Votar não muda nada

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Esta pequena provocação política não pretende convencer eleitores convictos a não votar, ou explicar as razões pelas quais não vale a pena votar, mas estimular a reflexão para além do voto, especialmente entre pessoas que já são céticas quanto à democracia representativa.

Ainda há quem acredite em voto e faz campanha para políticos “menos piores”. Há muitos motivos para isso, algumas pessoas acreditam em discursos e imagens eleitorais construídas por profissionais da manipulação, outras não se deixam levar pelo discurso, mas acreditam num tipo de voto de protesto ou de contingência.

Mas a política tradicional está num beco sem saída. Para manterem-se no mercado, os políticos profissionais precisam aplicar estratégias de marketing cada vez mais ousadas. Tomemos dois casos recentes: José Mujica e Fernando Haddad. São políticos construídos para agradar aqueles que desconfiam da política tradicional. Mujica, com sua imagem de homem simples, contrário ao consumismo e aberto às demandas mais libertárias da sociedade; e Haddad, doutor em filosofia, toca guitarra, anda de bicicleta… Ambos parecem representar uma renovação da política, mas talvez representem apenas uma renovação do discurso eleitoral e da política eleitoreira.

A política profissional permanece sendo a arte de compreender quais expressões e atitudes conseguem convencer o maior número de pessoas, que em seguida renunciarão ao seu poder de autodeterminação em nome de um poder representativo. Por trás da atuação espetacular de cada político profissional existem os mesmos mecanismos de controle e de manutenção do poder. São tão convincentes que chegamos a nos esquecer do fato de que ninguém realmente “anti-sistema” poderia ocupar cargos políticos se isso realmente ameaçasse o poder vigente. Os políticos profissionais chegam a ocupar um cargo político porque negociaram com o sistema. É ingênuo pensar que uma pessoa chega a ocupar um cargo sem a permissão do poder vigente, como se o voto representasse um poder real do povo contra seus opressores.

Em tempos de “glocalismo”, o político profissional precisa projetar sua imagem para âmbitos sempre maiores do que os de sua atuação. Assim, o foco de Mujica é internacional, assim como o foco de Haddad, ainda na prefeitura de São Paulo, já era nacional. Ambos possuem uma aprovação maior fora de seus locais de atuação do que dentro deles. Eles parecem promover mudanças muito benéficas e há muito esperadas, quando o que fazem é apenas associar sua imagem a lutas sociais que já estavam ocorrendo, do qual não faziam parte, e que acabam sendo cooptadas pelos partidos que representam. Assim, a expansão da malha cicloviária em São Paulo beneficia acima de tudo a imagem que Haddad quer projetar na política nacional. O benefício que suas ações podem gerar para a população é muito menor do que parece a quem está de fora, principalmente quando estas não fazem parte de um processo maior de mudança social, mas se apresentam antes como símbolos. É uma política do espetáculo, e ela consiste em impressionar o espectador.

Mais recentemente, Trump, Doria e Bolsonaro também usaram versões diferentes dessa estratégia. Trump é o presidente mais ativo no Twitter, ele consegue manipular opiniões e noticiários com poucas palavras. Tudo que ele precisa para desviar a atenção é de uma opinião racista ou completamente absurda. O foco deste tipo de político profissional é ser odiado pela esquerda. Esta estratégia se tornou possível pela precarização da educação. A privatização da educação prepara terreno para formas mais avançadas de controle social. Estas tornam irrelevantes diversas manifestações políticas, incluindo o voto. A inutilidade do voto é apenas o começo. Sem acesso a educação, outros mecanismos democráticos também se tornam inúteis: o próprio acesso à informação, a transparência e a participação popular na aplicação de políticas públicas são exemplos básicos.

Neste cenário, a própria democracia já não parece mais possível. Suas condições sociais e culturais estão cada vez mais distantes de nossa realidade. O que não significa que deveríamos apelar para formas autoritárias de governo. Apenas que as saídas democráticas estão sendo sistematicamente fechadas. Houve um tempo, antes da democracia e do autoritarismo, onde a vida comunitária era possível. Alternativas libertárias precisam ser resgatadas ou recriadas.  Isso não é fácil, exige muito tempo, discutir estratégias paras as eleições, voto nulo ou o caráter dos candidatos não vai nos ajudar nessa tarefa.

Referência:

Da Democracia à Liberdade: a diferença entre governo e autodeterminação. Coletivo Crimethinc, 2019. Disponível em: https://crimepensar.noblogs.org/post/2017/11/04/da-democracia-a-liberdade-diferenca-entre-governo-e-autodeterminacao/

o-poder-do-meme

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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