Capitalismo e libido

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Um ensaio sobre o capitalismo libidinal.

Imagine uma sociedade em que todos são adversários lutando para ter uma vida melhor que os demais. Imagine que essa “vida melhor” é obtida por meio de bens materiais que possuem um valor simbólico: elevam o status social da pessoa que os possui. Agora imagine que essa mesma sociedade valoriza a liberdade individual e tenha como ideal a possibilidade de que cada pessoa seja a única autorizada a decidir o que fazer com suas propriedades. Imagine que isso crie desigualdade, com alguns tendo muito mais que outros. Agora imagine um teórico que diga que o que falta para essa sociedade é um sistema democrático melhor, mais justo, com mais coração e menos automatismo.

Que critério será usado para tomar decisões nessa sociedade? Tendemos a imaginar que existem basicamente dois critérios: a razão e o sentimento. Uns dizem que a razão é a ferramenta para a dominação, e por isso o caminho para a liberdade é o sentimento. Outros dizem exatamente o contrário, os sentimentos nos aprisionam em formas de vida atrasadas, só a razão pode nos libertar.

Ambos acreditam que quando os meios para agir corretamente (com mais sentimento ou razão) forem compartilhados ao invés de centralizados, os recursos da sociedade serão espontaneamente distribuídos para realizar uma sociedade melhor. Como se houvesse uma harmonia pré-estabelecida entre a condição ética para o “bem agir” e a estabilidade da vida em sociedade. Como se o outro lado (a razão ou o sentimento), que complica o critério de ação, entrasse sempre para atrapalhar essa relação, e por isso precisa ser contido. O problema seria determinar exatamente quem está certo, ou o problema poderia estar justamente na desconexão entre uma coisa e outra, ou ainda na desconexão de ambas com a realidade da vida humana.

A repetição racional do cotidiano é entediante e insuportável. O excesso de variação é vertiginosa e igualmente insuportável. Há um ponto de equilíbrio? Podemos resgatar elementos primitivos para a evolução da sociedade? Seria uma questão de equilibrar lucro e caridade? O problema seria apenas a monetarização ascética da vida, aquele capitalista gordo e sem coração e que só pensa em aumentar os lucros a qualquer custo? Ou devemos nos preocupar também com um capitalismo mais flexível, que faz capoeira, é vegano, usa coque, lê Marx e não tem preconceitos? Devemos levar em consideração que o capitalismo também pode ser libidinal e até mesmo tribal?

Algumas coisas sendo chamadas hoje de ‘economia da dádiva’ não estão tão longe assim de um ideal capitalista. Este termo tem sido confundido com fazer o que se quer por prazer e de graça. Sem esperar recompensa em dinheiro, mas sim uma experiência satisfatória. Isso também é um tipo de ação racional com fins econômicos, porém não monetários. Uma economia libidinal, o prazer como novo símbolo de status social. Se tudo depende do sentido social da ação, qual o papel da alteridade nesse conceito de dádiva? Quando as relações e mercadorias passam a ser pensadas não em termos do seu valor no mercado monetário, do acúmulo de dinheiro, mas no mercado experiencial, do acúmulo de experiências de prazer, o que realmente muda? A propaganda de um banco falava sobre o uso instrumental do dinheiro para se obter aquilo que “não tem preço”, ou seja, experiências subjetivas. O que acontece quando até essas experiências subjetivas podem, se certo modo, ser quantificadas e contabilizadas no cálculo econômico?

Talvez aquilo que não tem preço seja apenas o outro lado da moeda.

Alguns pensam que seria suficiente aplicar na esfera pública o que já funciona na esfera privada. Mas devemos criticar como o processo de individualização transformou os critérios privados, e como a sociedade se moveu para além do velho modelo de repressão à libido. Não que a repressão tenha deixado de existir, mas ela se transformou. Ser livre não significa simplesmente estar livre da coerção moralista e religiosa que nos impediu por tanto tempo de provar o livre gozo do prazer carnal e sensível.

Não podemos pressupor que a liberdade social consiste apenas na liberação da vontade humana. Quais exatamente são as limitações da nossa capacidade de decidir ou de agir eticamente? Podemos realmente ter total controle sobre nossa própria vida? Ou talvez muitos dos componentes da nossa potência vital não são autopoiéticos, mas sim construções sociais? Esta é uma pergunta, não uma resposta.

A ação não cogida pode ser interpretada como livre, mas quando questionamos mais profundamente, não sabemos definir muito bem o que é uma coação ou uma coerção, ou onde a acaba a autodeterminação e onde começa, sutilmente, a influência de outros vivendo em mim, a voz das figuras que eu tenho como confiáveis me dizendo o que fazer, mesmo que presentes somente no meu inconsciente. Assim, o próprio sentido social da ação parece algo a ser superado. A modernidade pode sugerir a substituição do sentido social presente em comunidades humanas ancestrais por um sentido puramente individual voltado a fins produtivos, e que parece surgir do nada, ou de um ato milagroso da capacidade humana de “pensar por si”. Milagroso porque, diferente de outros aspectos da realidade, que parecem encerrados numa cadeia causal de eventos mais ou menos determinista, a ação humana nos parece sobrenatural na medida em que rompe a cadeia causal, não é simplesmente causada pelo acúmulo de coisas do passado, mas por algo completamente novo, tal qual a criação no seu sentido teológico. Ou seja, algo criado a partir do nada.

A luta contra o capitalismo pode ser confundida com a luta contra a infelicidade humana que resulta da industrialização. Mas escapar do sistema repressivo não necessariamente significa escapar do capitalismo. “Roubar sua vida de volta” e “viver em termos dos seus desejos”, é uma bela ideia. Mas eu ainda me pergunto qual será nossa referência de “vida” ou de “desejos”, e como distinguir as versões domesticadas destas coisas das versões originais ou não-domesticadas pelo processo colonizador.

 

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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