Contra a modernidade

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Algumas divagações sobre verdade e modernidade.

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A modernidade começou como uma busca pela verdade na crítica da religião e a imposição da tradição sobre a interpretação do mundo, e assim libertou o indivíduo para interpretar o mundo por conta própria, tendo como principal ferramenta o método científico e a razão secularizada. O  processo de modernização, no entanto, se repetiu sobre si mesmo, para evitar novos domínios da razão científica, e acabou nos conduzindo a uma era da pós-verdade. Como isso aconteceu?

O ambiente urbano tipicamente moderno nos expõe constantemente a diversos alteradores de consciência. As luzes, os sons, os cheiros, as cores e o ritmo da cidade colaboram para a criação de um ambiente entorpecedor. Na cidade, nós vivemos num constante estado alterado de consciência. A cidade é um ambiente virtual tornado físico, é uma espécie de sonho ou alucinação que se manifesta na matéria por meio do trabalho, ou melhor, da exploração do trabalho. O que é sonho para a classe proprietária é pesadelo para a classe trabalhadora.

Nossos cérebros não se desenvolveram para suprir as exigências de um meio urbano, e o meio urbano não se desenvolveu para suprir as exigências humanas. Estar na cidade é como ser obrigado a usar uma espécie de droga. O alívio temporário desse entorpecimento é buscado com o uso de outras drogas, com outros entorpecimentos. Quando percebemos o quanto isso é insano, geralmente nos perguntamos o que pode mudar essa condição.

Há estágios da alucinação em que o sujeito tem consciência plena de que está alucinando, e nem por isso é capaz de deixar de alucinar. Há um abismo entre a percepção e a transformação que não pode ser preenchido por nenhuma quantidade de informação. Depende de uma disposição interna que antecede e torna possível qualquer mudança de mente. Em outras palavras, essa compreensão não é alcançada pela mera exposição a novos fatos.

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Quando o desejo pela felicidade se torna mais importante que o desejo de viver no mundo real, rotas de fuga e mundos imaginários começam a ser construídos. O desespero geralmente se segue da constatação de que este desejo não pode ser realizado.

Pessoas podem cooperar mutuamente com um auto-engano coletivo, e a Internet tem sido uma ferramenta útil para isso. Podemos encontrar apoio para alimentar nossa doença em pessoas que “nos aceitam como somos”. Há uma espécie de alívio em partilhar um destino comum, que pode substituir o desejo de se curar.

A consciência sobre a profundidade crise humana, sem uma esperança de superação, pode ser a prova definitiva de que não vale a pena viver. Para muitos, a conclusão racional será que não há porque adiar o inevitável, melhor desistir e cometer suicídio.

A última frase do poema mais conhecido de Thomas Gray é: “Onde a ignorância é felicidade, é tolice ser sábio”. Se o que você prioriza é a felicidade, então é melhor desistir da sabedoria, porque a sabedoria não o tornará feliz. A busca pela verdade é incompatível com a busca pela felicidade. E quando a liberdade que procuramos é somente a liberdade de ser feliz, a frase “a verdade liberta” já não faz nenhum sentido. A verdade não traz esse tipo de liberdade que se confunde com a liberação para simplesmente ser feliz.

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Conhecer a si mesmo, para os gregos antigos, não significava compreender seu funcionamento interno, mas compreender o seu destino, aquilo que você está condenado a ser, que era revelado em forma de enigma pelos oráculos. A modernidade transformou o significado da palavra “destino” de forma que a emancipação do homem significa não o conhecimento, mas o controle sobre o próprio destino. Com o homem como senhor do seu próprio destino, os oráculos se tornaram mentirosos. Liberdade é poder evitar o seu destino, o que é o contrário do “conheça a ti mesmo” grego.

O sentido existencial não pode ser encontrado simplesmente olhando para dentro. O “eu” precisa do “outro” para se compreender como “eu”. Todo sentido que criamos para nós mesmos é ilusório. O ideal de liberdade moderno eliminou a possibilidade de um sentido que não seja criado pelo indivíduo, criando uma ruptura existencial entre o “eu” e o “outro”.

