Pragmatismo e mundo-próprio

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Um ensaio sobre pragmatismo e o conceito de mundo-próprio.

Antes de ler, um aviso: Este é um texto antigo, escrito durante minha graduação em filosofia (mais ou menos em 2005), exige certo conhecimento da área e pode estar bastante equivocado. Obrigado.

Segundo Peirce (1980), o pragmatismo é uma teoria em que o significado de algo é atribuído pelo conjunto de disposições de ação que tal coisa produz no sujeito. As disposições de ação são geradas na experiência, dentro de um mundo de ação. Sendo o mundo de ação mutável, os significados também serão mutáveis. O pragmatismo afirma a subjetivação dos significados. É a experiência pessoal que dá significado às coisas. Para entender o pragmatismo é preciso entender a semiótica. A semiótica estuda a relação entre o objeto, o interpretante e o símbolo. Para o pragmatismo, os significados só existem em relação a um mundo de ação subjetivo. Diferente do conceito de práxis, o pragmatismo não é teleológico. O valor da ação se refere unicamente a sua funcionalidade, seja esta ação planejada ou não. Tudo que é válido para o pragmatismo é aquilo que é válido dentro do campo de significação do sujeito interpretante.

A teoria do mundo-próprio de Von Uexküll (1982) pode ser entendida como uma teoria da subjetividade aplicada à biologia dos organismos. Uexküll afirmou que os organismos têm campos de significação; possuem subjetividade e recortam a realidade de formas diferentes. Eles assinalam significados às coisas de acordo com as ações funcionais possíveis de serem realizadas sobre cada uma delas. Ou seja, eles criam símbolos a partir dos objetos interpretados dentro do seu mundo-próprio. Suponha um organismo que só tenha duas formas de ação possíveis: perseguir e fugir. Este organismo perceberia o mundo unicamente em termos dessas duas ações possíveis, de forma que podemos afirmar que ele dividiria o mundo em apenas dois significados. A teoria de Von Uexküll se opõe ao mecanicismo, segundo o qual todos os seres reagem a uma situação por uma determinação imutável e externa. Podemos dizer que para Von Uexküll, todos os organismos vivos possuem intencionalidade, pois agem de acordo com seus próprios campos de significação.

Do ponto de vista pragmático, uma ação é intencional quando parte de uma experiência subjetiva e fenomenológica. Von Uexküll aceitava a existência de propriedades emergentes qualitativas e subjetivas nos organismos vivos, e por isso atribuía uma intencionalidade ou capacidade cognitiva a eles. Tanto o pragmatismo quanto a teoria do mundo-próprio consideram o sentido prático de algo como indispensável para a atribuição de valores, inclusive valores de verdade. Podemos dizer que a capacidade de percepção e distinção de valores de verdade de um organismo depende de sua estrutura: todo ser vivo possui um sistema receptor de estímulos e um sistema motor que reage aos estímulos. O sistema receptor e o sistema motor são elos do ciclo funcional do ser vivo. Seres vivos seriam capazes de construir sua própria autonomia, de dentro para fora. Von Uexküll também falou de uma energia vital existente nos seres vivos, de onde brota a capacidade de gerar sua própria autonomia.

Segundo Von Uexküll, cada espécie vive num mundo-próprio distinto. Os seres humanos são capazes de se comunicar sem que os significados das coisas existam por si sós, no mundo exterior, pois apesar de serem gerados subjetivamente, são gerados dentro do mesmo mundo-próprio, e por isso assinalam significados de formas semelhantes. Em outras palavras, é a estrutura biológica que cria o campo de significação, onde os valores são assinalados. Nós podemos nos comunicar objetivamente sobre algo porque o mundo subjetivo é semelhante, por ser resultado de uma estrutura biológica semelhante, e isso nos leva a deduzir que existe um mundo físico que é objetivamente o mesmo para todos, apenas percebido de modos diferentes.

