O modo como vivemos hoje, por Morris Berman

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Tradução de uma palestra do historiador Morris Berman sobre o excepcionalismo americano.

Morris Berman é um historiador cultural e crítico social. Professor de História da Ciência, autor de uma trilogia sobre a evolução da consciência humana e de uma trilogia sobre o declínio da cultura americana. Ele mudou-se para o México em 2006. O título original da palestra a seguir é The way we live today. Ela foi dada em 2012. A tradução foi feita por Janos Biro Marques Leite e publicada com permissão do autor em 2015.

Apesar da grande pressão para se conformar nos Estados Unidos, para comemorar os EUA como o melhor sistema do mundo, a nação não tem uma falta de críticos. Nas duas últimas décadas temos visto inúmeros trabalhos que criticam a política externa dos EUA, a política doméstica dos EUA (em especial a política econômica), o sistema educacional norte-americano, o sistema judicial, os militares, os meios de comunicação, a influência das corporações sobre a vida americana, e assim por diante. A maioria é muito inteligente, e eu aprendi muito com a leitura destes estudos. Mas, na minha opinião, duas coisas em particular estão em falta, e são coisas que dificilmente aparecem aos olhos do público, em parte porque os americanos não são treinados para pensar de uma forma holística ou sintética, e em parte porque o tipo de análise que eu tenho em mente é algo que os americanos tem dificuldade de ouvir. A primeira coisa que falta nessas obras é uma integração dos diversos fatores que estão destroçando o país. Esses estudos tendem a ser sobre uma instituição específica, como se a instituição em análise existisse em uma espécie de vácuo, e pudesse realmente ser entendida separadamente de outras instituições. A segunda coisa que eu acho que falta é uma relação com a cultura em geral, com os valores e comportamentos que os americanos manifestam diariamente. Como resultado, essas críticas são, enfim, superficiais; elas realmente não vão à raiz do problema, e este evitamento permite que elas sejam otimistas, o que de fato as coloca no mainstream americano. Os autores muitas vezes concluem seus estudos com recomendações práticas de como as disfunções institucionais particulares que eles identificaram podem ser corrigidas. Eles não são, como resultado, uma grande ameaça. Geralmente é uma análise mecânica com uma solução mecânica. Se os autores percebessem que estes problemas não existem no vácuo, mas estão relacionados com todos os outros problemas e estão enraizados na natureza da cultura americana em si, no seu “DNA”, por assim dizer, o prognóstico não seria tão belo. Porque se tornaria claro que simplesmente não há uma saída; que mudar as coisas de lugar não é realmente uma opção neste momento.

Para tomar apenas dois exemplos: Michael Moore e Noam Chomsky. Eu os admiro muito, eles fizeram muito para elevar a consciência nos Estados Unidos, para mostrar que tanto a política externa e interna, como atualmente buscadas, são becos sem saída, ou pior. No entanto, ambos acreditam que o problema vem de cima, do Pentágono e das corporações. O que é verdade em parte, com certeza. O problema é que isto repousa sobre uma teoria da falsa consciência: ou seja, a crença de que essas instituições têm vendado os olhos do cidadão médio americano, que é, em última análise, racional e bem-intencionado. Por isso, a solução é a educação: tire as vendas dos olhos e os cidadãos vão espontaneamente despertar e comprometer-se a algum tipo de visão socialista, popular ou democrática. Mas e se descobrirmos que as vendas são os olhos? Que o que o assim chamado cidadão médio realmente quer, como Janis Joplin celebremente afirmou, é um Mercedes-Benz? Que ele é grato às empresas por nos fornecer oceanos de bens de consumo, e ao Pentágono, por nos proteger desses horríveis Ay-rabs [1] à espreita no Oriente Médio? Então as possibilidades de mudança fundamental parecem ser bem pequenas, pois o que seria necessário é um conjunto de instituições muito diferentes, e um tipo muito diferente de cultura. Eu acho que todos nós concordamos que não há muita chance disso acontecer. A América é, afinal, o que é.

