Etologia da domesticação

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Ensaio de filosofia da biologia, publicado na Revista Espaço da Sophia nº 31.

O estudo comparativo do comportamento de seres domesticados e selvagens poderia elucidar algumas questões sobre o modo de vida civilizado, pois o processo civilizatório está relacionado ao processo de domesticação. Essa relação foi feita por um dos fundadores da etologia, Konrad Lorenz. Na seção intitulada “Avaliação de sintomas da domesticação no comportamento”, Lorenz diz “(…) percebemos também determinados desvios comportamentais que se apresentam nos mais diversos animais domésticos, e decerto também no homem civilizado” (LORENZ, 2002, p.94)

Domesticação significa perda de características naturais, por isso o uso do termo ‘desvios comportamentais’. “Quase todos os animais domésticos perderam boa parte da mobilidade de seus ancestrais selvagens; todos somente ganharam algo em relação àquelas características que são do interesse do homem e sobre as quais, consciente ou inconsciente, este exerceu pressões de seleção. A esse processo denominamos habitualmente ‘domesticação’.” (LORENZ, 2002, p.44)

Lorenz indica uma relação entre os efeitos destrutivos do progresso e a domesticação humana no próprio título do seu livro: Demolição do homem: crítica à falsa religião do progresso. Na civilização, o homem entra num processo de degeneração.

Curiosamente, o tipo de comportamento que mais visivelmente se altera na domesticação é o comportamento sexual, por ser o comportamento mais sensível a mudanças ambientais. Animais domesticados tendem a ser menos seletivos quanto a seus parceiros sexuais [1]. Este efeito é resultado de diversos fatores, entre eles a mudança para ambientes confinados e com alta densidade populacional.

É visível no animal domesticado a perda de características físicas, mas essa perda não é necessariamente genética, pois estas são reguladas por hormônios. O comportamento sexual é basicamente regulado pelo hipotálamo (DETHIER e STELLAR, 1998). Isto quer dizer que muitas características não são eliminadas da espécie quando não mais se expressam visivelmente, podendo estar apenas inibidas naquela geração, e voltando a se expressar quando o ambiente se torna propício novamente.

Muitos comportamentos característicos de uma espécie dependem de condições ambientais específicas para se realizarem (UEXKÜLL, 1933). A alteração no ambiente faz com que certas predisposições do organismo não se efetivem, ou se efetivem de maneira desregulada. Estas modificações do comportamento predisposto afetarão o indivíduo em praticamente todas as suas atividades, pois alteram também suas disposições comportamentais mais complexas (LORENZ, 1995).

Por exemplo, o comportamento de exibição das características para a seleção sexual, chamado de coorte, é drasticamente afetado, pois ele depende do bom funcionamento das principais características físicas e comportamentais do indivíduo. Há também uma degradação no cuidado com os filhotes, tendendo do excesso de proteção ao excesso de agressividade ou descaso. Certas aves domesticadas literalmente sufocam e esmagam seus filhotes tentando protegê-los de um ambiente potencialmente hostil (LORENZ, 2002). Outras espécies matam seus filhotes quando percebem que o ambiente não é adequado, e em algumas espécies se percebe a ausência dos cuidados necessários ao filhote.

Em ambientes confinados, a luta ritual entre indivíduos por um parceiro sexual se torna menos comum, o que não quer dizer que a competitividade por parceiros diminua. Ao contrário, o excesso de indivíduos numa população cria demanda pela quantidade de fêmeas que o macho pode fertilizar, e o comportamento de luta é inibido, pois ele demanda tempo e energia. A luta entre machos selvagens geralmente é benéfica ao grupo porque ajuda a fêmea a selecionar o macho mais saudável. Por outro lado, a agressividade do macho em relação à fêmea e aos filhotes tende a aumentar em ambientes confinados (AMABIS e MARTHO, 2005).

Indivíduos domesticados, criados em ambientes de alta densidade populacional, se tornam mais propensos a ferir sistematicamente um ao outro, mesmo fora do período de procriação, causando lesões ou morte. Eles também adquirem comportamentos obsessivos, muitas vezes se automutilando [2]. Isso é atribuído, entre outros fatores, ao estresse do confinamento, condições inadequadas de vida, solidão, perda de companheiro, mudança de ambiente, ansiedade, presença de animais predadores no mesmo ambiente e abandono do tratador. Esse fenômeno é especialmente comum entre aves, mas também afeta os mamíferos.

Espécies domesticadas por várias gerações podem ter suas disposições de ação profundamente modificadas. Isso leva ao medo paralisante de se defender ou de fugir, que é observado em animais vivendo em cativeiro desde o nascimento. O aumento no ritmo das batidas cardíacas indica sintomas de pânico. A indisposição para a atividade física e a possibilidade de alcançar a comida com menos esforço pode levar ao acúmulo de gordura, o que somado à ansiedade explica o alto índice de doenças cardíacas e infartos entre animais domesticados.

A automutilação física entre jovens está relacionada às novas configurações de relacionamento amoroso, que tendem a normalizar o modelo patológico da neurose depressiva (ORTEGA, 2006). Talvez seja ainda mais comum o comportamento de causar danos psicológicos a si mesmo e a outros, colocando-se em situações que muito provavelmente causarão sofrimento. Estaria a domesticação relacionada a uma série de doenças físicas e psicológicas, incluindo a tendência autodepreciativa e autodestrutiva? Francisco Ortega afirma, em seu artigo sobre as identidades corporais, que os jovens têm procurado expressar seu sofrimento na sua aparência física, criando imagens de cicatrizes, caveiras, ferimentos e coisas que machucam para expressar sua dor e sua incapacidade de manter a integridade física, mental e social.

