções não se limitam a monopólio coercitivo do Estado ou a livre competição de mercado. Kropotkin foi um dos anarquistas que teorizou sobre uma economia sem Estado e sem mercadoria no sentido capitalista.

        “Se a sua ideia é melhor que a minha, por que a sua é imposta na base da força, da agressão?”. Onde você vê minha ideia sendo imposta na base da força e da agressão? Como você sabe qual é minha ideia? A discussão aqui é sobre anarcocapitalismo, não sobre “minha ideia”, que eu mal citei aqui. Ainda assim, não faria sentido defender uma ideia simplesmente atacando outra. Eu não falei simplesmente da minha ideia, mas sim da minha pesquisa.

        Eu conheço razoavelmente bem a teoria de Weber e consigo ver em que sentido ela pode ter influenciado Mises: Weber abriu caminho para uma metodologia da subjetividade. O empirismo nas ciências sociais é um pouco diferente do empirismo nas ciências naturais, porque o próprio pesquisador é parte do objeto que ele estuda (a sociedade), não podendo se colocar completamente acima desse objeto, como um observador neutro, portanto sendo obrigado a considerar diferentes interpretações sobre o mesmo fenômeno. Isso não significa, porém, que não tenhamos métodos para qualificar essas interpretações em termos de confiabilidade. Chamar Karl Marx de “charlatão que nada acertou” é tão errado quanto tratá-lo como um deus. A contribuição dele é limitada, mas não inexistente. Querer ver “algo muito errado com as ciências sociais” só pelo suposto peso que Marx adquiriu nessa área é besteira. Quando fiz mestrado em sociologia, por exemplo, quase ninguém era marxista. Além disso, os marxistas são desunidos, vivem brigando entre si. E tem um péssimo hábito de chamar tudo que discordam de liberal ou pós-moderno. Acho que as pessoas de fora dessas áreas tem uma ideia bastante equivocada sobre a “elite acadêmica de humanas”. De todas as críticas que podemos tecer à academia, ser “demasiadamente marxista” é a menor delas. A empolgação com Marx é mais comum entre alunos fazendo estágio de licenciatura, e geralmente estes estão apenas começando a compreender as teorias marxistas. Acreditam que falar sobre socialismo dará maior capacidade crítica aos alunos, pois fazer uma crítica à ideologia dominante é melhor do que apenas reproduzi-la para adequar os alunos ao mercado. O problema é que a ideologia liberal prega que a ideologia dominante na verdade é o comunismo. Eles geralmente se utilizam de um discurso anticomunista criado durante a guerra, para diminuir a influência do bloco soviético. No Brasil, por exemplo, a direita trata professores que simplesmente estão apresentando uma crítica ao status quo como se fossem doutrinadores. A precarização do ensino público piora a situação.

        Apesar disso, diferente do que você afirmou, o Brasil está muito longe de ser irrelevante para a produção científica mundial. É um dos mais significativos, inclusive na área de humanas. Chamar pesquisadores de humanas de “pós-modernos” é uma crítica extremamente rasa. Dizer que “a imbecilidade não tem limites nessa área” é uma crítica vazia, não adiciona nada significativo ao seu argumento, é uma simples ofensa, está no nível mais baixo da escala de relevância argumentativa. Isso faz com que seu discurso ganhe tons sensacionalistas, dando ainda menos credibilidade às suas opiniões. Ao invés de atacar meus argumentos, você ataca minha formação. Achar que as ciências naturais “são imunes a tudo isso graças ao método científico que separa o joio do trigo” é extremamente ingênuo. Se você admite que as ciências naturais não estudam os fenômenos sociais, então onde você quer chegar com isso? Que tipo de contribuição à análise do anarcocapitalismo pode vir de uma perspectiva que ignora as ciências humanas?

        O problema de nos ater a esse discurso do Hayek em específico é que, apesar de ser realmente interessante em termos de epistemologia, ele não implica necessariamente numa defesa do anarcocapitalismo, nem sequer do liberalismo de mercado. Hayek se baseia em alguns dos avanços que já estavam presentes na área da filosofia da ciência, e você pode ter razão se disser que a escola austríaca como um todo avançou mais no estudo da epistemologia contemporânea do que a maioria dos marxistas. Mas, ainda assim, isso não adiciona argumentos a favor do anarcocapitalismo. Discutir a importância da escola austríaca na crítica epistemológica é entrar num outro assunto, pois a economia anarcocapitalista não é uma consequência direta de uma determinada compreensão lógica ou epistemológica. Se o que está tentando afirmar é que a economia pode analisar a sociedade com um método superior ou independente do resto das ciências humanas, como se a economia fosse uma ciência social mais exata ou tivesse métodos mais próximos das ciências naturais, então entramos numa discussão sobre reducionismo econômico, determinismo econômico, positivismo econômico e assim por diante.

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  9. Cara, eu amei seu texto, que foda!

    Acompanhei bastante das suas respostas nos comentários também, muito bom.

    Bem bacana, de verdade! Vou salvar esse texto para ler em outros momentos e usar em algum momento oportuno.

    Eu vim parar aqui pq tava puto com anarcocapitalistas, ai pesquisei no google em tom de ironia “pq anarcocapitalistas existem?” e daí me deparei com esse seu texto e comecei a ler e me surpreendi com a qualidade e com a sua ótima análise, curti bastante.

    Me pegou bastante a questão deles analisarem e basearem sua teoria numa realidade inexistente, meio que ignoram como as pessoas realmente se comportam na sociedade e como é a verdadeira lógica do capital, do dinheiro, etc… Por exemplo: o dono do meio de produção/propriedade vs. os trabalhadores empregados na sua fábrica.

    Colocam o individualismo como algo maravilhoso mas simplesmente esquecem que na verdade o dono quer mais é dinheiro e tá pouco se fudendo pros seus trabalhadores. Não tem como as coisas serem 100% privadas, pq só vai gerar mais exploração e acúmulo nas mãos dos mais ricos.

    Bem bacana o trecho do “Por que as pessoas se tornam anarcocapitalistas?” e achei interessante tb a suposição que você fez de elas terem sofrido algum trauma psicológico ou algo do tipo. Queria ser psicólogo pra estudar individualmente os anarcocapitalistas e ver se dá pra traçar um paralelo entre eles.

    Mas sei lá, os caras vivem em uma outra realidade, não enxergam a sociedade como ela realmente é.

    Enfim, desculpa pela minha escrita esdrúxula e nada enriquecedora e profunda, comparada aos outros comentários, mas resumindo:

    Amei o texto, excelente, fiquei admirado. E parabéns por “tankar” os comentários dos carinhas e ir dialogando bonitinho com eles e argumentando tudo certinho, respondendo à altura com ótimos pontos e teorias.

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