Observando a cena crítica, então, eu encontro muito poucos escritores que veem as coisas de forma sintética, isto é, como um todo integrado, e que ainda relacionem isto com a natureza da cultura americana em si. Mas há alguns, e os títulos de seus livros os entregam: As origens puritanas do self americano, por Sacvan Bercovitch; Guerra é uma força que nos dá significado, Chris Hedges, o mito da diplomacia norte-americana, de Walter Hixson. Alguns historiadores eminentes também vêm à mente: C. Vann Woodward, por exemplo, ou William Appleman Williams, ou David Potter, ou Lears Jackson. Todos esses pensadores são radicais, no sentido de ir à raiz das coisas.

Bercovitch, um canadense que ensinou Estudos americanos durante várias décadas em Harvard, argumenta que já a partir de 1630, os colonos estavam imbuídos da ideia de que eles estavam estabelecendo uma nova nação, sob a direção específica da Providência, e reencenando o drama do Êxodo, no Antigo Testamento. Assim, na travessia do Atlântico (= Rio Jordão), eles estavam entrando no Novo Mundo (= Canaã, que emana leite e mel); rejeitando a decadência da Inglaterra e da Europa em geral (= Antigo Egito), e estabelecendo uma nova ordem, Nova Jerusalém, e que tudo isso estava de acordo com a vontade de Deus. O historiador Walter Hixson afirma que a identidade americana originalmente se uniu em torno da ideia do Outro, quem quer que fosse, como sendo selvagem, e, portanto, que a nossa identidade sempre foi baseada na guerra, nós realmente nunca negociamos nada com ninguém, como outras nações descobriram (geralmente tarde demais). O jornalista Chris Hedges amplifica essa noção, argumentando que a guerra deu aos americanos uma razão de ser, um sentido para suas vidas. Tudo isso, para mim, é muito mais sofisticado do que alguma suposta teoria da falsa consciência, uma crença de que os americanos são fundamentalmente bem-intencionados e racionais. Em vez disso, ele argumenta essencialmente que somos, e temos sido desde nossos primeiros dias, irremediavelmente neuróticos ou coisa pior, e que a crença de que podemos seguir um caminho realmente diferente nesta fase do jogo é ilusória, exigindo o que seria arrancar a psique americana de suas próprias raízes.

Em todo caso, eu gostaria de pensar que eu caio nesta última categoria de historiador, só porque eu acho que é esta versão da história americana é fiel à realidade. Há uma série de temas que poderíamos discutir neste ponto, que eu tenho examinado na minha trilogia sobre o império americano, da qual o terceiro volume, Por que a América falhou, acabou de chegar. Já que você não quer que eu fique falando por 12 ou 14 horas, deixe-me elaborar apenas uma única ideia, uma que eu apresentei na minha coleção de ensaios, Uma questão de valores, publicado no ano passado. Em um ensaio intitulado “Localizar o Inimigo”, eu peguei emprestado um conceito do filósofo alemão Hegel, o de “identidade negativa”. Por “negativa”, Hegel não quis dizer ruim, mas reativa. A identidade negativa, disse Hegel, é aquela que é formada em oposição a algo ou alguém. Ela permite que você desenvolva fronteiras muito fortes do ego, sempre avançando contra o seu inimigo, mas uma vez que é formada através de oposição, não tem conteúdo real. Como resultado, parece forte, mas na verdade é fraca, porque a sua auto-definição é inteiramente relacional. O que um senhor seria, pergunta Hegel, sem um escravo? Tire o escravo, e o senhor não teria nada pelo que se definir.

