O trabalho alienado

Trabalho Alienado

Um ensaio de sociologia do trabalho sobre o conceito de alienação.

Trabalho é um conceito central para Marx. O conceito de trabalho alienado em Marx (2004) é definido em dois aspectos: a alienação entre trabalhador e o produto do trabalho e a alienação entre o trabalhador e a atividade produtiva. Marx constatou que o trabalhador, no contexto do capitalismo industrial, não apenas foi reduzido à condição de mercadoria, mas se tornou também a mais miserável das mercadorias. A grandeza do trabalhador é inversamente proporcional à grandeza da sua produção. Este é o resultado necessário da concorrência e da acumulação de capital. A sociedade capitalista pode ser dividida entre proprietários e trabalhadores sem propriedade. Estas duas classes estão em conflito pela própria natureza da propriedade privada, ainda que o mercado oculte este conflito. O discurso econômico esconde a alienação do trabalho, tratando o trabalho como algo externo ao trabalhador, ou seja, algo que o nega ao invés de afirmá-lo. O trabalhador “está em casa quando não trabalha e, quando trabalha, não está em casa” (MARX, 2004, p. 83).

Considerar o trabalho como uma atividade estranha a si mesmo representa a perda de si mesmo, e neste sentido é uma auto-alienação. Disto resulta que a própria vida da pessoa se torna para ela um meio para manter sua existência individual. A pessoa alienada do corpo não se considera mais como um corpo, mas como proprietária de um corpo que deve ser vendido para aquisição da sua própria sobrevivência. O ser humano se encontra assim separado da natureza externa e da natureza humana, e considera-se, assim, como o outro de si mesmo. Sua atividade é martírio de si para a fruição de outro. “Não os deuses, não a natureza, apenas o homem pode ser este poder estranho sobre o homem” (MARX, 2004, p.86).

Deste modo, a produção não pertence mais ao trabalhador, mas sim a outro. A auto-alienação aparece na relação com o outro. A relação do trabalhador com o trabalho reflete a relação do humano com o trabalho. A propriedade privada é o produto necessário do trabalho exteriorizado e alienado, do ser exteriorizado e alienado. É uma consequência, não uma causa. O salário também é uma consequência do trabalho alienado, por isso alienação humana continua existindo ainda que se eleve o salário do trabalhador ou mesmo que haja igualdade de salários.

A mercadoria e o processo de trabalho

Marx (1980) define o conceito de mercadoria como um objeto externo que satisfaz as necessidades humanas sejam estas verdadeiras ou falsas. Ele faz uma distinção entre o valor de uso e o valor de troca. O valor de uso se refere à utilidade do conteúdo material da mercadoria. Este valor não depende da quantidade de trabalho empregado na produção. O valor de troca aparece na relação de troca entre valores de uso de tipos diferentes. O valor de troca das mercadorias é um valor quantitativo ao invés de qualitativo. Sem o caráter útil dos produtos do trabalho, também desaparece o caráter útil do trabalho empregado. Assim, ao se considerar o valor de troca, desaparece o trabalho concreto, relacionado ao valor de uso, e todas as atividades produtivas se reduzem a um tipo de trabalho: o trabalho abstrato.

O valor de uma mercadoria é medido pelo dispêndio da força de trabalho, que depende do tempo de trabalho socialmente necessário e da produtividade do trabalho. “A grandeza do valor de uma mercadoria varia na razão direta da quantidade, e na inversa da produtividade, do trabalho que nela se aplica” (MARX, 1980, p. 47). A criação da mercadoria implica na produção de valor de uso social. Para se tornar mercadoria, o produto precisa ser transferido, pela troca, a alguém a quem ele tem valor de uso. Assim, o trabalho útil é parte do trabalho que produz valor de uso. A divisão social do trabalho é a condição para a produção de diferentes mercadorias. Para Marx, o trabalho como criador de valor de uso é indispensável ao ser humano, sendo apenas o ato de transformação da natureza. A produtividade sempre se refere ao trabalho concreto ou útil. O aumento da produtividade não altera o valor do trabalho útil.

