Discurso da autonomia no novo capitalismo

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Uma resenha do texto Quadros Superiores de TICs: Mobilidade ou fragilização? da socióloga Cinara Rosenfield (UFRGS).


O capitalismo atual não tende à centralização, mas encontra-se numa fase de forte redução dos níveis hierárquicos. As empresas que hoje dominam o mercado se encontram divididas em unidades autônomas, onde os trabalhadores se organizam em projetos transitórios, que por sua vez são tratados como projetos pessoais; oportunidades para adicionar experiências ao currículo, aumentando seu próprio valor de mercado. Esta forma de organização do trabalho exige graus mais elevados de dedicação e responsabilidade. Os trabalhadores sentem que estão realizando algo de si e para si, graças ao discurso motivacional que os impele nessa direção e inflaciona a crença na competência individual.

Os trabalhadores de TI sentem que podem acumular ‘experiência’ pelo seu desempenho em projetos bem sucedidos, aumentando assim seu nível de empregabilidade no mercado como um todo, tornando-os cada vez mais livres para escolher sua função. Esta busca que parece natural é na verdade uma exigência do processo de fragilização dos vínculos, disfarçada por um discurso de mobilidade. Os trabalhadores valorizam a capacidade de adaptação constante, sentindo-se gestores de suas próprias vidas profissionais. Este é “um novo regime de justificação no qual o destaque é criar e se inserir em redes, ser móvel e polivalente” (ROSENFIELD, 2009, p.2).

O trabalhador deve investir em si e na sua rede, sempre transitória, sendo um empreendedor autônomo, gerenciando seus próprios recursos emocionais em projetos que ele trata como seus. Ele considera isso uma estratégia pessoal, sem perceber que está sendo pressionado pela instabilidade do mercado, no qual o conhecimento acumulado não é de fato um critério para o sucesso, dado que tudo pode mudar de uma hora para outra.

A trajetória profissional é marcada por um nomadismo, em que a flexibilidade é na verdade causada por uma precarização da segurança profissional. A adaptabilidade implica em aceitar riscos cada vez maiores, estar sempre pronto para começar de novo. Isto porque o mercado tem fome do novo, e precisa descartar o velho numa velocidade crescente. A capacidade de cumprir metas passa a ser o critério para a autoimagem do trabalhador, o que afeta diretamente sua autoestima e sua vida pessoal. “Como a gestão de si mesmo e o sucesso pessoal são condições de permanência e ascensão, não há segurança de êxito senão sob a forma de fortalecimento do ‘eu’ e na crença moral do reconhecimento do valor do seu trabalho” (ROSENFIELD, 2009, p.4). Na prática, apenas o seu sucesso é valorizado, não o seu trabalho. O seu sucesso pessoal será também o sucesso da empresa, porém o seu fracasso será inteiramente seu.

Podemos comparar essa estrutura com a das redes sociais. A trajetória profissional do empreendedor é como uma série de aventuras, cada qual com sua recompensa, que eleva suas habilidades e abre possibilidades para aventuras mais difíceis, com recompensas maiores, e assim por diante. O processo é cíclico e sem fim. Entre uma aventura e outra, ele conhece indivíduos, socializa com eles, forma grupos transitórios, faz amizades e inimizades. Tudo isso é considerado como estilo de vida emocionante e envolvente. Este estilo de vida propaga um discurso contra a heteronomia e a autoridade, pois o gerenciador de si mesmo sente que eliminou a pressão coercitiva do chefe, sem perceber que assimilou internamente os imperativos do mercado. “O risco e a aventura aparecem como um novo ‘bem-viver’, sem poder coercitivo e livre das amarras da heteronomia típica da organização do trabalho” (ROSENFIELD, 2009, p.4).

Rosenfield também destaca a reabilitação do trabalho enquanto “obra”, isto é, criação própria do trabalhador, mas lembra que isto não passa de uma justificação moral. Há um paradoxo no discurso do sucesso pessoal, pois o sujeito coloca-se como senhor de seu próprio destino, quando na verdade esta é a condição de uma institucionalização da instabilidade, onde o sujeito é levado a sacrificar uma parte cada vez maior do seu tempo de vida para alcançar resultados mais competitivos.

Este paradoxo se torna mais claro quando consideramos as normas morais que devem ser assimiladas pelo trabalhador assalariado, em comparação com um escravo. O trabalhador tem a aparente liberdade de escolha, mas a rotina de trabalho exige que ele permaneça mentalmente cativo ao trabalho, de forma que ele não é mais dono dos seus próprios pensamentos. Sua forma de pensar deve ser dedicada exclusivamente ao trabalho, uma vez que este agora exige também sua criatividade, e todos os aspectos do seu ser.

