Automação e emancipação

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Uma crítica à ideia de automação como meio para a emancipação humana.

Automação é a substituição do trabalho humano/animal por um sistema mecânico ou eletrônico de produção automática, como robôs na linha de montagem de carros. Muitos autores defenderam que o avanço da tecnologia traria, em algum momento, a emancipação humana por meio da automação do trabalho, o que também seria uma vitória sobre a natureza, ou seja, o fim da tirania das necessidades naturais sobre os meios de produção. Muitos acreditam que a tecnologia atual já é capaz disso e basta apenas retirar o entrave que é o capitalismo.

Minha proposta é questionar a ideia de automação da produção como emancipação humana, trazendo à tona questões que considero serem fundamentais.

Sobre a neutralidade da tecnologia

A premissa central do livro Sociologia da tecnologia, de Michelangelo Giotto Santoro Trigueiro, é que não podemos ficar apenas com uma análise generalizada sobre a tecnologia. Não podemos tratá-la como algo que inerentemente colabora somente com a dominação humana ou somente com a emancipação humana, mas compreender que ela é um fenômeno com realidade própria. Como fenômeno distinto da religião, da ciência, da política e da ideologia, a tecnologia está aberta a diferentes possibilidades. Se analisada de modo abstrato, é possível vislumbrar a possibilidade de uma crítica ao avanço tecnológico. Mas analisada de modo concreto, ela se mostra contribuidora na melhoria da qualidade de vida. “O que se quer argumentar é que a tecnologia não é necessariamente uma realidade ameaçadora e restritiva, tampouco emancipatória, para a humanidade e para a vida no planeta” (TRIGUEIRO, 2009).

Como contraponto a Trigueiro, parto da seguinte premissa: Muito do que chamamos de conquistas da humanidade são na verdade desenvolvimentos de uma sociedade patriarcal e dividida em classes. Essa sociedade não representa a humanidade, ainda que tenha se globalizado. Não se trata de um modo de vida avançado, como se os povos nativos estivessem atrasados em relação ao avanço da história universal. Por outro lado, os danos causados pelo avanço tecnológico impactam não apenas a sociedade que a produz, como também as sociedades ao seu redor e os demais sistemas vivos. A tecnologia não é neutra justamente porque serve aos interesses da sociedade que a criou, e por isso seu avanço não é um avanço para toda humanidade, mas para um modo de vida somente.

Alguns podem dizer que a tecnologia não é neutra porque foi transformada em mercadoria pela sociedade capitalista. A tecnologia, no contexto da dominação capitalista, serviria ao interesse das classes dominantes, mas poderia ser colocada nas mãos de uma classe revolucionária, que então a usaria para o bem de toda a humanidade. Sem superar o sistema capitalista, a automação só pode gerar desemprego, aumento do lucro do proprietário e desigualdade social. Sem o sistema capitalista, a tecnologia poderia servir ao interesse de todas as pessoas, e não apenas de uma classe dominante.

Mas a tecnologia como a conhecemos é em grande parte produto das necessidades específicas de uma sociedade de classes. O suposto “avanço tecnocientífico” que serviu aos interesses das classes dominantes no decorrer da história é um avanço relativo. Na sociedade burguesa, o desenvolvimento dos meios de produção visou a eficiência da extração de mais-valia, para aumentar o lucro do capitalista. Com o fim do capitalismo, qual seria o sentido da automação do trabalho?

Para os defensores do “comunismo totalmente automatizado“, a lógica básica do desenvolvimento dos meios de produção pode ser colocada a serviço da humanidade ao substituir o trabalho humano pelo trabalho de máquinas, assim como o lucro pelos fins econômicos que visem a qualidade de vida de todos. A mesma estrutura tecnológico-industrial que na modernidade é usada para escravizar a humanidade seria usada para emancipar a humanidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas, produzindo de modo mais eficiente e racional, na medida das necessidades humanas. O valor dos produtos não seguiria mais as leis da economia liberal, e até o dinheiro poderia ser abolido. Com a abolição do trabalho assalariado e a socialização dos meios de produção, este sistema tecnológico-industrial continuaria avançando, mas no sentido do aumento do bem-estar humano, minimizando o tempo de trabalho e maximizando o tempo livre, ao invés de servir ao acúmulo de capital que apenas explora e degrada o trabalhador.