As mercadorias são ao mesmo tempo objetos úteis e portadores de valor de troca. O trabalho humano cria valor, mas não é valor. O valor das mercadorias é relativo ou equivalente. Ele existe na comparação com outra mercadoria. O trabalho concreto se torna trabalho abstrato por meio do valor dinheiro. O caráter misterioso, ou fetichismo da mercadoria, provém da igualdade dos trabalhos, disfarçada da igualdade dos produtos do trabalho, de modo que as relações entre os produtores assumem a forma de relação social entre os produtos do trabalho. “Uma relação social definida, estabelecida entre os homens, assume a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas” (MARX, 1980, p. 81).

O processo de trabalho é composto da atividade adequada a um fim, da matéria a que se aplica o trabalho e dos meios de trabalho. Ele produz valores de uso, e ocorre na relação entre coisas que o capitalista comprou, entre suas propriedades: o trabalho, a matéria-prima e as ferramentas ou máquinas. Por isso o produto desse processo pertence ao capitalista, não ao trabalhador. Mas o capitalista não quer produzir somente valor de uso, ele quer produzir uma mercadoria, um valor de troca, um valor excedente, que é a mais valia (MARX, 1980).

A condição operária

Simone Weil (1979), ao descrever a experiência da vida de fábrica no século XX, afirmou que os operários estavam de algum modo vivendo como exilados em sua própria terra. Eles possuíam uma tristeza que eles mesmos não compreendiam. “Quando os operários falam de seu próprio destino quase sempre repetem palavras de propagandas feitas por gente que não é operário” (WEIL, 1979, p. 130). O tempo na fábrica é dominado pelo relógio, um mecanismo impiedoso, para o qual não existe acaso. O operário deve prestar contas de algum modo, apesar da impossibilidade de seguir à risca todas as regras e ordens contraditórias. Para suportar as ordens, os operários são obrigados a se considerarem como insignificantes. O trabalho é monótono, e a variação pode produzir algum alívio, mas também a redução do ganho e a angústia. Quem precisa obedecer a diversas ordens se ressente ao perceber que seu tempo está à disposição de outra pessoa. O operário é reduzido a um objeto inerte que deve ser disposto do modo mais lucrativo.

O processo de trabalho na fábrica provoca a curvatura do pensamento, uma retração sobre o presente. Após a jornada de trabalho, e logo antes dela, há uma angústia diante da perspectiva de um dia ou de uma semana de vida entregue ao trabalho. “O corpo está às vezes esgotado, de noite, à saída da fábrica, mas o pensamento está sempre esgotado, mais ainda que o corpo” (WEIL, 1979, p. 134). O trabalhador dificilmente encontra satisfação quando apenas o produto do seu trabalho é valorizado, e não o modo como ele se empenhou para fazê-lo. Isso é privilégio dos cargos superiores. Mas chefes não são pessoas supervisionando outras, são órgãos de uma subordinação impessoal. A impessoalidade e o capricho pessoal dos chefes, ao invés de se contrabalancearem, se agravam, como no caso da monotonia e do acaso. Aqui ocorre um processo de reificação, “são relações entre as coisas e não entre os homens” (WEIL, 1979, p.135). Este seria o grande mal, as coisas fazem papel de pessoas, e as pessoas fazem papel de coisas.

A sucessão de gestos na fábrica não tem um ritmo, tal como numa música. É uma sucessão ininterrupta, como um tique-taque, sem algo que marque quando algo acabou e outra coisa começou. O operário serve as máquinas, não se serve delas. O operário não sabe o que produz, por isso não sente que produziu, mas que se esgotou no vazio. Os operários deveriam se sentir em casa quando trabalham, mas se sentem como estranhos. Mesmo quando se queixam, não sabem exatamente do que se queixam. Não bastaria diminuir o tempo de trabalho, porque ninguém aceitaria ser escravo somente por duas horas. Os estímulos principais para se manter o emprego são o medo e a cobiça. Para Weil, se o operário soubesse claramente que lugar ocupa na sociedade, o estímulo seria o desejo de fazer algo. Máquinas mais avançadas deveriam substituir o trabalho repetitivo. O trabalho do operário deveria ser ritmado pela necessidade, e deveria haver espaço para a autonomia. Os indivíduos deveriam aprender sobre o processo do trabalho desde pequenos. Neste ponto Weil discorda da Marx. Aqui a questão não é a natureza do trabalho, mas do desgosto pelo trabalho. Os operários deveriam gostar do trabalho, e este deveria possibilitar isso. Os males das fábricas seriam corrigidos nas fábricas.