O novo espírito do capitalismo é “marcado pela valoração da construção de redes” (ROSENFIELD, 2009, p.6). As redes representam um modelo altamente instável, onde os elementos perdem seu poder de agregação, se tornando partes destacáveis, que podem ser conectadas e desconectas com igual facilidade. E o critério de conexão depende do capital. Não apenas ‘capital-dinheiro’, mas ‘capital-destreza’. Gerenciar riscos de investimento significa gerenciar a sua própria vida, pois os novos capitalistas se tornam eles mesmos uma espécie de capital. Se o executivo não tiver a capacidade de se desfazer dos esquemas tradicionais, será descartado com eles.

Os novos trabalhadores tendem a considerar essa flexibilidade ou mobilidade da organização de trabalho como uma liberdade, quando na verdade eles precisam agir em função de não serem excluídos por uma crescente instabilidade imposta pelo modelo atual do capitalismo. Enquanto o discurso da empresa é que o trabalhador deve fazer um compromisso consigo mesmo, a realidade é que ele depende do crescimento dos lucros da empresa, e do sucesso do modelo capitalista como um todo. Ele só pode gerir sua própria vida em função das regras do capital, tal como uma empresa.

O discurso da empregabilidade está voltado à crença num senso de autonomia, em que o sujeito realiza a si mesmo no projeto ao qual foi encarregado. “Os projetos da empresa devem combinar-se a um projeto de desenvolvimento pessoal” (ROSENFIELD, 2009, p.8). Este discurso da autogestão possibilita um distanciamento dos destinos, ou descompromisso mútuo disfarçado de responsabilidade pessoal, em que os riscos das empresas são externalizados para os trabalhadores enquanto indivíduos.

Rosenfield chama esse processo de institucionalização da instabilidade. Dentro de uma mesma empresa, não há mais garantias de poder continuar empregado sem diversificar competências. Logo, a habilidade mais importante é não permanecer o mesmo. A isso, também se soma um processo de individualização, em que mesmo parceiros são, ao mesmo tempo, concorrentes em potencial. “Pode-se afirmar que encontrar equilíbrio entre mobilidade como alargamento do leque de experiências e estabilidade como projeção para o futuro é uma tarefa paradoxal” (ROSENFIELD, 2009, p.11). Isso pode ser explicado pelo fato de que a disposição para a mobilidade é mais comum entre trabalhadores mais jovens. Na medida em que eles envelhecem, procuram mais estabilidade, reduzindo sua capacidade de adaptabilidade.

O trabalhador assume o ônus da instabilidade, pois eventualmente sua mobilidade na rede será reduzida, e ao fim ele dificilmente conseguirá manter-se numa trajetória ascendente ou mesmo estável. Por outro lado, manter o ritmo significa também manter o nível de stress. Também recai ao trabalhador a tarefa de gerenciar suas emoções, e manter controle da ansiedade gerada no trabalho. O ambiente dinâmico significa muito mais pressão sobre a gestão do próprio tempo, que tende a se refletir no isolamento e na fragilização dos laços sociais dentro e fora do trabalho, além de problemas psicológicos, uso de aditivos para manter o desempenho, etc…

Rosenfield chama este ethos social de individualismo sem sujeito. O individualismo está na autogestão dos percursos profissionais, que excluem compromissos com outros percursos, ocorrendo de forma independente. Mas ao mesmo tempo o sujeito está morto, já que a “autogestão dos percursos profissionais traz consigo a busca incessante por uma progressão infinita” (ROSENFIELD, 2009, p.14), isto é, porque não há mais um ponto a ser alcançado, mas o ato de percorrer se torna um fim em si mesmo.

O trabalhador autônomo de fato é responsável pela sua própria mutilação em nome do sucesso pessoal. Dessa forma, se disfarça a violência inerente ao processo produtivo com a fachada de uma doação voluntária, única alternativa na busca de reconhecimento. O trabalhador negocia a si mesmo. Ao mesmo tempo em que sua identidade profissional se torna seu próprio nome, sua própria identidade se torna tão transitória quanto sua função.