Muitos pássaros que passaram a maior parte de suas vidas em gaiolas não irão sair delas mesmo se as portas estiverem abertas. Podemos dizer que se tornaram tão dependentes que construiriam suas próprias gaiolas se tivessem mãos. O filósofo Peter Sloterdijk acredita que a autodomesticação é o objetivo da civilização, e que deve ser alcançada através do desenvolvimento da antropo-técnica, que inclui a manipulação genética e a engenharia humana. A antropo-técnica seria uma via para realizar os objetivos da civilização, pois o humanismo por si só falhou em domesticar e educar o homem (SLOTERDIJK, 2000).

Algumas questões que poderiam ser trabalhadas com base na comparação entre estado selvagem e estado domesticado: Até que ponto os comportamentos humanos foram alterados pela civilização? Em que sentido tais alterações poderiam gerar doenças psicológicas e sociais? Como se posicionar eticamente diante da autodomesticação e do modo como ela altera nossas disposições de comportamento? As mudanças de comportamento sexual poderiam ser um demonstrativo do poder deletério da domesticação humana?

É possível que a modificação do comportamento provocada pela civilização seja inevitável e indelével? Ao que parece, não. Tal modificação, por mais radical que pareça, é uma resposta à mudança ambiental, e é provável que um retorno ao ambiente original provoque o retorno das características comportamentais originais. Um dos argumentos contrários seria que a plasticidade do aparelho cognitivo humano e sua capacidade de criar cultura determinaria uma pressão seletiva que se sobrepõe à variação do ambiente. Nossa hipótese, porém, é que as mudanças na cultura estão intimamente relacionadas às mudanças ambientais.

Considerar os efeitos das alterações provocadas pela domesticação como desvios ou mesmo patologias também é bastante delicado. O principal argumento para considerar certas modificações como ‘desvios comportamentais’ vem da teoria que relaciona a saúde à harmonia entre indivíduo, espécie e meio. As variações admitidas dentro de uma mesma espécie são limitadas pelo equilíbrio com o meio. Se um grupo de indivíduos adquire características que se distinguem do resto da espécie a ponto de não estarem mais em equilíbrio com o meio, este grupo de indivíduos pode ser considerado como ‘desviante’. O equilíbrio com o meio exige muito tempo para ser construído, e deve ser uma construção mútua entre espécie e meio, não podendo ser forçada por mudanças num único desses lados.

Se a autodomesticação significa a adaptação a um modo de vida insustentável e a perda das características que permitem a adaptação ao ambiente, então ela pode ser eticamente questionada. A única justificativa ética para a autodomesticação seria a garantia de que ao realizá-la não estamos destruindo as condições de vida humana no seu habitat.

É preciso lembrar que estes argumentos às vezes podem ser usados para defender posições moralistas, mesmo que essa não seja a intenção deste artigo. Se o argumento estiver correto, as mudanças no comportamento são apenas sinais de uma adaptação, e não um problema em si. Trata-se de uma questão de etologia humana, não exatamente de moralidade.

Se for aceita legitimamente enquanto problema, a domesticação se enquadraria como questão macro-histórica e macrossocial, de natureza muito diferente das questões políticas convencionais. Mesmo sabendo que nenhum ativismo, movimento ou projeto político pode ser realizado tendo a domesticação como alvo central, a conscientização quanto a essas questões pode levar a uma mudança benéfica de visão de mundo. Por questões de afinidade, tal perspectiva se encontra relacionada ao movimento anti-especista (pelo fim da escravidão animal), que por sua vez se relaciona, ainda que marginalmente, ao ambientalismo.

Notas:

[1] “Os animais domésticos, em sua grande maioria, são menos ‘exigentes’ na escolha de seus alimentos do que o eram os seus respectivos ancestrais selvagens, e por isso mesmo comem quantidades maiores. Praticamente o mesmo pode ser dito em relação ao comportamento sexual de muitas formas domesticadas dos animais, sejam aves ou mamíferos. A atribuição de um valor negativo, pejorativo, ao termo ‘animalesco’ tem sua origem no fato de que o homem conhece muito melhor os animais domésticos.” (LORENZ, 2002, pág. 94)

[2] Segundo um estudo feito na Austrália, um em cada 12 adolescentes, a maioria meninas, causa autolesões propositais, e cerca de 10% desses mantêm esse comportamento na vida adulta. http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/reuters/2011/11/17/um-em-cada-12-adolescentes-se-machuca-de-proposito-diz-estudo.htm

Referências:

AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Biologia das populações: genética, evolução biológica, ecologia. 2. ed. São Paulo: Editora Moderna, 2005.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2004.

DETHIER, V. G.; STELLAR, E. Comportamento animal. São Paulo: Edgard Blücher, 1988.

LORENZ, Konrad. A Demolição do Homem: Crítica à falsa religião do progresso. São Paulo: Editora Brasiliense, 2002.

__________. Os fundamentos da etologia. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

ORTEGA, Francisco. Das utopias sociais às utopias corporais: identidades somáticas e marcas corporais. In: Culturas Jovens: Novos Mapas Do Afeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2006

SLOTERDIJK, Peter. Regras para o parque humano – uma resposta à carta de Heidegger sobre o humanismo. São Paulo: Estação Liberdade, 2000.

UEXKÜLL, Jakob Von. Dos animais e dos homens: digressões pelos seus mundos próprios, doutrina do significado. Lisboa: Livros do Brasil, 1933.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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