A produção técnica da superfluidade

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Um ensaio sobre exclusão social no contexto da sociedade tecnocentrada.

O perigo das fábricas de cadáveres e dos poços do esquecimento é que hoje, com o aumento universal das populações e dos desterrados, grandes massas de pessoas constantemente se tornam supérfluas se continuamos a pensar em nosso mundo em termos utilitários. Os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de toda parte conspiram silenciosamente com os instrumentos totalitários inventados para tornar os homens supérfluos (ARENDT, 1989, p. 510).

Pessoas supérfluas são aquelas cuja ausência passa despercebida e a presença se torna um incômodo. Ao invés de representar um problema de reorganização do espaço, tanto físico quanto social, a própria existência dessas pessoas se torna um problema num mundo que se encontra lotado, pois o que elas poderiam produzir não compensa o custo de integrá-las plenamente à sociedade.

Pessoas sem lugar no mundo são uma das consequências sociais da deterioração da comunidade, quando o indivíduo se encontra de tal modo alienado do mundo social que não mais pertence a ele. Os seres humanos supérfluos seriam os indesejáveis, tanto por serem inassimiláveis pelo mercado de trabalho quanto por serem um incômodo para a manutenção da ordem social. A produção de pessoas desnecessárias ou inutilizáveis segue-se “invariavelmente a cada período de crescimento industrial”, pois o crescimento vem sempre acompanhado de crise, e cada uma das crises elimina permanentemente uma parcela de pessoas da sociedade produtiva.

No século XIX, a solução para o aumento de uma população permanentemente ociosa era a exportação do problema: a imigração forçada, a marginalização, a transferência para colônias de povoamento. A transferência de pessoas supérfluas para regiões onde poderiam ser produtivos foi viável somente até certo ponto da história. Num mundo lotado, essas pessoas deixam de ser mero exército de reserva, não estão temporariamente desempregadas nem aguardando por uma situação econômica mais favorável. São refugiados econômicos, sem lugar para ficar. Recuperar e reinserir essas pessoas no mercado seria um desperdício de recursos, pois as vagas mal podem suprir a todos os já estabelecidos. Logo, supérfluos são considerados como um problema econômico e social, não como força de trabalho em potencial. Garantir direitos universais deixa de ser economicamente viável.

O prolongamento de suas vidas é devido à caridade e não ao direito, pois não existe lei que possa forçar as nações a alimentá-los; a sua liberdade de movimentos, se a têm, não lhes dá nenhum direito de residência, do qual até o criminoso encarcerado desfruta naturalmente; e a sua liberdade de opinião é uma liberdade fútil, pois nada do que pensam tem qualquer importância (ARENDT, 1989, p. 330).

A própria existência dessas pessoas é criminalizada, pois recebem um tratamento punitivo independente do que façam, pelo simples fato de ser quem são. A superfluidade é afirmada com o encarceramento em massa, genocídio e marginalização de populações. O que pode parecer sem sentido aos nossos olhos (que pessoas sejam consideradas inúteis e sem valor, que o mundo seria melhor sem a presença dessas pessoas, que seria melhor se elas simplesmente desaparecessem) é uma conclusão lógica de um cálculo utilitário. A civilização valorizou a vida humana enquanto era útil como mão-de-obra. Com o avanço tecnológico, porém, as pessoas tendem a se tornar efetivamente e definitivamente desnecessárias.

O discurso de ódio, a repressão, a opressão sistêmica e a eliminação por qualquer meio ganham assim um novo sentido político. Não mais o de afastar e controlar os indesejados, forçando a obediência, mas o de eliminá-los permanentemente. O crescimento populacional, a industrialização, a urbanização, a concentração da população em grandes centros, a inviabilização da vida no campo, a marginalização de populações em favelas, o latifúndio, a especulação imobiliária, são todos fatores para a superfluidade humana. A economia de massas cria as condições para a superfluidade, e a política de massas é o único meio para lidar com o refluxo da economia.

A perda do valor da vida humana não pode ser evitada nesse processo. Ela é um efeito do desenvolvimento técnico e econômico, uma vez que a superfluidade se segue necessariamente da perda de responsabilidade social ou partilhada. Quando a crise econômica atinge os ricos, eles não assumem responsabilidade pela condição dos demais indivíduos.