Técnica e tecnologia

Na análise acima, há uma confusão entre a neutralidade da tecnologia e o uso “subversivo” dos dispositivos tecnológicos para fins não-capitalistas. A neutralidade da tecnologia não diz respeito somente aos interesses da classe burguesa, mas aos interesses da sociedade de classes. A ideia de automação do trabalho já estava presente entre os tecnocratas da Grécia Antiga. Eles sonharam com um mundo em que o trabalho escravo seria substituído pelo trabalho de autômatos. Esta seria a única forma de emancipação humana, já que não era possível ter uma sociedade “civilizada” sem escravos fazendo o trabalho duro. Mas qual a origem desse trabalho?

A necessidade de estabelecer um grau crescente de controle sobre a natureza e as pessoas interessa basicamente às sociedades com divisão de classes, controle sobre a procriação, propriedade privada, etc… A tecnologia como a conhecemos vem dessas sociedades, e tem pouca relação com o uso de ferramentas simples. O uso de ferramentas simples foi suficiente para a vida humana por centenas de milhares de anos e praticamente não mudou por todo esse tempo. Diferente do uso de ferramentas, a tecnologia pressupõe “aprimoramento constante” dos dispositivos técnicos. Ferramentas simples não são exatamente “tecnologia” porque elas estão misturadas com a atividade humana. A criação da tecnologia coincide com separação entre natural e cultivado (cultura). As atividades que as ferramentas simples facilitam são parte das atividades que nos tornam humanos, já a tecnologia nos afasta de nosso habitat natural, criando um habitat artificial.

Quando se fala que a canoa feita por povos nativos da América é uma “tecnologia indígena”, por exemplo, se assume um sentido tão amplo que o conceito perde o sentido. Esta generalização do conceito pode ter uma função retórica de evitar a crítica ao determinismo tecnológico, assim como dizer “tudo é biológico, não existe algo que não seja biológico” pode ser usado como um recurso para evitar a crítica ao determinismo biológico.

O principal argumento em defesa do conceito amplo de tecnologia é que nos tornamos humanos por meio da criação e uso de dispositivos técnicos. Nossa educação, ou processo de socialização primária, ocorre por meio da interação com objetos técnicos. Por exemplo, quando ensinamos uma pessoa a fazer e usar uma faca, um colar ou um cesto, também a inserimos na vida social, enquanto adultos. O problema é que essa defesa da atividade técnica primária é usada como justificação de um sistema tecnológico industrial, como se usar ferramentas simples fosse apenas o estágio inicial de um processo de avanço tecnológico que se confunde com o desenvolvimento humano, como se fosse um processo que ocorre com a humanidade como um todo. E isso tem implicações importantes. Embora o uso de ferramentas esteja misturado com a atividade humana, a industrialização não está, e não é necessariamente o resultado de um processo universal de desenvolvimento técnico, mas sim o resultado de uma seleção de valores num modo de vida particular.

Não se trata de estágios diferentes da evolução da capacidade técnica humana, mas diferentes modos de organização e valorização do sistema técnico. Esta distinção não é usual, ela desafia algumas noções que são repetidas constantemente em referências das ciências humanas. Para muitas pessoas, tecnologia é apenas um modo avançado de técnica, ou a combinação de técnica e ciência. A distinção que apresento aqui entre técnica e tecnologia não contradiz totalmente essa base teórica, mas tem como base uma abordagem um pouco diferente, por partir também de uma crítica à ciência feita pela filosofia da ciência contemporânea. Este é um assunto bastante complexo e que precisa ficar para outro momento.

O detalhe importante sobre a relação entre técnica e sociedade é que, se dependemos da técnica para nos tornarmos adultos (ela faz parte do nosso desenvolvimento ontológico), então, pelo mesmo motivo que ela não pode ser retirada da experiência humana, essa relação também não pode ser automatizada. Se ela deixa de ser realizada por humanos e passa a ser realizada por máquinas, nos tornamos alienados de uma parte da atividade humana. Realizar essas atividades “com as próprias mãos” é o que nos torna seres humanos.

Em resumo, do fato de que a atividade técnica primária (uso de ferramentas simples) está inevitavelmente misturada com a atividade humana, não se conclui a necessidade do sistema industrial, seja para a sobrevivência humana ou para o desenvolvimento, a evolução ou o progresso da humanidade. Há um salto lógico entre as duas afirmações.

