A arte nas ciências sociais

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Uma resenha feita durante o mestrado em sociologia.

As ciências sociais oscilam entre o abstrato e o descritivo, o narrativo e o estético, o factual e o interpretativo. São herdeiras das ciências naturais por um lado, mas por outro precisam considerar a imaginação e a contradição. O pesquisador não está separado da realidade social, e por isso não lida com objetos passivos e inertes. “Há um objeto de conhecimento que nasce dessas cinzas residuais das certezas formais e absolutas, que tem desafiado as ciências sociais desde as origens” (p. 9). As inteligências narrativas se expressam na vida cotidiana por meio de imagens e imaginários como a fotografia, a música e o artesanato. Trata-se de sondar os paradigmas das ciências sociais na mediação de confluências do sensível e da imaginação.

Arte e vida não podem mais ser pensadas como pólos mutuamente exclusivos. Há um compromisso ético de desfazer representações definitivas e ousar durar na incerteza e na descontinuidade.

A questão da imagem não era tocada nos cursos de metodologia. Colocar imagens nos escritos era um luxo, não uma necessidade. A imagem era considerada complementar em relação ao texto, sem considerar-se que a imagem também pode ser um tipo de texto. De modo semelhante, a audição deveria ter igual ou maior importância que a visão. Em algumas culturas, a audição e a fala são mais valorizadas que a visão para as relações sociais.

O ocidente tentou racionalizar a música, mas ela não pode ser separada da emoção e do irracional. O cientista comunica conhecimento e não sentimentos. O dilema é como fazer ciência sobre a música. Uma das propostas é a incorporação do ponto de vista estético como elemento de diálogo entre pesquisador e sujeito pesquisado. Este valoriza os modos de pensamento não-verbais, incluindo o performativo ou expressivo ao proposicional e discursivo. A sugestão é que a antropologia pode ser “temperada” com contaminações musicais, cinematográficas e teatrais. A escrita etnográfica experimental sofre forte influência da imaginação cinematográfica, assimilando conceitos de simultaneidade, multiperspectivismo e descontinuidade, que seriam praticadas em nome da polifonia, fragmentação e reflexividade.

A descontinuidade narrativa questiona o conceito de linearidade, levando a uma crítica cultural. Novas correntes teatrais rompem com o paradigma aristotélico de resolução do conflito, e introduzem noções de interrupção da narrativa, desdramatização e distanciamento do ator em relação ao papel. O conceito fundante de “descrição densa” é reformulado por Dawsey como “descrição tensa”, a partir do conceito de imagem dialética de Benjamin.

Na música, surge uma nova abordagem em 1923 com o sistema dodecafônico de Schoenberg, que foge da repetição e da linearidade. Na metade do século XX, há a inclusão do “ruído” na música. A possibilidade de usar a música como metáfora e forma para as ciências sociais leva também à inclusão do ruído na descrição etnográfica, isso é, a tentativa de enunciar o que está ocultado ou escapa ao modelo. Seria necessário pensar não apenas a música na cultura, mas a cultura como algo que acontece na música. A música é produto e produtora de cultura. “A música seria um tipo especial de ação social, não somente reflexiva, mas também geradora” (p. 289).

Uma atividade estética pode atingir objetivos éticos, políticos e morais. Um exemplo são as atividades artísticas nas prisões, entre moradores de rua e em assentamentos ou ocupações.

Com o objetivo de resgatar a memória de populações que foram tiradas do seu contexto social e cultural, é importante uma atividade que vai além da fala. A cultura rural é um exemplo de cultura que se desagregou por causa da homogeneização imposta pela cultura de massa. A sociabilidade ancorada nas relações primárias cede lugar à sociabilidade individualizada e estranhada. Por exemplo, os camponeses do vale do Jequitinhonha produziam peças em argila para uso cotidiano, como panelas e pratos. Mas quando uma pesquisadora tentou entrevista-los, notou uma grande indisposição por parte dos entrevistados de falar sobre isso. Havia um sentimento de desvalorização e vergonha.

Surge então a ideia de uma oficina de argila, que seria um lugar onde a memória perdida ou abandonada poderia aflorar. A experiência gerou efeitos positivos não apenas para a pesquisa, mas para a auto-compreensão dos participantes. A intenção era reduzir ao máximo a “violência simbólica” resultante da diferença de capital cultural entre pesquisador e pesquisado.

Durante a oficina, o ritmo de produção foi intenso e espontâneo. Partindo de uma reflexão de Benjamin, a pesquisadora indicou a relação artesanal entre o narrador e sua matéria, a vida humana. No ato de produzir algo com as mãos, a reflexão sobre a vida aparece. A memória individual não é fechada. Para se lembrar do passado é preciso remeter às lembranças dos outros. “As reflexões em torno da memória das perdas, do dilaceramento, têm respaldo na análise freudiana sobre o conceito de lembranças encobridas” (p. 311). A omissão sobre os valores culturais representa uma forma de não pertencimento ao mundo rural, de negação da origem pobre. A repressão dessas lembranças faz parte de um processo civilizatório.

O método da pesquisadora foi reativar memórias por meio do “reencantamento” de uma atividade que foi desencantada pelo processo de assimilação do meio rural ao meio urbano. A conclusão é que o silêncio pode ser mais uma forma de resistência do que de esquecimento.

Referência:

MARTINS, José de S., ECKERT, C. e NOVAES, S. C. (orgs). O imaginário e o poético nas ciências sociais. Educs, 2005.

Autor: Janos Biro

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