Como devemos protestar contra os neonazistas? Lições da história alemã

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Um defensor do presidente Donald Trump, no centro, discute com um manifestante contrário em um comício em Boston no sábado, 19 de agosto de 2017. AP Photo / Michael Dwyer

Tradução do texto How should we protest neo-Nazis? Lessons from German history de Laurie Marhoefer, professora assistente de História da Universidade de Washington.

Após o assassinato de Heather Heyer em Charlottesville, muitas pessoas estão se perguntando o que devem fazer se os nazistas se manifestarem em sua cidade. Deveriam colocar seus corpos em risco em contra-demonstrações? Alguns dizem que sim.

A história diz não. Acredite em mim: eu estudo os nazistas originais.

Temos uma obrigação ética de nos posicionar contra o fascismo e o racismo. Mas também temos uma obrigação ética de fazer isso de uma forma que não ajude os fascistas e os racistas mais do que os prejudica.

A história se repete

Charlottesville seguiu exatamente o manual nazista. Na década de 1920, o Partido Nazista era apenas um partido político entre muitos em um sistema democrático, concorrendo a cargos no Parlamento da Alemanha. Durante a maior parte desse tempo, foi um pequeno grupo marginal. Em 1933, surfando numa onda de apoio popular, tomou o poder e estabeleceu uma ditadura. O resto é bem conhecido.

Foi em 1927, ainda nas beiras da política, que o Partido Nazista agendou uma manifestação em um local decididamente hostil: o distrito de Wedding em Berlim. Wedding era tão de esquerda que o bairro tinha o apelido de “Red Wedding”, sendo vermelho a cor do Partido Comunista. Os nazistas muitas vezes realizavam comícios exatamente onde seus inimigos viviam, para provocá-los.

As pessoas de Wedding estavam determinadas a lutar contra o fascismo em sua vizinhança. No dia da manifestação, centenas de nazistas chegaram a Wedding. Centenas de seus oponentes também apareceram, organizados pelo Partido Comunista local. Os antifascistas tentaram interromper a manifestação, atrapalhando os alto-falantes. Valentões nazistas retaliaram. Houve uma grande briga. Quase 100 pessoas ficaram feridas.

Eu imagino que as pessoas de Wedding sentiram que tinham ganhado naquele dia. Elas enviaram corajosamente uma mensagem: o fascismo não era bem-vindo.

Mas historiadores acreditam que eventos como o comício em Wedding ajudaram os nazistas a construírem uma ditadura. Sim, a briga chamou a atenção da mídia. Mas o que era muito, muito mais importante, era como isso alimentava uma espiral crescente de violência nas ruas. Essa violência ajudou enormemente os fascistas.

Conflitos violentos com antifascistas deram aos nazistas a chance de se pintarem como vítimas de uma beligerante esquerda sem lei. Eles se aproveitaram disso.

Funcionou. Sabemos agora que muitos alemães apoiaram os fascistas porque estavam aterrorizados com a violência esquerdista nas ruas. Os alemães abriam seus jornais da manhã e viam relatos de confrontos como o de Wedding. Parecia que uma onda sangrenta de guerra civil estava crescendo em suas cidades. Eleitores e políticos da oposição chegaram a acreditar que o governo precisava de poderes policiais especiais para deter os esquerdistas violentos. A ditadura foi ficando atraente. O fato de que os próprios nazistas estavam fomentando a violência não parecia importar.

Um dos maiores passos de Hitler para o poder ditatorial foi obter poderes policiais de emergência, que ele alegou precisar para suprimir a violência esquerdista.

Milhares de tropas nazistas se manifestaram em um bairro comunista em Berlim em 22 de janeiro de 1933. Trinta e cinco nazistas, comunistas e policiais ficaram feridos durante os confrontos. AP Photo

A esquerda fica com a culpa

No tribunal da opinião pública, as acusações de desordem e caos nas ruas tendem, em regra, a permanecer contra a esquerda, não contra a direita.

Foi o caso na Alemanha nos anos 1920. Mesmo quando os oponentes do fascismo agiam em legítima defesa ou tentavam usar táticas relativamente brandas, como interpelar. Acontece nos Estados Unidos hoje, onde mesmo manifestações pacíficas contra a violência racista são taxados de tumultos em formação.