Ao mesmo tempo em que se reconhece a importância da técnica para o ser humano (assim como para outros animais), ou seu papel no desenvolvimento humano, se conclui, por exemplo, que aprender a cozinhar, ou a fazer um determinado objeto com suas próprias mãos (artesanato), faz parte do processo de socialização primária. Sendo assim, não faria sentido automatizar esse tipo de atividade. A automação do processo de produção de uma pamonha, por exemplo, implica na perda da cultura que se desenvolveu a partir da produção artesanal da pamonha. O mesmo é válido para muitos outros bem de consumo. Numa sociedade em que as roupas deixam de ser mercadoria, por exemplo, ainda faz sentido automatizar a produção delas? Basta observar o contexto em que as pessoas deixaram de fazer suas próprias roupas. Foi uma mudança voluntária para elevar a própria autonomia, ou foram levadas a isso pelas condições materiais da sociedade de classes?

Existe um conflito entre os processos sociais ligados à produção material e cultural, e os imperativos técnicos de eficiência da produção, como já apontado pela teoria marxista. Estes processos possibilitam as práticas e representações que nos informam QUEM SOMOS, e a partir delas nós decidimos quem QUEREMOS SER. Uma atividade aparentemente banal para a lógica econômica, como costurar sua roupa, pode ser imprescindível para nossa autocompreensão, e por consequência para nosso posicionamento ético e político. Automatizar tal coisa seria nos alienar de nós mesmos e aceitar passivamente um determinado ordenamento social. E aqui é preciso enfatizar uma coisa: a valorização da eficiência da produção visa o lucro numa sociedade capitalista, mas poderia ser um fim em si mesmo numa sociedade pós-capitalista. O que significa que a crítica ao capitalismo, apesar de necessária, não é suficiente para compreender a crítica à tecnologia, pois agora trata-se de criticar a sujeição ao critério de eficiência em si.

Ok, mas e o trabalho pesado?

Se as atividades técnicas primárias não deveriam ser automatizadas, quais atividades deveriam? Resta o trabalho repetitivo, mecânico, pesado, forçado e que visa a manutenção de uma estrutura social baseada em controle da natureza. A primeira delas teria sido a agricultura. Tal estrutura se justifica apenas pela divisão de classes. Se podemos superar tal divisão, porque deveríamos manter essa estrutura? A resposta mais comum é: porque precisamos alimentar 7 bilhões de pessoas. Pessoas morreriam sem essa estrutura.

É por isso que o discurso tecnocrático é conservador em relação à ecologia populacional. O suposto aumento na saúde ou qualidade de vida das pessoas por causa da estrutura tecnológica é questionável (há evidências de que éramos mais saudáveis antes da agricultura), mas é impossível alimentar 7 bilhões de pessoas sem uma estrutura tecnológica “avançada”. O problema é: o que realmente alimentou 7 bilhões de pessoas foi a superexploração de um recurso não-renovável com alta eficiência energética: o petróleo. O uso de petróleo não está em continuidade com o desenvolvimento humano em si. Mesmo que todo o trabalho realizado por motores a combustão fosse dividido igualmente entre todas as pessoas, ainda seria incrivelmente pesado e alienante.

Mas o petróleo não deu início ao crescimento exponencial da população humana. Diferente de Thomas Malthus, que naturalizou esse crescimento, nós consideramos que ele é produzido pela alienação do ser humano na sociedade de classes. Antes do petróleo, o excesso populacional foi sustentado pelo uso de animais e de escravos, e o controle sobre os corpos de mulheres e crianças. Em uma palavra: objetificação. O excesso populacional era “resolvido” pela ocupação de novos espaços geográficos. Num mundo lotado, a nova solução passa a ser a eficiência da produção.

A ideia de automação plena para produção de bem-estar social para 7 bilhões de pessoas é mais malthusiana do que parece, porque ainda parte da naturalização do crescimento populacional e problematiza apenas a lei da progressão aritmética da produção: o avanço tecnológico poderia produzir um ganho de eficiência capaz de suportar muito mais que 7 bilhões. Apesar de várias previsões equivocadas neste sentido e alguns equívocos sobre o que significa uma progressão exponencial, muitas pessoas ainda acreditam que o desenvolvimento econômico e social irá produzir por si só a estabilização do crescimento populacional, supondo que a tendência estatística de países desenvolvidos pode ser generalizada numa sociedade de abundância, ou que a eliminação do desperdício das classes dominantes supriria o resto do mundo. Há algumas razões para duvidar disso.

