Estrutura das ficções interativas

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No sentido mais amplo, ficções interativas são obras literárias onde a leitora pode interagir com a narrativa enquanto ela está acontecendo, o que faz com que a leitora faça parte do processo de co-criação.

No sentido específico, são jogos eletrônicos, narrativas textuais interativas mediadas por um programa de computador, onde a leitora/jogadora é convidado a interferir, controlando as ações de um ou mais personagens.

A ficção interativa é geralmente narrada na segunda pessoa. O texto diz algo como ‘Você está diante de uma bifurcação. Para que lado você quer ir?’, e a leitora tem opções como ‘esquerda’ ou ‘direita’.

A estrutura narrativa das ficções interativas é composta de partes que não estão arranjadas em ordem linear, mas sim num padrão de rede. A conexão das partes é definida pelas escolhas da leitora de acordo com as opções dada pela autora.

Por causa disso, uma ficção interativa não pode ser reduzida a um simples encadeamento de dados, como um disco ou um livro. Ela tem duas formas: a forma inerte e a forma ativa. A forma inerte é o código que contém sua programação, é sua potencialidade. Esta é a forma com que é produzida pela autora. A forma ativa é a forma como ela é lida, sua manifestação ou atualização. A forma ativa é uma expressão variável da forma inerte. As regras que organizam o funcionamento da parte expressiva da obra permanecem ocultas na forma inerte, assim como o código de um software permanece oculto pela interface de um programa.

A autora deve usar um raciocínio relacional ao escrever uma ficção interativa, pois cada elemento adicionado afeta o resultado final. A leitora que lê a forma inerte da obra não experimenta a obra diretamente, ela apenas conhece os elementos e as regras de funcionamento. A leitura da parte inerte não é interativa, ou seja, o que a autora escreve não é exatamente a obra em si, mas as condições de possibilidade de várias “obras”, que dependem da leitora para se realizarem. O papel da autora e da leitora mudam nessa estrutura.

A forma ativa pode ter tantas possibilidades que se torna impossível conhecer todas elas, mesmo para a autora. A leitora aprecia uma faceta da história. Uma faceta que, por ser direcionada por suas escolhas, não permite que ela fique passiva. A leitora adquire responsabilidade parcial pelos rumos que a narrativa toma, e por isso se torna co-autora.

O raciocínio da leitora, provocado pelo conflito da narrativa, é uma parte da ficção interativa. O modo com que a leitora interage com a obra afeta a narrativa decisivamente, ao invés de apenas interpretativamente. Em uma ficção tradicional, a autora pode nos esconder informações que fazem parte da narrativa como ela a pensou, mas esta permanece uma realidade imutável. A autora pode até mesmo adicionar efeitos de neutralidade ao relato de um evento para que cada leitora faça seu próprio julgamento, mas este julgamento não afeta o curso da narrativa. Numa ficção interativa, a maneira com que se desvela um mistério é muito mais dependente da intersubjetividade entre leitora e autora do que da interpretação do texto.

Por exemplo, num conto interativo ambientado num quarto é possível que a autora tenha determinado que existe uma bola embaixo da cama. O texto inicial poderá não dar indicação alguma disso, descrevendo apenas um quarto com uma cama. A leitora só descobre a bola quando, ao imaginar que possa haver algo embaixo da cama, decide verificar. Se ela não faz essa escolha, a personagem não verá bola, assim a bola não existirá naquela narrativa, embora sempre estivesse lá.

Quando alguém resolve olhar embaixo de uma cama numa ficção interativa, esta ação é motivada por uma curiosidade semelhante à que levaria alguém a fazer esta mesma ação no mundo real. O significado daquela ação será diferente para cada leitora, na medida em que seus motivos para escolher esta ação em particular são subjetivos. Isso adiciona complexidade à obra interativa, criando uma sensação de envolvimento maior entre leitora e obra. Não apenas é uma narrativa ramificada, mas o que chamaríamos de uma experiência complexa.

Numa ficção interativa, a leitora precisa necessariamente estar envolvido na narrativa para que ela possa se desdobrar, pois ela não pode ser lida passivamente. Quando há um desafio, a leitora precisa imaginar a situação descrita com o máximo de detalhes possível, e construir uma solução viável. A narrativa, nesse sentido, não é dada à leitora, ela deve procurá-la por tentativa e erro. Algumas escolhas podem levar a consequências indesejáveis, levando ao fim prematuro da narrativa, ou exigindo correção. Certos desafios podem exigir que a leitora resolva desafios de lógica, memória ou coordenação motora.

A interação permite um diálogo com a obra. Ele depende da recepção, e provoca uma resposta da própria ficção. A autora pode então verificar a compreensão da leitora antes de passar para outra parte da narrativa, por meio de desafios que exigem uma resposta correta da leitora.

Dessa forma, a autora não apenas espera que a leitora experimente diferentes leituras, mas que desempenhe também o papel de co-autora da narração. Ela presta mais atenção, tanto aos detalhes quanto ao sentido da obra, quando participa ativamente da narração.

Outra característica da ficção interativa é a identificação com a personagem principal. Sem identificação a leitora não se sente inclinado a fazer uma escolha relevante, e sem sua escolha o processo de leitura se interrompe. Algumas leitoras preferem escolher as ações da personagem com base no que elas fariam se estivessem em seu lugar. Outros preferem não pensar como elas mesmas e interpretam a personagem seguindo sua descrição ou a imagem que elas criaram dela. A ficção interativa precisa da subjetividade da leitora para se fazer completa e adquirir sentido, e isso se torna mais evidente na criação da personagem.

Independentemente de como a leitora prefere encarar suas escolhas numa ficção interativa, ela precisa se identificar com a questão que está tentando solucionar. Numa ficção tradicional o raciocínio da leitora não é decisivo para a personagem, por isso a leitura não exige o mesmo esforço cognitivo. A psicologia tem usado de formas de ficção interativa, como a dramatização, para envolver indivíduos em situações imaginadas e analisar suas escolhas.

As características próprias das ficções interativas, além de trazerem uma nova e interessante categoria literária a ser explorada, podem ser usadas como ferramentas educacionais. O conceito já é conhecido e aplicado, embora não extensivamente. A ficção interativa adiciona um grau mais intenso de intersubjetividade à literatura e à comunicação áudio-visual, relacionando-se com a teoria da realidade virtual e do hipertexto. Espera-se que ela seja usada como uma forma mais ampla de transmitir ideias de forma não ostensiva.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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