Um estímulo não é somente um componente mecânico na cadeia causal que leva à ação do sujeito, mas um símbolo construído pela estrutura do próprio sujeito ou organismo. Isto condiciona a subjetividade ao campo de atuação gerado pela estrutura biológica, ainda que a estrutura biológica não determine a ação. O sujeito é livre para escolher entre as opções dadas pela sua estrutura.

William James (1974) negava que a verdade dependia de uma relação permanente de correspondência do símbolo com a realidade. Também negava que pudesse haver uma mente infinita que compreendesse todos os pontos de vista. Segundo James, a variação de valores dentro de um mundo de ação depende de sua funcionalidade e não da sua relação com a realidade. Algo pode ser considerado verdadeiro se isso for, em primeiro lugar, útil. Richard Rorty (1995) adiciona que buscar a verdade é buscar o conjunto mais significativo dos usos da palavra “verdadeiro”. Ou seja, dizer que algo é verdadeiro é dizer que é útil que algo seja considerado verdadeiro. O critério de verdade é dependente do critério de utilidade, e este por sua vez não pode ser julgado por nenhum critério de verdade.

A dificuldade é a ausência de critério para distinguir entre utilidade e conveniência. Quine (1969) tentou unir a filosofia analítica ao pragmatismo. Em seu exemplo sobre a tradução radical, Quine apresenta uma teoria da indeterminação da tradução. Quando alguém usa palavras que não conhecemos, não basta observar seus comportamentos com base nos nossos valores, pois os valores da pessoa podem ser diferentes. Se o interlocutor compartilha do mesmo mundo-próprio, é possível que ambos se entendam. Por outro lado, é impossível determinar qual a tradução correta, já que existiriam muitas traduções possíveis. Mas, se podemos simplesmente aplicar o critério da conveniência, então toda teoria se torna irrelevante, uma vez que o único critério de validação é a disposição do sujeito de validar ou invalidar uma tese.

A dualidade entre mente e corpo supostamente estaria desfeita no pragmatismo, sendo que ambas as coisas se unem na experiência. Mas o conceito de experiência refere-se ao mundo de ação, onde todas as coisas são apenas significados. Para Von Uexküll, a vivência refere-se sempre ao sujeito, e o mundo-próprio onde ocorre a vivência refere-se sempre a uma espécie. Von Uexküll também parece defender uma forma de holismo, quando afirma que mundos-próprios mais complexos podem compreender os mais simples.

Segundo Rorty, devemos observar comportamentos comuns dos homens para compreender os valores de verdade. A verdade das afirmações é atribuída considerando cada proposição como uma ação valorativa dentro de um mundo-próprio. A verdade seria determinada pelo conhecimento do nosso ciclo funcional. Ou seja, o critério é funcional, tendo a análise da relação entre estrutura e mundo como ponto de partida.

A teoria de Von Uexküll deixa dúvidas quando aplicada aos seres humanos. O número de valores que podem ser humanamente atribuídos a uma só coisa nos parece potencialmente infinito. É difícil imaginar que em tais condições possam se formar contextos tão específicos. Von Uexküll não nega que os significados podem variar de indivíduo para indivíduo, mas não explica como essa variação não destrói a possibilidade de comunicação.

Em A Ideia Perigosa de Darwin, Dennett (1998) analisa a evolução da intencionalidade a partir da evolução das espécies, embora seja contra a teoria da representação e defenda uma teleologia. Para ele não há uma forma de intencionalidade tipicamente humana. Como um crítico do realismo, ele afirma, assim como Von Uexküll, que os valores dentro de um mundo-próprio variam de acordo com a estrutura do sujeito, e não com a realidade. Ou seja, variam de acordo com o que funciona ou não funciona. A distinção entre real e não real não tem sentido em si, já que nenhum sentido pode ser dado independente do mundo-próprio. O que é real depende de cada mundo-próprio.