O que defendo é que este conceito de identidade negativa aplica-se particularmente bem à América, à história do continente americano. A oposição, sob qualquer forma, proveu os colonos com uma narrativa orientadora que lhes permitiu dar sentido às suas vidas. E já que, como facilmente demonstra Bercovitch, esta foi uma narrativa religiosa, não demorou muito para transformá-la num maniqueísmo, em que o inimigo, fosse quem fosse, era o mais sombrio dos sombrios. O alvo deste ódio hipócrita se metamorfoseou ao longo do tempo, mas a forma, que é a oposição maniqueísta, manteve-se a mesma. Assim, os nativos americanos foram rapidamente vistos como pouco mais do que selvagens, um obstáculo para a “civilização”, e tratados como tal. Assim, em cada Ação de Graças, os americanos se sentam, comem um peru, e comemoram o genocídio e a quase extinção de todo um povo indígena. O próximo alvo foi o britânico, que surgiu na Revolução Americana, embora este já estivesse presente quando os peregrinos partiram para a América, desde 1620. A Grã-Bretanha estava decadente e corrupta, na visão dos colonos, hierárquica e orgânica, enquanto nós, cidadãos do futuro Estados Unidos, éramos essencialmente não-britânicos, não-europeus, mas republicanos, ou seja, antimonárquicos. O terror e a brutalidade que caíram sobre os legalistas, os norte-americanos que não seguiram essa agenda simplista em preto-e-branco, quase nunca é discutido nos livros de história americana, mas foi registrada, apesar de tudo: a intimidação constante, humilhação [2], confisca ou queima de propriedade, sendo expulsos de suas casas, e muitas vezes assassinados como “traidores”. (Veja, por exemplo, o recente estudo da Maya Jasanoff, Exilados da liberdade. Há muito poucos livros americanos nesse gênero, porque violam o mito da inocência americana, de ideais nobres).

Movendo-nos adiante, chegamos à oposição com o México, que envolveu provocar uma guerra falsa e depois roubar mais da metade do país. Como no caso dos índios americanos, era conveniente considerar o povo mexicano como ignorante e pouco desenvolvido, “selvagens” de algum tipo, sem a energia empreendedora do capitalismo dos EUA, um infeliz estereótipo que persiste em certo ponto até os dias de hoje. Como os nativos americanos, os mexicanos eram vistos como estando no caminho do “progresso”, do Destino Manifesto americano (mais uma vez, ordenado por Deus). Na verdade, o governo mexicano estava bem ciente sobre com quem estava lidando. No final de 1820, uma comissão mexicana escreveu que os americanos eram um “povo ambicioso sempre pronto para invadir seus vizinhos, sem uma centelha de boa fé”. Como Robert Kagan escreve em Dangerous Nation, praticamente todos viam os EUA desta forma, incluindo o espanhol, o francês, os russos e os britânicos. Diplomatas franceses chamaram a população americana de “guerreira” e “agitada”.

Pouco depois, a mesma estrutura que tinha sido usada para caracterizar os nativos americanos e mexicanos foi aplicada pelo Norte para o Sul-Americano: uma preguiçosa sociedade sentada no caminho do progresso. Como eu discuto em Por que a América falhou, não foi a oposição do Norte à escravidão que desencadeou a Guerra Civil, embora, mais tarde, isso veio a desempenhar um papel importante como um tema unificador, um grito de guerra. Eu não estou, é claro, justificando a escravidão, e poderia muito bem ser argumentado que sem a Guerra a escravidão teria continuado por várias décadas, embora alguns historiadores discordem dessa avaliação. Mas o conflito mais fundamental foi um choque de culturas, a maneira lenta e calma do Sul, em oposição à inquieta expansão econômica do Norte. Ambos os lados considerando o outro como o diabo encarnado, o resultado foi a perda de 625 mil vidas e uma destruição maciça do Sul, sintetizado pela marcha de Sherman até o mar, que foi inacreditavelmente violenta. Essas cicatrizes ainda existem, é claro. Para o Sul, a guerra nunca acabou realmente, e o ressentimento é muito profundo.

