Sobre a convicção prejudicial

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Este é um texto antigo revisado para esta publicação.

“Um proprietário de navios estava prestes a mandar para o mar um navio de emigrantes. Ele sabia que o navio estava velho, e nem fora muito bem construído; que vira muitos mares e climas, e com frequência necessitara de reparos. Dúvidas de que possivelmente não estivesse em condições de navegar lhe haviam sido sugeridas. Essas dúvidas lhe oprimiam a mente e o deixavam infeliz. Ele chegou a pensar que o navio talvez tivesse de ser totalmente examinado e reequipado, ainda que isso lhe custasse grandes despesas. No entanto, antes que a embarcação partisse, conseguiu superar essas reflexões melancólicas. Disse para si mesmo que o navio passara por muitas viagens e resistira a muitas tempestades em segurança, que era infundado supor que não voltaria a salvo também dessa viagem. Ele confiaria na Providência, que não podia deixar de proteger todas essas famílias infelizes que estavam abandonando a sua terra natal em busca de dias melhores em outro lugar. Tiraria de sua cabeça todas as suspeitas mesquinhas sobre a honestidade dos construtores e empreiteiros. Dessa forma, ele adquiriu uma convicção sincera e confortável de que o seu navio era totalmente seguro e capaz de resistir às intempéries; assistiu à sua partida de coração leve e cheio de votos bondosos para o sucesso dos exilados naquele que seria o seu estranho novo lar; e embolsou o dinheiro do seguro, quando o navio afundou no meio do oceano, sem contar histórias a ninguém.

O que devemos dizer desse homem? Sem dúvida, o seguinte: que ele foi de fato culpado da morte desses homens. Admite-se que ele acreditava sinceramente nas boas condições de seu navio; mas a sinceridade de sua convicção não o ajuda de modo algum, porque ele não tinha o direito de não acreditar na evidência que estava diante de si. Não adquirira a sua opinião conquistando-a honestamente pela investigação paciente, mas reprimindo as suas dúvidas…”

– William K. Clifford, The ethics of belief (1874), grifos meus

Até onde vai nosso direito à convicção pessoal? Podemos acreditar que um anjo irá proteger uma criança, logo não precisamos nos preocupar com sua segurança quando brinca com algo perigoso? Ou que Deus irá salvar o mundo dos maus, da destruição ambiental, do abuso de poder? Temos esse direito?

A convicção às vezes reforça nossos interesses pessoais em permanecer com nosso privilégio, ou evitar responsabilidades. Criamos crenças que não combinam com a realidade visível para reprimir nossa mente de qualquer dúvida que possa induzir à reavaliação do nosso comportamento e de nossos valores. Evitamos as dúvidas que nos obrigam a reestruturar nossa mente, a questionar nosso padrão de vida. Negamos evidências em nome de algo que se deseja. Mentimos para nós mesmos e para outros sobre como aquilo que nos beneficia é o melhor para todos.

A convicção é prejudicial quando é criada para manter um conforto. Acusamos os outros de pessimismo mesmo quando nosso otimismo é injustificado. O verdadeiro interesse por trás da confiança cega no nosso modo de vida é o interesse de preservar um status, um conforto, um privilégio e as coisas às quais já nos tornamos dependentes.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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