O que é um debate?

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Um pequeno ensaio sobre o que significa debater uma ideia.

Uma pergunta fica no ar toda vez que vejo um debate entre pessoas com posições políticas diferentes: Como é que podemos debater com alguém que não reconhece sua própria posição? Alguém cujo argumento é composto quase inteiramente de falsidades, falácias e desvios? Alguns conseguem tecer pérolas de retórica tão elaboradas que podem até ser admiradas como uma obra prima da capacidade sofística humana. Quando a pessoa se dedica a acusar o seu oponente das exatas coisas que foi acusado, nos mínimos detalhes, e trata sua própria posição (ainda não demonstrada) como se essa é que tivesse sido suficientemente demonstrada com argumentos válidos, ou fosse simplesmente óbvia e evidente. Como se a exigência de evidências para suas afirmações ou negações fosse pura retórica. Como se as conclusões e questionamentos vindos de uma longa discussão entre pesquisadores e teóricos das mais diversas áreas do conhecimento humano pudessem ser consideradas automaticamente falsas se negam uma de suas afirmações. A discussão fica tão confusa que tendemos a desistir dela. Uma discussão assim não contribui para a reflexão de ninguém.

Como responder a um pseudo-argumento insistente vindo de alguém completamente convicto de algo falso, inválido ou irrelevante? Alguém simplesmente focado em projetar a imagem de “vencedor” do debate por usar frases de efeito? Segundo uma série de vídeos sobre a direita alternativa nos EUA (The Alt-Right Playbook, da Innuendo Studios), simplesmente não há como responder. Debater com alguém assim não tem o menor sentido porque esta pessoa não providencia as condições mínimas para que um debate aconteça. O que está fazendo na verdade é uma estratégia retórica chamada “controle da conversa”.

Controlar a conversa significa esconder sua posição, suas afirmações básicas, por trás de camadas de retórica. As afirmações básicas não podem ser expostas à luz do dia porque seria como entregar o jogo, já que elas são insustentáveis. Elas precisam ser defendidas com qualquer coisa que puder simplesmente desviar o foco da discussão. Não importa se essas coisas são falsas ou irrelevantes. Na verdade, quanto mais absurdas, melhor! Essa estratégia não apenas serve para posar de maioral na Internet, ela pode estabelecer critérios que moldam a estrutura das relações sociais. Elas também podem ganhar eleições, mas não vou me focar nisso aqui porque o efeito dessa estratégia sobre as interações sociais, as relações, os conflitos, as identidades e a socialização em geral é muito mais sério.

Um debate de verdade depende que todos os participantes concordem com certas coisas desde o início: primeiro, que qualquer um pode estar errado, incluindo você mesmo, e deve então estar pronto para conceder que outra pessoa esteja certa. Todos podem estar errados, ou todos podem estar certos e a discordância era um mal entendido. O importante é chegar a uma conclusão, ou pelo menos se encaminhar para isso, um passo de cada vez.

O que a maioria das pessoas discutindo na Internet entende por debate é uma coisa completamente distinta. O que elas procuram é demonstrar superioridade, ridicularizar e diminuir o outro lado, e nunca concordar, manter o máximo de separação possível. Nunca finalizar o debate, mas mantê-lo como uma ferramenta para o seu espetáculo. Seu discurso é seu show, é o que visibiliza você, te torna notório, famoso. Isso é que importa. Por isso você precisa de pessoas tentando provar que você está errado, e sua única tarefa é dar a eles algum motivo para que te odeiem. Contanto que você esteja sendo considerado odioso, que outros estejam perdendo tempo demonstrando o quanto você está errado, propagando seu erro para os quatro cantos do mundo, como se você fosse a causa do mal no mundo, você pode se considerar vitorioso. Por isso xingar é mais efetivo do que concordar com alguns aspectos e criticar outros.