A psicopatologia do trabalho e as estratégias de defesa

Dejours (2000) vai mais longe que Weil, questionando a ideia de que o sofrimento no trabalho foi atenuado ou eliminado pela mecanização, a abolição das obrigações mecânicas e das tarefas repetitivas. A transformação de operários em empregados ‘de mãos limpas’ não resolveu os problemas referentes às condições de trabalho insalubres. O que as empresas oferecem são belas fachadas. Existe um vão entre a organização prescrita e a organização real do trabalho. É impossível cumprir todas as prescrições porque isso implica em zelo excessivo, o que diminui a velocidade da operação. “Muitas vezes os trabalhadores não têm como saber se suas falhas se devem à sua incompetência ou a anomalias do sistema técnico” (DEJOURS, 2000, p. 31). Isto causa perplexidade, angústia e sofrimento, mesmo nos mais organizados e experientes. Aparece o ‘medo de ser incompetente’, que é fortalecido pela exigência de responsabilidade que acompanha o aumento de autonomia do trabalhador.

Por causa disso, alguns trabalhadores sentem uma pressão para trabalhar mal. As condições oferecidas pela nova organização do trabalho o deixam numa situação psicológica conflitante com os valores do trabalho bem feito, o senso de responsabilidade e a ética profissional. Os trabalhadores são constrangidos a aceitar cada vez mais brechas. Alguém que insiste em apontar as falhas não sabe mais se está apenas seguindo o regulamento e o bom senso ou se está sendo perfeccionista e teimoso. Dejours relaciona isso a um quadro de ‘alienação social’.

Uma característica básica da psicologia do trabalho é o desejo de ser reconhecido. O reconhecimento “mostra-se decisivo na dinâmica da mobilização subjetiva da inteligência e da personalidade no trabalho” (DEJOURS, 2000, p. 34). O reconhecimento dá sentido às angústias, dúvidas, decepções e desânimos no trabalho. O trabalho se inscreve na realização do ego, e não há crise psicopatológica que não esteja centrada numa crise de identidade. O sofrimento psicopatológico no trabalho resulta na formação de ‘estratégias de defesa’. A normalidade não significa ausência de sofrimento, mas a presença de meios para lutar contra o sofrimento. O conformismo obtido por uma interiorização da dominação social também é uma psicopatologia do trabalho.

As estratégias defensivas cumprem um papel paradoxal, porque também podem insensibilizar contra aquilo que faz sofrer e tornar tolerável o sofrimento desnecessário. Neste contexto, Dejours (1992) também fala das ‘ideologias defensivas’ do subproletariado. O subproletariado se diferencia do proletariado porque não se caracteriza pela questão do emprego e do desemprego, mas do subemprego e do não-trabalho. Neste caso, os indivíduos tendem a sentirem-se culpados por ficarem doentes. A doença é tratada como a preguiça, implica em desvalorização do trabalho. Isto é um resultado da ideia de que o trabalhador é totalmente responsável em apresentar resultados, independente da situação e das condições. Aqui, não se trata de evitar a doença, mas de suportá-la sem reclamar, de conviver com ela. “Sarar, no subúrbio, é antes de tudo um problema de ânimo. (…) Sarar é somente não sofrer.” (DEJOURS, 1992, p. 30).

