Liberdade e sentido

tumblr_oj9of7dlSY1uno395o1_500

Uma divagação filosófica sobre o conceito de liberdade.

O que é liberdade? Esta é uma pergunta impossível de responder. Mas sobre a qual a gente não consegue parar de pensar.

Somos livres? Suponha, como um experimento mental, que a liberdade de escolha só possa existir se sua determinação sobre nosso destino for absoluta. Se não somos capazes de alterar nosso destino por meio de nossas escolhas, se somos obrigados a chegar a um mesmo ponto independente de nossa vontade, então está eliminado o sentido de todas as escolhas, e não podemos dizer que somos livres. Como jogadores de videogames podem atestar, todas as escolhas de uma narrativa ramificada perdem o sentido se não houver múltiplos finais. Se houver apenas um final possível, você perde a ilusão de que teve agência, você estava tendo uma simples ilusão de liberdade, mas suas escolhas não tiveram sentido real.

Por outro lado, se o destino é aberto, se ele não está de algum modo limitado pelas escolhas que você fez antes, essas escolhas também não tem sentido. Você perde sua ilusão de agência se não houver conexão causal entre suas escolhas e as consequências delas, se não houver historicidade ou resultados que não podem ser desfeitos. Disso depende nossa responsabilidade. Nós queremos que nosso destino seja de certo modo consequência da série de escolhas que foram feitas antes, não de uma única escolha final, porque sem o senso de responsabilidade a vida também parece absurda.

E você não quer que essas consequências sejam totalmente previsíveis, porque a escolha final perderia o sentido, você estaria só montando um quebra cabeças cuja imagem você já conhecia, seria tudo uma mera questão de cálculo. Mas também não quer que essas consequências sejam completamente imprevisíveis e aleatórias, que não sigam nenhuma lógica, porque isso destrói o fio narrativo, e consequentemente o sentido. Você quer que as coisas tenham sentido sem serem previsíveis demais, surpreendentes sem serem absurdas. Para a liberdade tenha sentido, as condições são bastante complexas.

E você não pode esperar esse tipo de lógica na vida real. Não existe alguém cuidando da verossimilhança da sua narrativa biográfica, a não ser você mesmo. Você tem que transformar esse roteiro caótico e mal escrito numa coisa que pareça racional. Uma das ferramentas para isso é a narração que você faz na sua cabeça enquanto as coisas acontecem ou enquanto se lembra do que aconteceu. É o significado que você dá para suas ações e para as consequências delas que cria um sentido para sua existência.

Se isso for verdade, porém, não temos controle real sobre nosso destino. Ele depende de uma série de fatores que não dependem da nossa vontade, virtude, inteligência ou esforço. Retornamos para o ponto inicial: a liberdade de escolha não pode existir nossa determinação sobre nosso destino for absoluta. O que é a liberdade, então, senão estar preso a algo que você mesmo escolheu? Aparentemente contraditório, mas nem tanto. A liberdade absoluta é impossível. Liberdade é sempre relativa, é sempre estar livre de ALGO, e só se pode ser livre de algo sendo escravo de outra condição. A escolha de estar com alguém impede minha liberdade de estar sozinho naquele momento.

Então talvez a questão importante a ser feita não seja “você é livre?”, e sim “do que você almeja se libertar?”.

tumblr_inline_owrghoDAQo1sqdy9g_400

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s