Quando máquinas fazem o trabalho pesado, a consequência não é muito diferente da escravidão animal: as forças da natureza que animam essas máquinas não podem ser criadas “do nada”. Elas são tiradas de outro lugar. Alguns acreditam que uma matriz energética baseada em energia elétrica ao invés de combustíveis fósseis poderia ser eficiente e ecológica o suficiente para tornar nossa estrutura tecnológica sustentável. Por “ecológica”, geralmente se quer dizer “com um grau sustentável de impacto ambiental”. Mas essas promessas não se distinguem das promessas feitas em todas as outras transições energéticas. O petróleo era considerado limpo antes de se tornar padrão mundial. Não era possível prever o efeito catastrófico da liberação de gases tóxicos na atmosfera. Uma matriz baseada em altas quantidades de energia elétrica não está isenta de apresentar efeitos prejudiciais ao ambiente que ainda desconhecemos. A cada transição, descobrimos um novo tipo de impacto ambiental, e não há um bom motivo para crer que seria diferente com a energia elétrica.

Não é possível naturalizar esse processo, ele é um processo político com implicações éticas. O aspecto técnico da vida humana sempre existiu. A predominância do avanço tecnológico como imperativo econômico, porém, é uma novidade. A tecnologia permanecerá servindo à dominação da natureza e seguindo critérios instrumentais de eficiência, mesmo com uma mudança “sustentável” na matriz energética. Abordagens ecossocialistas rejeitam essa hipótese e acreditam que a mudança de paradigma, do controle sobre a natureza para o autocontrole sobre a tecnologia (somado ao fim do capitalismo), seria suficiente para resolver a crise ecológica. Minha crítica a essa corrente vai ficar para um outro momento.

O critério da eficiência produtiva nem sempre foi prevalente. As sociedades humanas nem sempre experimentaram um avanço constante e acelerado das técnicas. Não porque não havia condições materiais para a realização desse avanço, mas porque o avanço depende de um valor que era ativamente rejeitado. Tendemos a pensar que o ser humano sempre almejou aumentar sua eficiência produtiva porque o conceituamos como um ser regido pelo imperativo da vantagem comparativa. Mas produzir mais e melhor não é o sentido da atividade humana em comunidades “primitivas”. Esta ideia surge apenas a partir da sociedade de classes.

O mito do homem econômico

A crença na emancipação humana pela via da automação do trabalho depende do conceito de “homo economicus”, uma ficção criada para racionalizar a economia, ou torná-la científica, separando-a da filosofia ética. É a ideia de que a psicologia humana funciona basicamente pelas leis do “maior ganho com o menor esforço”. A razão de toda ação humana seria o interesse pessoal. O ser humano seria um sujeito universal, maximizador racional de vantagens, capaz de se informar das consequências e decidir corretamente seu curso de ação, analisando com suficiente precisão os custos e benefícios totais. É um mito sobre a racionalidade humana, sobre a qual repousam os pressupostos básicos da sociedade de classes.

A sociedade de classes é regida pelo conflito de classes, mas também pelo conflito entre a realidade humana e a não humana (razão contra instinto/emoção). Os interesses das classes não são universalizáveis, e qualquer conceito de ‘bem-estar’ é idealista se não supera o conflito de classes. O desenvolvimento científico e tecnológico não é neutro: ele não se segue de uma descrição pura da realidade, mas envolve juízos de valor. Não aplica critérios de uma escolha racional pura, mas envolve valores sociais. E por fim, a escolha dos problemas que pretende resolver segue interesses sociais, e não a busca de um avanço ou conhecimento em si mesmo.

Isso significa que toda a nossa tecnologia está baseada em pressupostos que não podem ser universalizados, tais como o conceito de natureza enquanto recurso, sobre o qual o trabalho humano opera na produção de riquezas. Este conceito econômico opera sob interesses de classes: ele reflete determinadas crenças sobre o valor da vida humana em comparação ao valor da vida de seres não humanos, por exemplo. Não haveria classes sem patriarcado e uso de animais. O conceito de natureza da sociedade de classes é fruto do conceito religioso criado pela primeiras sociedades agropecuárias.