A questão é ainda mais complexa no caso específico das mulheres. A gravidez aparece como uma vergonha, uma doença. Ao mesmo tempo, a mulher se sente útil enquanto os filhos dependem dela, e inútil quando não mais dependem. Dejours descreve a ‘ideologia da vergonha’ como um conjunto de atitudes que visam esconder a realidade da doença. Em primeiro lugar, não se fala mais do corpo. Em segundo lugar, existe a vergonha de parar de trabalhar, se sentir dependente e inútil. A doença se opõe de tal modo ao trabalho que a simples ausência de trabalho é entendida como doença. O problema da doença deixa de ser a doença em si, mas sim o impedimento ao trabalho. O que causa angústia na doença é menos o medo de morrer do que o medo de não poder mais trabalhar. A ideologia da vergonha consiste em fugir de qualquer risco de afastamento da possibilidade de trabalhar.

Três resultados comuns deste tipo de ansiedade são: o alcoolismo, a violência ‘anti-social’ e a loucura. A ansiedade frente à doença leva a uma indisposição de tomar medidas de prevenção, como hábitos sanitários e de higiene, pois esses hábitos relembram constantemente da possibilidade e da proximidade da doença. A partir disso, Dejours define a ideologia defensiva como algo que tem por objetivo mascarar uma ansiedade particularmente grave, enquanto mecanismo de defesa elaborado por um grupo social particular.

Dentro do modelo taylorista, o trabalho domina todo o tempo de vida do trabalhador. Com o objetivo de aumentar a produtividade, Taylor pretendia diminuir o tempo em que os trabalhadores trabalhavam menos do que poderiam ou deveriam. A organização científica do trabalho elimina a liberdade de organização. Ela divide o modo operatório do trabalho, divide o organismo entre órgãos de execução e órgãos de concepção intelectual, e divide os homens em hierarquias. Coloca os trabalhadores em concorrência uns com os outros. Esta abordagem reduz o sofrimento do trabalhador a um sofrimento coletivo. Na verdade, a individualização levou ao sofrimento individual, diferenciado. Por isso também se criam mecanismos de defesa individual.

Algumas defesas individuais são resíduos de defesas coletivas. Os trabalhadores aproveitam brechas no sistema para aproveitar um pouco de liberdade, e sentem-se satisfeitos com pequenas alegrias e pequenas vitórias simbólicas contra uma organização opressiva. Isto se torna uma espécie de jogo contra as cadências do trabalho, mas pode representar uma estratégia sobrevivência à violência mental da organização do trabalho. A tese de Taylor desconsiderou o fato de que o operário é a pessoa mais qualificada para dizer qual é o modo de trabalhar mais compatível com sua saúde. O trabalho ‘contamina’ o tempo de vida fora do trabalho porque não é somente a capacidade de produzir que é condicionada pela organização do trabalho, mas o homem por inteiro, tanto quando produz quanto quando consome.

O tempo fora do trabalho não é livre porque está em continuidade com o tempo de trabalho. A maioria não encontra tempo nem dinheiro para as atividades recreativas que deseja ou necessita. Por isso, tais atividades são organizadas pelo princípio econômico, tal como as atividades produtivas. Um trabalhador já acostumado com uma rotina de trabalho não pode deixar o condicionamento se apagar, porque a readaptação ao trabalho é tão dolorosa quanto o treino inicial. Depois de condicionado, é bem mais fácil apenas manter a performance. Ele não pode perder este investimento de tempo. Não se trata somente de uma contaminação, mas de uma estratégia. Este é um fator que se pode observar às vezes na recusa à paralisação de trabalho por prescrição médica. Para evitar o pior, o trabalhador se vê obrigado a manter-se condicionado. “A injustiça quer que, no fim, o próprio operário torne-se o artesão de seu sofrimento” (DEJOURS, 1992, p. 47).

Referências:

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5.ed. São Paulo: Cortez/Oboré, 1992.

_________. A banalização da injustiça social. 3.ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2000.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. 5.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. l.1, v. 1.

_________. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.

WEIL, Simone. A condição operária e outros estudos sobre a opressão. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1979.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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