Sinais de que você está vivendo numa sociedade abusiva

Relacionamento Abusivo

Um ensaio sobre a relação entre controle social e relacionamentos abusivos.

Será que a sociedade atual trata as pessoas como um abusador trata sua namorada? Essa ideia foi levantada por Derrick Jensen, escritor americano contemporâneo, autor do livro Endgame (2006), onde faz uma crítica à civilização enquanto cultura abusiva. Você pode conferir isso nesta entrevista para o documentário Eco Warriors e nesta entrevista para a revista Counter Punch. Ele diz que teve essa ideia depois de ler um livro de Lundy Bancroft, chamado Why Does He Do That?: Inside the Minds of Angry and Controlling Men (2002), e relacionar sua crítica social à convivência com seu pai abusivo.

Parte da filosofia de Jensen se foca em analisar o conflito social como um conflito pessoal, de modo semelhante a como as corporações são analisadas no documentário A corporação (2003). A partir dessa abordagem, a sociedade civilizada é caracterizada como tendo comportamentos disfuncionais e antissociais, violentos e abusivos. Sua análise da violência civilizada a compara à violência doméstica, em especial quanto à questão de que as vítimas muitas vezes permanecem em negação, defendendo seu abusador e rejeitando qualquer crítica a ele. Ele se considera um crítico radical da cultura opressora e expansionista, e essa crítica foi elogiada por outros autores da anarquia verde, como John Zerzan, apesar deste criticar as atitudes autoritárias de Jensen posteriormente.

Essa leitura da “psicopatologia da economia industrial global” dá novos contornos para crítica aos impactos ambientais e aos modos de vida nativos, fora da lógica do ambientalismo convencional. Mas o tom de Jensen flerta com o alarmismo. Seu objetivo é convencer as pessoas a se engajar totalmente numa luta até a morte contra o sistema. Jensen se envolveu numa série de controvérsias ao liderar o movimento radical Deep Green Resistance (Resistência Verde Profunda) ao lado de Lierre Keith, como por exemplo acusações de autoritarismo e intolerância. Mas isso não vem ao caso agora agora. Meu objetivo é pegar essa ideia de investigar a psicopatologia social do abuso e as relações entre opressão sistêmica, cultural e estrutural com as características de uma relação pessoal de abuso, e tentar chegar às minhas próprias conclusões.

Essa discussão começou com a crítica ao pacifismo, a questão da violência revolucionária e seu papel para ativistas radicais, especialmente como forma de autodefesa ou resistência. E, estranhamente, Jensen entrou nessa discussão enquanto pesquisava sobre questões de linguagem. Em Language older than words (2000) e num artigo chamado Ações falam mais que palavras, Jensen afirma: “Toda manhã, quando acordo eu me pergunto se devo escrever ou explodir uma represa. Eu digo a mim mesmo que devo continuar escrevendo. Não tenho certeza se isso é certo”.

Jensen passou a apoiar o uso da violência como forma legítima de luta contra o sistema, embora esse discurso seja atenuado pela ideia de que não se trata de advogar pela violência pura e simples, mas pela ideia de que é preciso usar tudo que for necessário para derrubar o sistema, ou seja, excluir a violência como possibilidade seria uma forma de desmobilização. Porém, ele também afirma que o diálogo com o opressor é impossível, que a esperança de uma mudança de atitude é uma ilusão prejudicial e que é preciso destruir a relação a qualquer custo. Num mundo onde não há para onde correr, onde nos vemos economicamente dependentes desse sistema, a única saída seria atacar seus representantes, os donos do sistema.

Para além da violência física, porém, a grande questão em voga hoje é a violência emocional ou psicológica. E esse é o ponto que eu gostaria de me ater aqui. As mesmas ferramentas que abusadores usam para controlar, manipular, humilhar e oprimir pessoas em relacionamentos abusivos tem sido usadas em debates cotidianos sobre política e até nas relações públicas. Logo, o que as feministas tem produzido para compreender e responder a essas formas de abuso sutil se mostra útil para a militância anarquista e anti-capitalista como um todo. Então, vamos começar pelo primeiro ponto:

Como reconhecer um relacionamento abusivo?

A imagem que ilustra esse post foi criada usando algumas das frases encontradas neste site sobre como identificar relacionamentos abusivos. Alguns conceitos usados pelas psicólogas que estudam relacionamentos abusivos podem ser úteis aqui. Por exemplo, o conceito de gaslighting ou abuso emocional. Esta é uma técnica mais insidiosa de abuso, mais difícil de detectar, e por isso pode ser tão danosa. A pessoa normalmente leva um bom tempo para compreender que está sendo vítima desse tipo de abuso, e enfrenta uma série de dificuldades para admitir que isso está acontecendo, o que permite que o abusador aprofunde a dependência e a intimidade, dificultando ainda mais que a vítima se desvencilhe dele. O gaslighting é uma forma gradativa de manipulação que faz a vítima questionar a própria sanidade ao invés de questionar seu abusador, e então ela acaba se culpando pelo abuso que sofre.