Na sociedade comunista, cada um seria livre para desenvolver-se na área de atuação que quisesse; sem ficar restrito a uma ou outra especialidade. Isso seria possibilitado pela regulação geral da produção. A divisão do trabalho teria separado o interesse particular do interesse comum. Marx descreve isso da seguinte forma: “A ação do homem transforma-se para ele num poder estranho que se lhe opõe e o subjuga, em vez de ser ele a dominá-la”. A dominação de classes seria resultado da falta de controle sobre os meios de subsistência, ou seja, a falta de autonomia. A emancipação humana significaria também a autonomia da ação humana, já que esta deixaria de estar submetida ao “poder estranho” vindo da sociedade de classes.

É apressado, portanto, concluir que o único problema com o progresso seria o modo como ele é sequestrado pelo capitalismo. A tecnologia é produto da divisão de classes, ela é resultado da separação entre interesse particular e interesse comum. Ao invés de um avanço da capacidade técnica humana, a tecnologia seria melhor descrita como a separação entre técnica e natureza. A partir dela, ou a natureza domina a vida humana, impondo seus limites a ela, ou é dominada pela técnica, possibilitando a vitória humana sobre a natureza. Uma síntese que não questiona o sentido do avanço tecnocientífico ainda implicaria na prevalência do aspecto humano (sujeito racional) sobre o não humano (objeto), ou o contrário, da “lei da natureza” sobre a agência humana. Ou seja, superioridade humana ou determinismo.

Um sistema técnico que negasse a oferta de Prometeu e o critério da ação racional (vantagem comparativa) não seria propriamente tecnológico. Se, como afirmei, o conceito de tecnologia não está implícito nem deriva do uso de ferramentas, ele deve ser definido como a organização da técnica em vista dos valores da sociedade de classes, sendo o principal deles o critério econômico que chamamos aqui de “vantagem comparativa”.

Dependência tecnológica

Em resumo, se a atividade técnica naturalmente misturada à vida humana (que chamamos aqui de técnica primária) não pode ser automatizada, e a técnica que se desenvolve a partir da sociedade de classes pode ser superada junto com ela (não sendo necessária à realização humana, e sim resultado de uma seleção de valores), que tipo de trabalho faria sentido automatizar?  Podemos manter o ideal de avanço e esperar que o próximo estágio nos livre finalmente dos problemas criados pelos estágios anteriores (superação dialética), ou podemos nos direcionar para uma diminuição gradual da nossa dependência tecnológica (renaturalização).

A automação é uma solução tecnológica que coloca todos os ovos na cesta do avanço técnico, mas esta decisão tem um viés valorativo. A relação entre técnica, natureza e humanidade poderia ser completamente diferente em outras formas culturais. Numa sociedade realmente ecológica, não só em termos de impacto quantitativo sobre o meio, mas em termos de uma relação eco-antropológica não alienada, a automação pareceria tão sem sentido quanto a manutenção do sistema tecnológico que definimos aqui, onde a técnica está separada da natureza. Forrageadores não precisam de carros. Em outras palavras, os produtos que poderiam ser automatizados sem nos alienar dependem de uma estrutura alienante. A separação entre vida humana e natureza é uma condição de possibilidade dessa estrutura. Logo, a automação seria sempre, e necessariamente, ou alienante ou resultado de uma alienação. Sem alienação não há automação.

Esta implicação categórica sobre a automação parte de uma análise derivada da antropologia econômica de Marshall Sahlins: as sociedades sem classes são sociedades da abundância original, onde o trabalho estava misturado com a vida. A escassez e o trabalho no sentido econômico é produto do avanço técnico, assim como a abundância profetizada pelos Antigos Gregos e representado pelo mito da cornucópia. É uma abordagem compatível com a teoria marxista, pois a transformação social para uma sociedade sem classes de automação plena pode acontecer como consequência lógica do mesmo processo histórico e dialético que produziu o capitalismo, levado à resolução das suas contradições internas. A corrente interacionista da eco-antropologia (representada por Sahlins, Wolf, Geertz e Ingold) possibilita pensar numa alternativa fora da lógica deste processo, retornando à importância dos valores sociais implicados nas ações e nos critérios de ação.