Esta é uma aproximação, na filosofia da mente, da teoria do mundo-próprio e do funcionalismo. Ambos rejeitam o fisicalismo e defendem que estados mentais não são físicos, mas sim funcionais. Um estado funcional descreve uma relação entre certos estímulos sensoriais e certos comportamentos. A categoria funcional é uma categoria relacional, que não é física, mas depende da existência de entes físicos, pois existe na relação entre dois ou mais entes físicos. Uma sensação é funcional pelo seu papel causal. O papel causal deriva da relação entre certos estímulos e estados mentais, o que se observa nas variações dos estados mentais que geram comportamentos. Em outras palavras, o que não é físico só pode existir a partir das coisas físicas, e nunca ao contrário.

O mundo-próprio de um organismo é moldado pela evolução do seu plano de construção. No caso do homem, as valorações são mais complexas porque ele cria linguagem e é capaz de alterar seu ambiente significativamente. O ambiente simbólico em que o homem se introduziu torna a manipulação dos símbolos uma tarefa corriqueira e relativamente fácil, se comparada à capacidade de outros animais. Nisso se define a liberdade humana: temos mais possibilidades de ação, mas ainda assim nossas ações possíveis são dadas pela nossa estrutura.

O pragmatismo caracteriza-se pela ênfase na utilidade e no sentido prático como componentes vitais da verdade, mesmo que a verdade não seja meramente aquilo que é prático ou útil num contexto limitado. Os filósofos pragmáticos argumentam que devemos considerar como verdadeiro aquilo que melhor contribui para o bem estar da humanidade em geral, tomando como referência o contexto mais amplo possível. Porém, se aplicamos o critério da conveniência, essa sugestão é irrelevante, já que cada sujeito ou grupo de interesse pode considerar valores bem distintos como condizentes com seu próprio contexto e seus conceitos de bem-estar, de humanidade, e assim por diante. O pragmatismo opõe-se ainda às correntes formalistas e racionalistas, defendendo que o conhecimento só adquire significado na relação dos organismos inteligentes com o seu meio. Porém, o pragmatismo se aproxima da teoria dos mundos-próprios no que diz respeito à teoria da significação, uma vez que ambos rejeitam a ideia que a realidade seja formada por entes imutáveis, afirmando a prioridade do contexto. Também rejeita o fatalismo e dá à ação humana a responsabilidade privilegiada pela alteração das suas próprias condições. Porém, se afasta quando ignora que o mundo-próprio diz respeito à espécie humana, e não ao modo de vida na qual a maioria dos humanos se encontra inserida hoje. Divergências entre os filósofos pragmatistas levaram à criação de vários tipos de pragmatismo. O filósofo afro-americano Cornel West (1989), por exemplo, defendeu uma relação entre o historicismo marxista e o neopragmatismo de Rorty.

O pragmatismo afirma a emancipação do sujeito como critério de fundamentação para o conhecimento. As coisas são conhecidas na medida em que são significadas pelo sujeito. Aqui cabe certamente uma crítica: Que sujeito se emancipou na história da nossa civilização? Não foi exatamente o sujeito humano, mas talvez o sujeito moderno. O conceito de sujeito é o ponto fraco do pragmatismo, o que torna alvo da crítica ao relativismo. Seu esquema conceitual se complica quando questionamos a ideia de natureza, de humano, de sujeito e de autonomia levando-se em conta a distinção entre a história da sociedade ocidental e a história da espécie humana.

Referências:

DENNETT, Daniel Clement. A perigosa idéia de Darwin: a evolução e os significados da vida. Rocco, 1998.

JAMES, William; DEWEY, John; VEBLEN, Thorstein. Pragmatismo: textos selecionados. Abril Cultural, 1974.

PEIRCE, Charles Sanders; FREGE, Gottlob. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

QUINE, Willard Van Orman et al. Ontological relativity. Ontological relativity and other essays, v. 15, p. 26-68, 1969.

RORTY, Richard. Rorty & pragmatism: The philosopher responds to his critics. Vanderbilt University Press, 1995.

UEXKÜLL, Jacob von. Dos animais e dos homens. Digressões pelos seus próprios mundos. Coleção Vida e Cultura. Lisboa: Livros do Brasil, 1982.

WEST, Cornel. The American evasion of philosophy: A genealogy of pragmatism. Springer, 1989.

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Autor: Janos Biro

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