Analisando discussões sobre política nas redes sociais, podemos perceber que a extrema-direita usa técnicas muito parecidas com o gaslighting. Nas relações públicas, as técnicas de “bait-and-switch” e “firehousing” também demonstram semelhanças com esse tipo de abuso. A primeira diz respeito a soltar um boato e depois desmenti-lo, para fazer parecer que a oposição é meramente desonesta, afetando a credibilidade dela e elevando a sua. A segunda se trata de dizer uma mentira atrás da outra, sem se preocupar com a própria credibilidade, mas simplesmente para minar o próprio conceito de credibilidade ou confiança. Se não temos mais acesso à verdade, qualquer discurso serve, e assim cada um se atém à narrativa que preferir, por qualquer motivo que seja, incluindo motivos pessoais.

Quando o governo ou as pessoas que o defendem tentam minar a oposição com técnicas como essas, reduzindo automaticamente qualquer oposição a uma doença, insanidade, ignorância, desonestidade, doutrinação ou um pensamento sem validade lógica, a questão política começa a se aproximar de uma questão de abuso psicológico. Pois como qualquer abusador, o sistema se foca em diminuir a auto-estima de suas vítimas e elevar a própria, e por fim estimular a pessoa a apenas reproduzir o abuso. Embora seja realmente superficial demais comparar o monopólio do uso da força que fundamenta o Estado com a ameaça implícita de uso da força num relacionamento abusivo, o ponto é aqui é como, no atual contexto social, pessoas podem estar fazendo uso dos mesmos tipos de técnicas psicológicas para fins políticos.

Um ponto importante é que o abuso emocional não atinge apenas pessoas “de mente fraca” ou “que não estudaram”. Abusos emocionais independem do quanto a pessoa é inteligente, ou mesmo o quanto ela sabe sobre formas de abuso. Porque seu fundo é emocional e não racional, por maior que seja a capacidade racional da pessoa, ela pode usar essa capacidade para criar dispositivos racionais que justificam o abuso ao invés de questioná-lo. Este tipo de negação é chamada de racionalização, tal como ocorre entre dependentes de drogas e portadores de certas patologias. Inteligência e grau de escolaridade não é garantia de maior resiliência às técnicas de abuso. Então…

Como sair de um relacionamento abusivo?

Identificar os sinais de abuso é apenas o primeiro passo. É preciso compreender que os relacionamentos abusivos normalmente seguem um ciclo. Após entrevistar 1500 vítimas de violência doméstica, a psicóloga Lenore Walker criou, em 1979, a teoria do ciclo do abuso, identificando 4 estágios distintos:

  1. Acúmulo de tensão: Conflitos cotidianos que não são resolvidos vão formando um estresse cumulativo. A parte abusiva da relação sente que está sendo ignorada, ameaçada, incomodada ou injustiçada. A cultura conservadora diz que seus valores estão sendo esquecidos ou destruídos, por exemplo. Cada novo “descaso” em relação às expectativas do abusador vai alimentando uma irritação crescente. Para evitar a violência, a outra parte pode procurar reduzir a tensão, fazer concessões e tentar agradar mesmo fazendo coisas que não queria, tornando-se mais submissa e dando mais atenção às necessidades da parte abusiva. Mas isso é como encher um balão que uma hora vai estourar. É insustentável.
  2. Explosão de violência: A tensão acumulada é liberada de modo repentino e violento, seja na forma de violência verbal, física ou chantagem emocional. A parte abusiva se sente no direito de controlar a outra parte, a acusa de passar dos limites, e pode enxergar sua atitude como uma medida necessária diante de uma situação emergencial. A liberação da energia reduz a tensão e o agressor pode sentir ou expressar que a vítima teve o que mereceu.
  3. Reconciliação: O abusador pode começar a sentir remorso, sentimentos de culpa ou temer que seu parceiro reaja de algum modo que o prejudique, ou peça ajuda a outra pessoa, expondo-o à vergonha pública. A vítima sente dor, medo, humilhação, desrespeito, confusão e pode sentir-se culpada ou responsável por isso. A parte abusiva pede desculpas, oferece algum conforto ou consolação, ou promete que isso nunca mais irá acontecer, que irá mudar e melhorar. Os agressores podem sentir ou alegar sentir remorso e tristeza, apelando para a compaixão e a importância do perdão. Pode também se auto-punir de modo desproporcional e fazer ameaças de suicídio. Nessa fase, as pessoas inseguras, dependentes ou com medo de perder podem aceitar dar “mais uma chance” repetidas vezes, mesmo quando o abuso é nítido, convencendo-se de que “o amor fala mais alto”.
  4. Calmaria: Logo após a reconciliação, há um período de aparente normalidade, onde momentos de intimidade e paixão são construídos ou revividos. Mas com o passar do tempo, a fachada de arrependimento vai desvanecendo, e o ciclo recomeça.