Os alemães foram os próximos, embora esta oposição pareça perfeitamente justificada, e depois vieram os comunistas “sem deus”. A conversão dos russos de aliados para inimigos ocorreu quase do dia para a noite, e não é difícil perceber por que: com os alemães fora do jogo, tinha de haver um inimigo no seu lugar para preencher o vácuo resultante. E, embora a URSS fosse repressiva ao extremo, ela não teve, como o diplomata americano George Kennan argumentou atrasadamente, que ser tratada como o inimigo final, porque o seu objetivo real estava em garantir suas próprias fronteiras. Arquivos da KGB que foram abertos após a queda da União Soviética revelaram que o medo real da Rússia não era dos Estados Unidos, mas de uma Alemanha rearmada. Mas não houve nenhuma tentativa de negociar coisa alguma com a Rússia, como Stalin apontou já em 1946: para os americanos, “negociação” na verdade queria dizer “capitulação”. Em qualquer caso, a Guerra Fria manteve os EUA ocupados por décadas, e assim, o chamado ‘perímetro de defesa’, que sustentava que qualquer perturbação no mundo era motivo para ação militar dos EUA, levou aos desastres do Irã, Guatemala, Vietnã, Chile, e assim por diante.

Naturalmente, a estrutura psicológica da identidade negativa levou a uma crise quando a União Soviética entrou em colapso: de repente, não tínhamos ninguém contra quem nos definir. A Guerra do Golfo de 1991 ajudou a preencher a lacuna, por um tempo, mas os anos de Clinton foram em grande parte sem sentido: sem um inimigo, não tínhamos ideia de quem éramos, e enchemos o espaço com O.J. Simpson e Monica Lewinsky. Finalmente, o mundo islâmico nos fez o maior favor imaginável: ele nos atacou. Da noite para o dia, o terrorismo substituiu o comunismo como o chavão crucial, e Bush Jr., como Reagan na caracterização da União Soviética, não hesitou em ver a disputa como uma guerra cósmica entre o bem e o mal. Não houve discussão possível sobre a política externa americana no Oriente Médio como tendo desempenhado um papel nestes eventos; tal sugestão era equivalente à traição. Não, os nossos inimigos eram maus ou insanos, ou de preferência ambos, e fim da história. Até o dia de hoje, sob a administração Obama, o dinheiro dos impostos americanos pagam oficinas para ensinar a polícia e os militares que o Islã é uma religião do mal, que quer destruir a América, e que deve, portanto, ser destruída em primeiro lugar. (Chris Hedges postou um artigo em truthdig sobre isso em 9 de maio de 2011, descrevendo a natureza desses programas em detalhes). Mais uma vez, é a civilização contra os selvagens.

George Kennan tentou advertir o governo norte-americano que fazer um monólito do comunismo foi um engano grosseiro, e que havia grandes conflitos entre a Rússia e a China, por exemplo. Mas como o maniqueísmo requer figuras de papelão, os presidentes americanos desde Truman não prestaram atenção no seu conselho. Algo semelhante agora existe em relação ao Islã. Acontece que apenas cerca de 10% dos muçulmanos americanos são realmente religiosos, pois para a maioria deles o Islã é mais uma coisa social do que qualquer outra coisa, e mesmo assim, muito poucos muçulmanos religiosos são jihadistas. Mas quando a sua identidade é negativa, no sentido hegeliano, este tipo de nuance tem de ser mantida fora de sua consciência. Por exemplo, os americanos tendem a considerar o Paquistão como um lugar sombrio e terrível, como o país que escondia Osama bin Laden das tropas americanas, ou que abriga a Al-Qaeda (daí os ataques por aviões não tripulados no país, que em sua maioria mata civis), ou que está em conluio com os talibãs. O que os americanos diriam se lessem nos jornais, como eu fiz em junho passado no Guardian de Londres, que um programa de TV muito popular no Paquistão é o de um comediante estilo Jon Stewart, que ridiculariza o governo e exibe canções como “Burka Woman”, que ridiculariza o fundamentalismo muçulmano? (A música é baseada em “Pretty Woman” de Roy Orbison, e diz: “Burka Woman / Andando pela rua / Burka Woman / Com seus pés sensuais…”). É claro, nada disso foi pego pela imprensa americana, porque enfraqueceria a nossa capacidade de pintar o inimigo totalmente de preto, o que potencialmente levaria a um abrandamento das fronteiras do nosso ego, e a um questionamento posterior de quem nós somos, além de uma nação em oposição a algo, e isso francamente nos assusta, porque, então, o jogo acabaria.