Uma crítica à neutralidade do avanço técnico, ao excepcionalismo humano e ao princípio antrópico, combinada com permacultura e bem-viver (em contraste ao desenvolvimento sustentável, eco-capitalismo ou eco-fascismo), pode levar a uma superação do ideal de automação plena. Este ideal é, por fim, tecnocrático, por mais que se relacione à ecologia e ao socialismo, seu caráter autoritário retorna à tona numa análise mais profunda.

Não há caminho para a emancipação humana senão emancipar-se da NECESSIDADE do trabalho alienante, ao invés de apenas sustentá-lo com o uso de outras forças da natureza. O trabalho como atividade separada da vida (atividade produtiva no sentido econômico) é inerentemente alienante, independente das relações sociais, pois não vem de uma necessidade humana, mas de valores da sociedade de classes, que agora começamos a questionar. Os produtos desse trabalho não precisam ser produzidos nem por humanos, nem por outros animais, nem por máquinas. A reestruturação da sociedade como consequência da superação da divisão de classes irá se encarregar de tornar estes produtos obsoletos, na medida em que o retorno às necessidades humanas autênticas seja também a superação da divisão entre técnica e natureza e a construção de uma sociedade sem especialistas. O fim do trabalho alienado e do trabalho alienante é equivalente à abolição do trabalho como o conhecemos, não apenas do uso de trabalho humano. Um dos resultados possíveis seria o renascimento do “faça você mesmo” como valor ético central da reprodução social, alterando os fundamentos da economia e das relações de produção.

Considerações finais

Algumas críticas relevantes à ideia de que a automação estaria condenada ao fracasso:

  1. O “faça você mesmo”, se não restrito pela coerção social, irá conduzir novamente à criação de máquinas para automatizar pelo menos parte do trabalho.
  2. O paradigma proposto é individualista, ele desconsidera que a superação do capitalismo não levará a um retorno às pequenas comunidades isoladas, mas a uma sociedade coletivista e internacionalista, com um novo nível de cooperação humana que exige uma estrutura tecnológica complexa. E esta pode ser automatizada.
  3. A separação entre técnica e natureza não pode ser desfeita, pois é um produto da evolução humana. Precisamos de mais e não menos tecnologia. A tecnologia é a ferramenta humana contra a opressão natural.

O ponto 1 pressupõe que ainda haverá vantagem comparativa e trabalho repetitivo/extenuante requerido para a reprodução social. Estou partindo do pressuposto que o trabalho pode ser abolido, no sentido de que a atividade produtiva se reintegre ao aspecto lúdico da atividade humana. Assim como o trabalho não-remunerado da “dona de casa” tem origem no patriarcado, o trabalho alienante tem origem numa estrutura de opressão. Sem essa estrutura, não há trabalho a ser automatizado, e por isso não houve sequer interesse na automação do trabalho em sociedades sem classes.

O ponto 2 pressupõe um conceito de história um tanto quanto linear, como se houvesse uma teleologia que conduz das sociedades mais individuais às mais coletivas, como se uma maior densidade populacional ou integração do espaço geográfico (graças a uma estrutura tecnológica de transporte e comunicação) implicasse necessariamente numa maior cooperação, e logo num avanço das relações humanas. O equívoco aqui é uma ideologia do progresso. Um retorno à comunidade não implica necessariamente em isolacionismo, xenofobia, nacionalismo ou individualismo. Por outro lado, a manutenção dessa estrutura tecnológica implica em trabalho especializado e perda da autonomia. As relações internacionais parecem inviáveis sem alguma forma de poder estatal ou representativo. A teoria anarquista tem uma abordagem diferente sobre essas relações, e é dela que eu parto.

O ponto 3, embora muito repetido pelo senso comum, não tem embasamento teórico ou prático. Parte de um desconhecimento das teorias da evolução humana, e tem implicações colonialistas, uma vez que nem todas as culturas humanas atuais desenvolveram esta separação (a técnica permanece misturada à magia, ao mito, ao lúdico, etc…). Embora precisemos de maior autonomia inclusive no aspecto técnico da vida humana, precisamos de menos dependência tecnológica. Até a sujeição à “natureza” é uma condição criada pela sociedade de classes.

Referências:

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

SAHLINS, Marshall. A primeira sociedade da afluência. In: Antropologia econômica, E.A. Carvalho, org. São Paulo: Editora Ciências Humanas, 1978, págs. 7-44.

TRIGUEIRO, M. G.S. Sociologia da tecnologia. São Paulo: Centauro, 2009.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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