O advento da automação, a produção de bens por máquinas autônomas, sem necessidade de trabalho humano, parece inevitável com o desenvolvimento da civilização. Mais do que isso, parece ser o próprio objetivo de todo processo, algo antevisto e desejado desde a antiguidade. Há uma relação entre as tecnologias de automação, a bomba atômica e os campos de extermínio. Elas afirmam radicalmente a superfluidade humana. A máquina executa seu trabalho acriticamente, tal como se espera de um empregado eficiente. As máquinas estão cada vez mais inteligentes, mas nelas há uma absoluta ausência de reflexão sobre o sentido de seu trabalho.

A automação permite a transferência de responsabilidade humana para o sistema. Como compreender nossa responsabilidade num sistema em que somos apenas componentes sem poder de determinação? Componentes que precisam se adaptar ao sistema e elevar constantemente sua eficiência e produtividade para não serem substituídos? Se o homem que pensa como uma máquina é um perigo, o que esperar das máquinas que substituem pessoas, isto é, de forças que não refletem sobre o que fazem, e da qual dependemos para manter o modo de vida civilizado?

A produção de superfluidade faz parte de um processo de transformação de pessoas em “cadáveres vivos”. A perda do pertencimento a uma comunidade, do mundo comum, leva à impotência ou irrelevância da ação. A superfluidade desumaniza porque transforma a existência de pessoas num problema técnico e científico. Um erro a ser eliminado para que o sistema funcione normalmente.

O desenraizamento às vezes é confundido com um retorno ao nomadismo, ao lúdico, ao estético, como uma crítica ao capitalismo de consumo e até ao individualismo. Pois o que restava de comunidade está ligado à tradição, que hoje se manifesta como intolerância à diversidade. Desligar-se dessa comunidade significa desligar-se da tradição, da razão, da natureza, do trabalho, do sacrifício, da verdade e do acúmulo de bens e de poder. Esse indivíduo livre das opressões da vida comum encontra nas grandes metrópoles a possibilidade de fazer o que quiser sem ter que responder a ninguém, contanto que pague suas contas. A multidão substitui a comunidade tradicional. Nela podemos colher os benefícios do processo civilizador sem assumir responsabilidade real pelos que foram, são e serão massacrados por esse mesmo processo. Resta apenas a caridade, que mantém a estrutura de poder.

Como poderíamos assumir responsabilidade pelo processo civilizador se a escravidão, a destruição de povos nativos, a submissão das mulheres e a extinção em massa sem precedentes são partes intrínsecas deste processo? Como assumir responsabilidade por tamanho sofrimento sugerindo apenas uma reorganização da sociedade de massas? Confiando que o mesmo processo irá produzir condições de vida igualitárias? As consequências deletérias da civilização superam qualquer benefício atual ou potencial que esta possa produzir. Isso independe do que a tecnologia pode fazer em favor dos deficientes, dos doentes, dos trabalhadores, das crianças, dos idosos, das mulheres e de todas as minorias. Assim como nenhum avanço médico poderia justificar o holocausto judaico, nenhum avanço em qualquer área pode justificar o tipo de opressão que foi necessário para o estabelecimento de um modo de vida com este avanço técnico.

Esses avanços beneficiam apenas pequenos grupos privilegiados dentro da sociedade. Não há qualquer viabilidade para uma “globalização do bem” ou possibilidade de manter um modo de vida urbano sem o atual sistema técnico. Não é possível reproduzir a qualidade de vida de uma cidade europeia, onde a pobreza foi praticamente eliminada, em todas as partes do mundo, porque nenhuma cidade é autossustentável. Os recursos que a mantém vem de lugares sendo drenados até o osso. Essa drenagem pode ser justificada com caridade e intervenção política.

Qualquer ética que ainda procurar valorizar a responsabilidade humana se encontrará em oposição ao processo civilizatório. Se a civilização produz necessariamente a superfluidade humana, ou aceitamos pragmaticamente sua inevitabilidade e todas as consequências éticas disso, ou rejeitamos fundamentalmente a civilização.

Referências

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

____________. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

____________. Responsabilidade e julgamento. Trad. R. Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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