Marshall McLuhan, o teórico da comunicação canadense, uma vez afirmou: “Todas as formas de violência são buscas por identidade”. Mais recentemente, David Shulman, que é professor de humanidades na Universidade Hebraica de Jerusalém, escreveu: “Não há nada mais precioso do que um inimigo, especialmente um que você tenha em grande parte criado por seus próprios atos e que desempenha um papel necessário no drama interior de sua alma”. O que é a alma americana? Será que sequer temos uma? O que, além da oposição, a define? Este vazio no centro torna a nossa busca por identidade especialmente aguda, e, portanto, a nossa política especialmente violenta. A política é sempre de destruição, parece-me, ou de “choque e pavor”. Na plenitude do tempo, nós é que provamos sermos os selvagens, e tudo isso sem muita consciência ou reflexão. É interessante que o tema dos romances de Paul Auster é que a sociedade americana é incoerente, que carece de uma verdadeira identidade e não é nada mais do que uma sala de espelhos. Ele está dizendo isso a décadas, e em geral, os americanos não sabem quem é Paul Auster e não o leem. Por outro lado, Auster é tremendamente popular na Europa, e foi traduzido para mais de 20 idiomas, e edições estrangeiras constituem a maior parte de suas vendas.

A crítica não é possível em um mundo maniqueísta, é claro, e os EUA são muito bons em marginalizar escritores que tentam criticar o país de uma maneira fundamental. Os americanos não estão interessados, de modo algum, em tais coisas, e é por isso que a censura explícita é realmente desnecessária nos EUA. Mas o resultado é que, como na famosa pintura de Goya, Saturno devorando seu filho, os EUA estão agora a implodir, comendo-se vivos. Argumentei isto mais recentemente, em 2006, em Dark Ages America, e os dados comprobatórios que se acumularam desde então são enormes. Não há uma única instituição americana que não esteja seriamente corrompida, e eu poderia ficar aqui por várias horas documentando isso. Em vez disso, deixe-me apenas citar alguns exemplos:

1. Ronald Dworkin, um dos principais intelectuais da América, fez um ensaio há alguns meses na New York Review of Books, mostrando que a Suprema Corte tornou-se um tribunal de homens, não de leis. No caso de 5 entre 9 julgamentos, ele ressalta, as decisões são normalmente feitas com antecedência, em uma direção política de direita, e então a justificação das decisões é colocada para fora após o fato, ainda que muitas vezes viole a Constituição.

2. Em Academically Adrift, os sociólogos Richard Arum e Josipa Roksa relatam que, após dois anos de faculdade, 45% dos estudantes americanos não aprenderam nada, e depois de quatro anos, 36% não aprenderam nada. A maioria dos estudantes define a faculdade como uma experiência social, não acadêmica. Metade dos alunos no seu estudo disse que não tinha tido uma única disciplina no semestre anterior que exigisse mais de 20 páginas de leitura, e um terço disse que não tinha feito nenhuma disciplina que exigisse mais de 40 páginas de leitura. Uma pesquisa lançada em 04 de julho de 2011 mostrou que 42% dos adultos americanos não estão cientes de que os EUA declararam sua independência em 1776, e este número aumenta para 69% para a faixa etária de menores de 30 anos. 25% dos americanos não sabem de que país os Estados Unidos se separaram. Uma pesquisa recente da revistaNewsweek revelou que 73% dos americanos não conseguem dar a versão oficial de por que lutamos na Guerra Fria, e 44% são incapazes de definir a Bill of Rights. Uma pesquisa realizada no sistema de ensino público de Oklahoma trouxe à tona o fato de que 77% dos alunos não sabiam quem foi George Washington. Em várias cidades, as bibliotecas foram fechadas por falta de financiamento e, provavelmente, de interesse também. Em janeiro passado, uma séria candidata presidencial elogiou os Pais Fundadores por “trabalhar incansavelmente” para abolir a escravidão, quando, na verdade, esses fundadores concordaram que uma pessoa negra legalmente constituía 60% de um ser humano, e consagraram a escravidão na Constituição. Ela também afirmou que o governo dos EUA foi conivente com os chineses ao abolir o dólar. Esta pessoa, Michele Bachmann, que é essencialmente uma idiota, tem uma enorme liderança política; milhões de americanos a consideram como material presidencial.