Rosenfield conclui que este discurso de mobilização é uma justificação para a precarização. O sucesso pessoal está relacionado à fragilização do laço social, isto é, quanto maior o fortalecimento do ‘eu’, maior o enfraquecimento dos vínculos sociais. A tensão da adaptabilidade infinita acaba gerando um esgotamento da capacidade do indivíduo de se relacionar sem essa mesma tensão. O que é exigido dele pode se tornar o que ele exige de si mesmo e dos outros, a saber, a obrigação de crescimento ou impermanência como condição de existência.

Para conquistar reconhecimento, não basta fazer um bom trabalho, é preciso ficar em evidência, impedindo que o mérito seja dividido completamente entre todos. “A gestão permanente do ‘eu’ faz da subjetividade elemento a ser administrado com o intuito de configurar estratégias bem sucedidas” (ROSENFIELD, 2009, p.19), o que significa que o novo capitalismo valoriza as subjetividades, mas apenas na medida em que elas possam gerar resultados aproveitáveis. O discurso da autonomia enaltece este indivíduo que administra sua subjetividade para a produtividade como um profissional bem sucedido.

Assim, o discurso oculta a relação da autonomia do indivíduo com o processo macro social da precarização, porque foca a performance individual, mas não o que se está construindo como um todo. Rosenfield cita a teoria Axel Honneth como uma contribuição importante para entender este paradoxo. A concepção normativa da emancipação é separada de suas consequências destrutivas. Os indivíduos não compreendem o papel do capitalismo na fragilização dos laços, porque aprenderam que são donos do próprio destino. Eles pensam que a manutenção do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal depende apenas deles mesmos. Na prática, este equilíbrio está sendo continuamente atacado pelo modelo de produtividade, mas os indivíduos aceitam as perdas na esfera privativa como um preço inevitável a se pagar para manter as condições de empregabilidade em ascendência.

Em outras palavras, ao transferir a responsabilidade para os trabalhadores, criou-se também um discurso de justificação, onde o papel do capitalismo desaparece. Justifica-se a aceitação do mercado como condição para vitória, mas um ato não pode ser eticamente justificado meramente por ser condição de vitória. Tendemos a pensar que o custo é sempre justificado se este for escolhido pelo sujeito. O capitalismo só é reconhecido nos processos de maior acúmulo de capital, por isso o novo capitalista pode não se considerar capitalista, porque acredita que está sendo apenas um agente econômico autônomo, visando um lucro equilibrado. Isto é, não é um escravo, mas também não é um dono de escravos. A verdade seria mais ou menos a seguinte: fundiram-se os papéis, de forma que agora os escravos gerenciam a si mesmos, mas continuam escravos do capital. “A justificação é um raciocínio moral que demonstra a aceitabilidade e plausibilidade da norma, no qual desaparecem as formas de dominação, assim como os constrangimentos e coerções de natureza social” (ROSENFIELD, 2009, p.21).

Para Rosenfield, a institucionalização da instabilidade é tanto econômica quanto social, gerando um quadro de crescente incerteza, insegurança e imprevisibilidade em todas as relações sociais. A precarização social não se reflete no aspecto da remuneração, da liberdade, da equidade e da segurança do ambiente de trabalho. Os direitos do trabalhador continuam assegurados. A questão é mais profunda. O trabalho é inserido na subjetividade, tornando-se uma paixão, algo ao qual o indivíduo está pessoalmente engajado, mudando assim a semântica do trabalho.

“A precarização social significa, pois, um direcionamento da responsabilidade social para uma crescente individualização” (ROSENFIELD, 2009, p.23). Na internalização do senso de responsabilidade individual, o sujeito adere ‘de livre e espontânea vontade’ a uma racionalidade que fragiliza os laços sociais, pois ele precisa corresponder ao modelo de comportamento esperado de alguém que é senhor do seu destino, seguindo as normas invisíveis do capitalismo.

Assim, o trabalhador não consegue ver sua verdadeira relação com a economia global. “As noções de empregabilidade, de autogestão de carreira, de empreendedor de si mesmo impedem de perceber o trabalho como uma forma de contribuição individual ao todo social, pois o mérito dessa contribuição retorna ao sujeito sob a forma de sucesso do ‘eu’ e de mérito pessoal” (ROSENFIELD, 2009, p. 24). Este sujeito não percebe que está se adaptando a mudanças no mercado de trabalho. Pode até acreditar no contrário. Em resumo: “O individualismo é autonomia e também fragilização social” (ROSENFIELD, 2009, p.24).

Referência:

ROSENFIELD, C. L. Quadros Superiores de TICs: Mobilidade ou fragilização?. In: 33º Encontro Anual da ANPOCS, 2009, Caxambu – MG. 33º Encontro Anual da ANPOCS, 2009.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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