Trata-se da separação do ser e aquilo que o torna ser. O que nos torna seres humanos não é a nossa própria ação. A modernidade declarou que somos autores de nossa própria existência. Mas para a segunda modernidade (ou pós-modernidade), a verdade não é mais importante do que a felicidade. A verdade falhou, porque ao criarmos o mundo moderno, criamos também monstros inimagináveis, como o nazismo, e as guerras mundiais e a exploração insaciável dos trabalhadores pobres. Estamos livres do fardo da busca pela verdade, que afinal não nos trará felicidade, e podemos então buscar unicamente o prazer e fugir unicamente do sofrimento.

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A verdade dói. Ou ainda, a verdade nos condena a um tipo de sofrimento: conhecer a realidade é encarar destinos que não podemos mudar. A realidade da morte, da doença, da velhice, da tristeza, da separação… Enfim, a dor da obrigação, daquilo que não podemos controlar. Esta é a verdade que está para além do sujeito, a verdade objetiva.

O medo da verdade objetiva é o medo de não ser o autor de sua própria história. Por causa desse medo, escolher ponderadamente se tornou menos importante do que escolher livremente. A escolha livre se justifica por ser livre, e escolhas ponderadas dependem de outro tipo de justificação.

Mas sem um critério objetivo, toda escolha é irrelevante. O critério subjetivo pode ser construção social ou construção virtual. Pode integrar um sistema de relações, ou pode criar um sistema em torno de si mesmo, dentro do qual qualquer coisa pode ser afirmada. A perda do discernimento é um resultado imprevisto da emancipação da razão individual.

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Qual o critério de distinção de autenticidade do ser? Os seres autênticos são aqueles que não mudaram substancialmente desde o início de sua história? Se os seres mudam, não é a mudança em si que torna um ser inautêntico. Há formas autênticas e inautênticas de transformação do ser. O ser inautêntico é o que se transforma por meios ilegítimos, como uma planta que cresce sem limite ou tão rápido que se torna insustentável. Os corpos estão em mutação, mas há uma distinção entre mutação e metástase. A metástase está em desequilíbrio, ela alcança um tamanho muito grande muito rápido.

A tecnologia nos proveu meios de realizar tudo mais fácil e rápido. O artificial é o principal meio da inautenticidade. Trocar o real pelo virtual, que simula um ambiente estimulante para nossos padrões inatos de prazer, é um modo de inautenticidade. O ser urbano, tal qual o ser domesticado, é um ser inautêntico. Ser inautêntico é estar desligado da verdade.

A sociedade totalitária de 1984 era fixada na verdade construída e imposta à força. Segundo Huxley, a sociedade capitalista tende a flexibilizar a repressão em nome da eficiência. A repressão e a permissão se completam dialeticamente na civilização. As experiências de liberação são colocadas a venda. O lema do Admirável Mundo Novo é: Não se negue coisa alguma. Permita-se. Permita-se ser feliz, permita-se comprar sem sentir culpa, permita-se ignorar a verdade. Permita-se viver sua própria a vida dentro do nosso modelo de sucesso.

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A busca pela verdade retorna enquanto paranoia, conspiracionismo e xenofobia. O critério objetivo que define os limites da liberdade está misturado a um discurso conservador, que já não tem mais certeza sobre o formato da terra e o funcionamento das leis naturais. Estamos seguindo a autoridade de grandes líderes, e não mais do método científico ou da avaliação por pares e nem mesmo da argumentação lógica ou democrática. A Internet restabeleceu a figura do líder carismático. A verdade voltou a ser produto de um discurso convincente, de uma sofística engenhosa. O homem volta a ser medida de todas coisas.

Não podemos corrigir o que não criamos. Não podemos reescrever o destino da humanidade com nossas próprias mãos, mas podemos evitar o destino artificial da civilização. O que se opõe ao modo de vida moderno não é a oposição a toda forma de restrição ao indivíduo, mas a realização de um destino autêntico para a humanidade. A civilização já critica a si mesma. O que realmente se opõe a ela é a reconstrução de meios autênticos pelos quais a vida humana possa se expressar.

Destruir o estágio atual leva apenas a um novo estágio, uma reconstrução contínua da máquina. A civilização se nega a ser constrangida por uma verdade maior que o homem. Redescobrir essa verdade do outro da tecnocultura, nos povos nativos e seres não-humanos, é a porta para a autenticidade humana.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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