3. No rescaldo do crash de 2008, as mesmas pessoas que promulgaram a ideologia que levou ao crash foram nomeadas como assessores econômicos do presidente: Lawrence Summers, Timothy Geithner e Ben Bernanke. Nem um único líder financeiro de Wall Street enfrentou a prisão. De fato, as principais figuras corporativas que levaram a economia para baixo foram premiadas com bônus enormes; alguns protegidos encontros em lugares prestigiados como a Universidade Johns Hopkins e o Instituto Brookings. Enquanto isso, as próprias práticas que levaram ao acidente, tais como derivativos, permuta de crédito e similares, agora estão sendo buscados com ainda mais vigor do que eram antes do crash. O Nobel em economia Paul Krugman pergunta, um tanto retoricamente, como é que, na esteira do óbvio fracasso do capitalismo de casino e do neoliberalismo, a culpa pelo crash não é dos bancos (que receberam socorro de cerca de US $ 19 trilhões) e das corporações, mas do setor público?

4. Entre 1987 e 2007, o número de norte-americanos inválidos por causa de transtornos mentais que se qualificam para a renda de seguridade suplementar ou o seguro de invalidez da segurança social aumentou 2,5 vezes, de modo que 1 de cada 76 americanos agora pertence a esta categoria. Um de cada setenta de seis. Para as crianças, o aumento é de 35 vezes durante o mesmo período de tempo, e a doença mental é hoje a principal causa de incapacidade entre esta população. Uma pesquisa com adultos americanos, realizada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, 2001-3, descobriu que 46% deles preenchiam os critérios da Associação Americana de Psiquiatria por serem doentes em algum momento de suas vidas. Dez por cento dos americanos com mais de seis anos de idade agora tomam antidepressivos, e eu li em algum lugar que, em termos de mercado global (ou seja, em dólares, em vendas), o consumo americano dessas drogas equivale a 2/3 de todo o mundo inteiro, para um país que tem menos de 5% da população planetária.

(Algum tempo atrás eu vi uma pequena placa satírica que tinha o título: “às 7 da noite no Salão Paroquial”. Depois seguia assim, segunda-feira: Alcoólicos; terça-feira: esposas abusadas; quarta-feira: transtornos alimentares; quinta-feira: toxicodependência; sexta-feira: suicídio adolescente, sábado: sopa e, finalmente, sermão do domingo, às 9:00: “O Futuro Gozoso da América”.)

5. A infraestrutura nos Estados Unidos está desmoronando, e não há dinheiro para consertá-la. Há também, em alguns casos, a oposição ideológica a consertá-lo. Os diques de Nova Orleans estão da mesma forma agora do que eles eram antes do Katrina. Eu li um artigo há algum tempo sobre a tentativa de resolver isto, a nível estadual ou municipal, não me lembro, e os vereadores afirmaram que não queriam seguir em frente, porque seria necessário um esforço de cooperação, e isso, segundo eles, significava o socialismo. Então, aparentemente, trabalho em equipe é equivalente ao socialismo, e é melhor correr o risco de ter outro Katrina do que isso.

6. A dívida nacional está agora em mais de US $ 14 trilhões, e o número oficial da pobreza e da fome é de 45 milhões de cidadãos. Isso com base em critérios que são bastante obsoletos. Quase 20% dos adultos americanos estão fora do trabalho, e com poucas perspectivas de emprego, os economistas dizem-nos, para os próximos dez anos.

