A gênese dos conceitos de habitus e de campo

poder simbolico

Resumo de um trecho do livro O Poder Simbólico, de Pierre Bourdieu.

Diferente da teoria teórica, que se defronta somente com outras teorias, a teoria científica se defronta com novos objetos. A ciência deve dedicar mais tempo e esforços a por em ação os conhecimentos teóricos adquiridos do que em tentar tornar seus conceitos mais atraentes. “Tratar da teoria como um modus operandi que orienta e organiza praticamente a prática científica é, evidentemente, romper com a complacência um pouco feitichista que os ‘teóricos’ costumam ter para com ela” (p. 60). Logo, se trata de não tratar a teoria científica como conhecimento em si, mas como um programa de percepção e de ação sobre a própria ciência.

A noção de habitus, por exemplo, recusa as alternativas da consciência e do inconsciente, do finalismo e do mecanicismo. Permite romper com o paradigma estruturalista sem afirmar a filosofia do sujeito ou do individualismo metodológico. Esta noção foi tomada da noção aristotélica de hexis e convertida pela escolástica em habitus. Nela, o agente não está reduzido ao papel de suporte da estrutura, e ao mesmo tempo não é um agente totalitário. Bourdieu afirma que suas posições são próximas da ‘gramática generativa’ de Chomsky [1], porém o poder criador do habitus não provém de um espírito universal, de uma natureza ou de uma razão humana. “Tratava-se de chamar a atenção para o ‘primado da razão prática’” (p. 61). Isso foi feito como uma estratégia prática do habitus científico.

Os utilizadores da palavra habitus tinham uma inspiração teórica próxima da de Bourdieu, que era sair da filosofia da consciência sem negar a agência do sujeito como operador prático de construções de objeto. Bourdieu resolve retomar uma palavra da tradição por crer que a conceitualização é um trabalho cumulativo, e é oposta à ideia de criar novos termos apenas para ser mais citado. Não faz sentido procurar a originalidade a todo custo nem se prender à repetição dos mesmos significados. Trata-se de afirmar ao mesmo tempo a continuidade e a ruptura, a conservação e a superação. Os trabalhos científicos seriam comparados a uma música que é feita para fornecer princípios de composição (p. 63). Compreende-los exige a aplicação prática.

Uma das dificuldades das ciências sociais é a exigência de unir uma grande ambição com uma extrema humildade: a de tentar totalizar numa prática cumulativa o conjunto de saberes e ao mesmo tempo reconhecer que são pouco formalizados e devem ser incorporados como modo de habitus. Essa mesma atitude esteve na origem do conceito de campo. A noção serviu para indicar uma direção à pesquisa, em oposição tanto ao formalismo quanto ao reducionismo. Essas duas correntes não consideravam o campo de produção como espaço social de relações objetivas.

Para construir a noção de campo, era preciso ir além do conceito de “campo intelectual” como universo relativamente autônomo de relações específicas. Era preciso compreender que os campos se relacionam entre si. Assim, existiria uma estrutura de relações objetivas que explica a forma concreta das interações entre tipos (Weber). Bourdieu também compara as aplicações práticas desse método como uma via possível da “ascensão semântica” de Quine, levando a teoria a níveis mais elevados de generalidade e formalização na medida em que a prática é repetida. As particularidades das funções denunciam as propriedades comuns a todos os campos. Alguns campos evidenciaram características que poderiam ser analisadas em todos os outros campos.

Assim, uma parte do todo poderia representar a totalidade. Em vez de originar a construção do objeto pela transferência de termos de uma área para a outra, a construção do objeto pode exigir e fundamentar a transferência, como no caso da perspectiva de Weber sobre a religião e a economia. “A teoria geral da economia dos campos permite descrever e definir a forma específica de que se revestem, em cada campo, os mecanismos e os conceitos mais gerais” (p. 69). A gênese social de um campo é compreendida na apreensão daquilo que torna a crença que o sustenta numa necessidade específica, do jogo de linguagem que ele pressupõe, das coisas materiais e simbólicas que são geradas nele.

Os campos possuem uma autonomia relativa, uma lógica original. As rupturas com uma tradição têm mais a ver com a posição relativa, naquele campo, dos que defendem a tradição e dos que se opõem a ela (p. 72). “A história só pode produzir a universalidade trans-histórica produzindo, por meio das lutas tantas vezes impiedosas dos interesses particulares, universos sociais que, por efeito da alquimia social das suas leis históricas de funcionamento, tendem a extrair da defrontação dos interesses particulares a essência sublimada do universal” (p. 73). Sendo assim, podemos explicar como certas pessoas podem produzir algo que está além dos seus próprios interesses.

Notas:

[1] Teoria linguística na qual um conjunto de regras sintáticas pode definir quais combinações de palavras formarão sentenças gramáticas.

Referência:

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Bertrand Brasil, 1989, p. 59-73.

Autor: Janos Biro

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