Alguns fatores que dificultam o fim de um relacionamento abusivo, segundo este site:

  • A sociedade normatiza o comportamento doentio.
  • O abuso emocional destrói sua auto-estima.
  • Dependência financeira ou emocional, direta ou em relação aos filhos.
  • Pode ser muito perigoso ou pesado abandonar a relação.
  • A pessoa se sente pessoalmente responsável pelo comportamento do abusador.
  • A crença de que se você tentar bastante, ele pode mudar.
  • A pressão social para parecer que está bem e o medo de como familiares e amigos podem reagir.
  • A pessoa se “esquece” de como era a vida antes desse relacionamento.

Como quebrar esse ciclo? Psicologia não é minha área, mas eu imagino que haja uma bibliografia extensa sobre isso. Meu ponto aqui é somente indicar como isso pode ser usado para criticar e combater a sociedade capitalista. Ou seja, como o ciclo do abuso se relaciona com o ciclo da dominação capitalista:

Primeiro, o processo de acumulação de capital produz crises econômicas e acumula tensão entre as classes, ou ainda, tensão política contra minorias, estrangeiros ou qualquer grupo social que possa ser acusado de afundar a economia do país. O acúmulo dessa tensão leva à acensão de regimes autoritários ou totalitários, fascismo, intolerância e moralismo. Nessa fase vemos a idolatria a figuras populistas, “salvadores da pátria”, que irão fazer o que for necessário para corrigir a situação: Estado de exceção, perda de direitos, censura, guerra civil, campos de concentração… Então, temos a reconciliação. A eleição de um representante de um dos grupos que foram perseguidos como novo e verdadeiro “salvador da pátria”, que promete fortalecer a democracia e criar políticas sociais de redistribuição de renda. Enfim, um governo de conciliação de classes. Este momento, porém, dura pouco. As elites se cansam de ceder, a bolha de crescimento econômico estoura, a crise retorna, e com ela o ciclo recomeça. O capitalismo é insustentável, mesmo que se reinvente constantemente.

Por que não conseguimos sair disso? Um dos motivos, que anarquistas tem enfatizado faz tempo, é que nos falta a confiança de que podemos fazer as coisas por conta própria, ou seja, viver sem depender de um sistema de governo representativo, sem depender de senhores, de pessoas acima de você, de donas do mundo. Neste ponto, anarquistas tem liderado pelo exemplo, por meio da ação direta, estimulando momentos de liberdade radical que elevam o desejo de permanecer livre para sempre, e não só temporariamente ou falsamente. Construindo espaços em que corpos rebeldes possam se expressar autenticamente, se fortalecer e elevar sua auto-estima, sua confiança de que não só podem como devem se livrar dos abusadores, não apenas negociar com eles.

Assim como a ideologia burguesa mantém as pessoas na crença de que se cooperarem com o capital não serão abusadas, a ideologia civilizatória mantém as pessoas na crença de que a sociedade de massas pode ser reformulada de modo que se torne sustentável ou respeite todos os seres vivos. Se tantas pessoas tratam o capitalismo como um resultado neutro ou natural do desenvolvimento humano, mais ainda tratam a colonização e a escravidão como consequência do desenvolvimento social ou da evolução humana. A alienação em relação ao controle inerente da cultura tecnicista sobre a natureza é ainda mais profunda que a alienação em relação às condições econômicas do trabalho assalariado.

Não há nada mais normatizado do que as relações sociais civilizadas. E a organização estatal destrói a auto-estima humana, fazendo-nos crer que somos falhos simplesmente por sermos humanos, por termos certos instintos que não conseguimos controlar, colocando a culpa no humano e justificando que a civilização eleve seu grau de controle sobre a natureza humana, ainda que sob a fachada de autocontrole. Nos torna dependentes de um sistema tecnológico totalitário, um sistema de produção que exige avanço técnico acelerado, que se torna um fim em si mesmo. Ameça aqueles que ainda resistem a esse modo de vida, trata genocidas de populações indígenas como heróis. Joga a responsabilidade de tudo nas escolhas individuais, no simples uso do que foi oferecido, ocultando os custos, externalizações de prejuízos e fatores sociais da produção em larga escala. Estimula a crença de que a tecnologia pode resolver tudo, basta investirmos o suficiente nela. Nos faz sentir vergonha se não participamos do esquema, se não cooperamos com o sistema. E por último, apaga o passado, nos fazendo esquecer como era a vida humana antes da sociedade industrial, nos fazendo desprezar este período que abrange 99% do tempo de existência de seres humanos neste planeta.

Se alguns consideram que a violência doméstica é uma questão secundária ou de menor abrangência política, por outro lado a economia é uma questão menor comparada à violência ecológica da sociedade industrial. A exploração do trabalhador, uma questão secundária em relação à dominação da natureza humana. Ao invés de diminuir ainda mais o papel da luta contra a violência em relacionamentos abusivos, a amplitude da questão reconecta a violência cotidiana à violência histórica da sociedade. Questiona o economicismo e se volta para os aspectos relacionais: as formas de controle e manipulação, retórica, negação dos afetos, do corpo, do amor, da paixão, do sexo e da intimidade.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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