7. O presidente agora tem o direito, ainda que viole os Acordos de Genebra, de designar qualquer cidadão americano, e na verdade qualquer um no planeta, como inimigo, e ordenar que ele ou ela seja assassinado. Mas não para por aí. Em um ensaio intitulado “Os desaparecidos da América”, enviada ao truthdig em 18 de julho de 2011, Chris Hedges escreve:

“A tortura, detenção prolongada sem julgamento, humilhação sexual, estupro, desaparecimento, extorsão, pilhagem, assassinato aleatório e abuso tornaram-se, como na Argentina durante a Guerra Suja, uma parte do nosso próprio mundo subterrâneo de locais de detenção e centros de tortura… Nós sabemos de pelo menos 100 presos que morreram durante os interrogatórios em nossos ‘locais sombrios’… Há provavelmente muitos, muitos mais cujo destino nunca foi tornado público. Dezenas de milhares de homens muçulmanos passaram por nossos centros de detenção clandestinos sem o devido processo. ‘Nós torturamos pessoas sem piedade’, admitiu o general aposentado Barry McCaffrey. ‘Nós provavelmente assassinamos dezenas deles… tanto as forças armadas quanto CIA’. Dezenas de milhares de norte-americanos estão sendo mantidos em prisões de segurança máxima, onde são privados do contato e psicologicamente destruídos. Trabalhadores sem documentos são levados e desaparecem de suas famílias por semanas ou meses. [Na verdade, nos dois anos após o discurso de Obama pedindo a reforma da imigração, o governo dos EUA deportou um milhão de imigrantes]. Unidades de polícia militarizada quebram as portas de cerca de 40.000 americanos por ano para transportá-los na calada da noite, como se eles fossem combatentes inimigos. Habeas corpus não existe mais”.

8. O exército dos EUA, que absorve 50% do orçamento discricionário, é aparentemente incapaz de vencer duas guerras em dois pequenos países. Na verdade, ele não teve uma vitória real desde a Segunda Guerra Mundial, após o que decidiu cutucar ditadores vira-latas e nações menores.

9. Um relatório de inteligência dos EUA lançado em 2008, “Tendências Globais 2025”, prevê um declínio constante no domínio americano nas próximas décadas, com a liderança dos EUA corroendo “a um ritmo acelerado”, nas “arenas políticas, econômicas e, possivelmente, culturais”. Que eu saiba, o presidente nunca mencionou este relatório, nem ninguém trabalhando no governo.

10. Em 19 de Julho de 2010, o Washington Post informou que a Agência de Segurança Nacional (NSA) tem escritórios em 33 complexos de edifícios chegando a 1,5 milhões de metros quadrados de espaço, na capital e na área suburbana. Todos os dias, sistemas de coleta na NSA interceptam e armazenam 1,7 bilhões de e-mails e telefonemas de cidadãos americanos, o que equivale a um grande sistema de espionagem doméstica. Escrevendo na revista The New Yorker em 23 de maio de 2011, Jane Mayer informou que a NSA tem três vezes o orçamento da CIA, e tem a capacidade de baixar, a cada 6 horas, as comunicações eletrônicas equivalentes a todo o conteúdo da Biblioteca do Congresso. Eles também desenvolveram um programa chamado Thin Thread, que permite que computadores examinem o material em busca de palavras-chave, e eles coletam os registros de contas e os números de telefone que foram discados por todos no país. Em violação às leis de comunicação, ATT, Verizon e BellSouth abriram seus registros eletrônicos para o governo. No auge de sua insanidade, a Stasi na Alemanha Oriental estava espionando 1 de cada 7 cidadãos. Os EUA agora estão espionando 7 de cada 7.

11. Agora você pode ir para a cadeia nos Estados Unidos simplesmente por falar. No final de julho deste ano, a ativista ambiental Tim DeChristopher foi condenado a dois anos de prisão por sua declaração repetida de que a proteção ambiental exigia desobediência civil, ou seja, não violenta. Imagino se o mesmo juiz, Dee Benson, também teria colocado Rosa Parks e Mahatma Gandhi na cadeia, se estivesse por ali.

12. Finalmente, o meu favorito, que também ocorreu em julho de 2011. É um pequeno incidente, mas de alguma forma é o símbolo do que aconteceu com a América durante os últimos 60 anos. A polícia da Geórgia fechou uma barraquinha de limonada de três meninas, com idades entre 10-14, que estavam tentando economizar para uma viagem a um parque aquático local. A polícia disse que elas não sabiam o que tinha na limonada, e, além disso, que as meninas precisavam de uma licença de negócio, uma licença de vendedor ambulante, e uma autorização de alimentos, a fim de manter o negócio. As licenças, por sinal, custam US$ 50 por dia ou US$ 180 por ano.

