Por que você não pode ter livre mercado e salvar o planeta ao mesmo tempo

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chuyuss / shutterstock

Tradução do original: https://theconversation.com/why-you-cant-have-free-trade-and-save-the-planet-94128

Autor: Alf Hornborg, professor de Ecologia Humana da Lund University.

Quando Donald Trump anunciou recentemente as tarifas sobre as importações de aço e alumínio, ele foi condenado pelos defensores do livre comércio em todo o mundo. Seus críticos disseram que o presidente dos EUA não havia entendido como as políticas protecionistas representariam um desastre para a economia mundial. Justo. Mas este é o mesmo Trump cuja decisão de retirar-se do acordo climático de Paris também encontrou uma desaprovação maciça.

Trump é censurado simultaneamente por se recusar a reduzir as emissões e por promover uma política comercial que reduz as causas de tais emissões. Ambos os conjuntos de críticos podem estar certos em seus próprios termos, mas a contradição entre as duas reprovações expõe grandes problemas na visão de mundo moderna dominante. É realmente razoável defender mais comércio e maior preocupação com o meio ambiente?

Durante séculos, o comércio mundial aumentou não apenas a degradação ambiental, mas também a desigualdade global. As pegadas ecológicas em expansão das pessoas ricas são injustas e também insustentáveis. Os conceitos desenvolvidos nas nações mais ricas para celebrar o “crescimento” e o “progresso” obscurecem as transferências líquidas de tempo de trabalho e recursos naturais entre partes mais ricas e mais pobres do mundo.

Per capita net imports of resources to the EU, Japan and US in 2007. Dorninger and Hornborg, 2015, Author provided

Por exemplo, a família de um casal americano médio com um filho tem o equivalente a um servo invisível trabalhando em tempo integral para ele fora das fronteiras do país, enquanto o domicílio japonês médio com um filho usa três hectares de terra no exterior. No entanto, tal assimetria material parece ser uma questão secundária para os economistas convencionais, que continuam a afirmar os benefícios gerais do livre comércio.

Essa mesma ignorância é particularmente aparente na luta contra as mudanças climáticas. A maioria dos ambientalistas e pesquisadores acredita em novas tecnologias para aproveitar o sol e o vento, e espera que os políticos possam ser persuadidos a agir. Mas os painéis solares e parques eólicos não são apenas produtos da genialidade humana que nos foram revelados pela natureza. Nem são chaves mágicas para energia ilimitada.

As tecnologias de energia renovável surgiram nesta sociedade humana específica — com desigualdade, globalização e tudo mais — e sua própria viabilidade depende dos preços do mercado mundial. Como outras tecnologias modernas, elas dependem do alto poder de compra interno combinado com mão-de-obra asiática barata, terra brasileira ou cobalto congolês.

DR Congo is the world’s biggest source of cobalt, used in batteries. bms. zealand / shutterstock

Há quase 50 anos, o economista ecológico Nicholas Georgescu-Roegenalertou que a noção de que a energia solar poderia substituir a energia fóssil era uma ilusão, porque exigiria enormes volumes de materiais para aproveitar as quantidades necessárias de luz solar difusa para satisfazer uma sociedade moderna de alta tecnologia. Alguns desses materiais são raros e caros e degradam o meio ambiente. Além disso, o Programa Ambiental das Nações Unidas recentemente alertou que o mundo está caminhando para um desastre ecológico, a menos que usemos menos recursos por dólar de crescimento econômico.

O pesquisador de energia tcheco-canadense Vaclav Smil descobriu que a mudança para energia renovável consumiria grandes quantidades de terra, revertendo os benefícios da economia de terras da Revolução Industrial. Enquanto isso, o dinheiro para investir em energia solar ainda é gerado a partir de mão de obra barata e terra barata. O fato de os painéis solares terem se tornado recentemente menos caros é, em parte, porque eles estão sendo fabricados cada vez mais por mão-de-obra barata na Ásia.

Quando visto desta forma, talvez não seja de admirar que a energia renovável nem sequer tenha começado a substituir a energia fóssil, e só tenha sido adicionada ao ainda crescente uso de petróleo, carvão e gás. A energia solar ainda representa apenas cerca de 1% do consumo global de energia. Dificilmente afetou o uso global de energia para eletricidade, indústria ou transportes. E isso não pode ser atribuído ao lobby do petróleo, como é ilustrado pelo caso de Cuba. Quase toda a eletricidade da ilha ainda é proveniente de combustíveis fósseis. Obviamente, há algo de problemático na mudança para a energia solar que vai além da obstrução corporativa. Explicá-lo em termos de falta de capital ou em termos das vastas exigências de terra são dois lados da mesma moeda.

Eis o impasse da civilização moderna: o livre comércio promovido pela maioria dos economistas e políticos continua a impulsionar uma parte substancial das emissões de gases de efeito estufa que eles querem reduzir, e as tecnologias sustentáveis ​​que eles propõem para reduzir as emissões são em si mesmas dependentes do crescimento econômico, do livre comércio internacional e do uso de cada vez mais recursos naturais.

Então, como quebrar esse impasse? Os economistas poderiam começar reconhecendo que a economia não está isolada da natureza, assim como a engenharia não está isolada da sociedade. Os desafios globais de sustentabilidade, justiça e resiliência exigem um pensamento muito mais integrado.

Isso envolverá confrontar ideologias convencionais de progresso tecnológico e livre comércio. Em vez de proteger nervosamente o comércio mundial com suas crescentes emissões de gases do efeito estufa, temos todos os motivos para reconsiderar o que pode ser percebido como um verdadeiro progresso humano e de qualidade de vida. Em vez de políticas econômicas maximizando o crescimento econômico e o uso de recursos, a humanidade precisa desenvolver uma economia que esteja alinhada com as restrições da nossa frágil biosfera — e uma ciência da engenharia que leve em conta as desigualdades globais.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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