Pois o jogo consiste em ser respondido, de preferência com um texto enorme, independente do conteúdo da resposta. Se todo mundo acha que seu “argumento” precisa ser exposto e refutado, isso significa que de algum modo você está incomodando pessoas, está gerando movimento, está recebendo atenção. Não importa o quanto você esteja errado, pessoas vão ficar do seu lado, mesmo que sem entender sua posição, basta terem raiva do outro lado. Por que desistir dessa notoriedade? Porq jogá-la fora levando a sério o debate se você pode expandir sua influência simplesmente alimentando o conflito com enunciados ainda mais absurdos?

Então, enquanto muitas pessoas estão discutindo com o objetivo socializador de avançar suas posições, perceber seus erros e aprender alguma coisa, outras estão tratando aquilo como simples “performance”, uma oportunidade de ser notado. E isso é tão evidente que justamente essas pessoas são as que mais vão acusar qualquer um de estar apenas “chamando a atenção”. Porque não há como conduzir uma discussão pública sem receber algum grau de atenção do público. Algumas pessoas, porém, reduzem a discussão à quantidade de atenção que você pode receber com cada comentário. Então não importa se você fez um comentário elucidativo, que desfaz os equívocos e coloca as coisas em seu devido lugar, eles lerão isso como um simples lance num jogo cujo objetivo é atrair mais “curtidas”.

Essas pessoas podem não saber que estão fazendo isso, podem não concordar que estão fazendo isso. Nada disso é exclusivo da direita ou da esquerda. Estamos falando de uma estratégia onde qualquer inclinação para buscar um terreno comum que possibilite um diálogo e que objetive o consenso será apenas vista como fraqueza. O retórico não precisa conceder coisa alguma ao seu oponente porque ele não pretende demonstrar a validade e relevância de sua posição, ele pretende demonstrar que seus oponentes JAMAIS compreenderão a realidade, eles estão como que predestinados ao erro simplesmente por serem quem são.

Por isso, quando alguém diz: “essa discussão e inútil, ela não leva a lugar nenhum”, isso pode significar coisas bem diferentes dependendo do contexto. Pode significar que um dos lados, ou mesmo ambos, se negam ativamente a entrar num debate, permanecendo apenas no nível do jogo retórico. Pode significar também que um dos lados é simplesmente incapaz de compreender o que o outro lado está dizendo. Para sermos honestos e coerentes, não deveríamos julgar que uma discussão é inútil até termos uma evidência de que o outro não está de fato querendo debater, seja porque não compreendeu ainda o que é um debate, seja porque defender-se do debate se tornou a única opção para defender sua posição.  De qualquer modo ainda existe espaço para tentar um diálogo: é possível deixar temporariamente de lado o assunto e passar a discutir o que é um debate, e uma vez tendo firmado um terreno comum nisso, voltar ao tema anterior.

Continuar discutindo sobre um assunto sem partir do mesmo pressuposto sobre o que exatamente é uma discussão é a única coisa que não vale a pena fazer. Porque isso significa morder a isca e deixar-se levar para um campo onde é impossível que qualquer conclusão conciliatória aconteça. A primeira coisa que você deve ter em mente ao entrar num debate é: quais são os pontos de concordância entre as partes? Os pontos de concordância são os pontos de referência para navegação no oceano do debate. Sem pontos de referência, você vai ficar perdido como um náufrago sem bússola numa jangada no meio do mar aberto.

Então não é um simples detalhe que ambos concordem sobre o que é um debate. Este deveria ser o fundamento de qualquer debate. É por isso que é mais comum ver debates produtivos entre grupos de pessoas que já se conhecem e concordam com a natureza da atividade que estão realizando. Já debateram o suficiente para chegar a um consenso sobre suas regras básicas, então podem discutir outros assuntos com mais tranquilidade. Pessoas na Internet, vindas das mais diferentes formações possíveis, dificilmente terão a mesma compreensão sobre o que significa debater, e o que a maioria dos conceitos que usam pode significar para pessoas de outras áreas, além de estarem propensas a desrespeitar o outro sem que haja nenhuma consequência.

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Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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