Eu vou parar com 12 exemplos, mas como eu disse, nós poderíamos ficar aqui a noite toda com esse tipo de dados.

Apesar de não entrar na questão da identidade negativa por si só, o escritor francês Denis Duclos, que é diretor de um prestigiado instituto de pesquisa em Paris, o CNRS, relacionou o problema da obsessão em ter um inimigo, e da violência que resulta disso, em seu livro de 1994, Le complexe du loup-garou, o complexo de lobisomem. Em seu epílogo da edição de 2005, ele escreve que a América sempre dependeu de uma figura como o lobisomem, uma sombria besta selvagem que supostamente quer destruí-la. A besta muda de conteúdo, ele diz, mas a forma é sempre a mesma. No centro disso há o medo terrível que os americanos têm do vazio, que é uma ansiedade de não existir, e que disfarçam com um otimismo hiperativo. Uma sociedade curiosa, ele escreve; um povo que realmente não sabe quem eles são. Tal como os romanos, eles sempre se veem sob o cerco, o que poderia desencadear num populismo fascista. “O medo americano do monstro sempre marcou sua história, seja este existindo no interior ou no exterior. Isto leva a isolar o país em uma espécie de psicose coletiva que só pode contribuir para a instabilidade internacional”.

Que é como a maior parte do mundo nos vê, é claro: uma pesquisa internacional de alguns anos atrás, que fez a pergunta: qual nação você acha que é a maior ameaça à paz mundial, resultou na nomeação dos Estados Unidos como de longe o candidato óbvio. Escrevendo na revista Der Spiegel em agosto passado, Jakob Augstein argumenta que os EUA são basicamente um estado falido, realmente não são mais parte do Ocidente, e que a Europa necessita se proteger, e manter distância do que é uma cultura política muito diferente, e aparentemente insana. Sua evidência para esta afirmação, e para a desintegração social dos Estados Unidos, é tristemente familiar. “Não há”, ele conclui, “libertação à vista.”

Algum tempo atrás eu recebi um e-mail de um fã que escreveu: “Acabei de ler The Twilight of American Culture e Dark Ages America. Quero agradecer a você por seus livros brilhantes e sem sentido. Achei este comentário bastante divertido, porque é claro, o cara estava certo: Os livros são inúteis pois eles não têm capacidade de mudar coisa alguma. O que significa saúde mental em um caso individual? Pelo menos isto: que a pessoa conheça sua narrativa pessoal, seja capaz de vê-la de fora, como realmente é, e como resultado dessa transparência, compromete-se a fazer algo diferente. Talvez o mesmo seja verdade de uma nação, ou de uma civilização, eu não sei. Mas o que eu sei é que há muito pouca compreensão, nos Estados Unidos, sobre qual é a narrativa subjacente, ou mesmo se  uma narrativa subjacente. Há também muito pouco interesse em pensar sobre a identidade nacional, ou a falta da mesma, de modo mais do que superficial, tal como é provido, por exemplo, pelo New York Times. Em tal situação, a mudança simplesmente não é possível, as chances de que vamos continuar neste caminho inconsciente são esmagadoras. Nesse sentido, meu trabalho é realmente inútil. Como escritor e crítico social, eu não posso impedir o avião de cair, ninguém pode. Eu sou um pouco como o engenheiro que examina os destroços, localiza a caixa preta, a desmonta, e escreve o relatório, o post mortem. E isso, creio eu, tem algum pequeno valor. Pois nós finalmente precisamos saber Por que a América falhou.

Notas:

[1] NT: Forma pejorativa de se referir aos árabes.

[2] NT: No original, “tarring and feathering”, que se refere a uma prática usada como punição não oficializada em que se derramava piche seguido de penas sobre uma pessoa.

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Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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