Hoje, os extremistas de direita estão ao redor do país realizando comícios como o de 1927 em Wedding. De acordo com a organização de defesa dos direitos civis, o Southern Poverty Law Center, eles escolhem lugares onde eles sabem que antifascistas estão presentes, como campi universitários. Eles chegam ansiosos pelo confronto físico. Então eles e seus aliados transformam isso em vantagem.

Uma manifestação no campus da Universidade de Washington, onde o comentarista de extrema-direita Milo Yiannopoulos fez um discurso na sexta-feira, 20 de janeiro de 2017. AP Photo / Ted S. Warren

Eu vi exatamente isso acontecer do meu escritório no campus da Universidade de Washington. No ano passado, um palestrante da extrema direita veio. Ele foi recebido por um contraprotesto. Um de seus apoiadores atirou num manifestante. No palco, momentos após o tiroteio, o palestrante de extrema direita alegou que seus oponentes haviam tentado impedi-lo de falar “matando pessoas”. O fato de que era um dos seus apoiadores, um extremista de direita e apoiador de Trump, que se envolveu no que os promotores agora alegam ter sido um ato de violência não provocado e premeditado, nunca chegou às notícias nacionais.

Nós vimos este mesmo filme em Charlottesville também. O presidente Donald Trump disse que houve violência “em ambos os lados”. Foi uma afirmação incrível. Heyer, um manifestante pacífico, e outras 19 pessoas foram intencionalmente atingidas por um neonazista dirigindo um carro. Ele pareceu retratar Charlottesville como outro exemplo do que chamou em outros lugares de “violência em nossas ruas e caos em nossas comunidades”, incluindo, ao que parece, Black Lives Matter, que é um movimento não-violento contra a violência. Ele despertou medoTrump disse recentementeque a polícia é muito limitada pela lei existente.

O presidente Trump tentou isso novamente durante os protestos em grande parte pacíficos em Boston. Ele chamou as dezenas de milhares de pessoas que se reuniram para protestar contra o racismo e o nazismo de “agitadores anti-polícia”, embora mais tarde, em uma característica reviravolta, elogiou-os.

As afirmações do Presidente Trump estão atingindo o alvo. Uma pesquisa da CBS News descobriu que a maioria dos republicanos achou que sua descrição de quem era culpado pela violência em Charlottesville era “precisa”.

Essa violência, e a retórica sobre ela vinda da administração, são ecos — ecos fracos mas ainda assim assustadores — de um padrão bem documentado, um caminho pelo qual as democracias se transformam em ditaduras.

O antifascismo

Há uma ruga adicional: o antifascismo. Quando os nazistas e os supremacistas brancos se manifestam, é provável que a antifa também apareça.

Antifa é a abreviação para antifascistas, embora o nome não inclua todos os que se opõem ao fascismo. A antifa é um movimento relativamente pequeno da extrema esquerda, ligado ao anarquismo. Surgiu na cena punk da Europa nos anos 80 para combater o neonazismo.

A antifa diz que, como o nazismo e a supremacia branca são violentos, devemos usar todos os meios necessários para detê-los. Isso inclui meios físicos, como o que eles faziam no meu campus: formar uma multidão para impedir que os portadores de ingressos entrassem em um local para ouvir uma fala da extrema direita.

As táticas dos antifa frequentemente saem pela culatra, assim como as da oposição comunista da Alemanha ao nazismo na década de 1920. As confrontações aumentam. A opinião pública muitas vezes culpa a esquerda, não importando as circunstâncias.

O que fazer?

Uma solução: marque um contra-ataque que não envolva proximidade física com os extremistas da direita. O Southern Poverty Law Center publicou um guia útil. Entre suas recomendações: Se a extrema direita organiza comícios, “organize um protesto alegre” bem longe deles. Peças às pessoas que eles marcaram como alvo para falar. Mas “por mais difícil que seja resistir a gritar com palestrantes de extrema direita, não os enfrente”.

Isso não significa ignorar os nazistas. Significa enfrentá-los de uma maneira que lhes negue uma chance de derramamento de sangue.

A causa pela qual Heather Heyer morreu é melhor defendida evitando o confronto físico que as pessoas responsáveis pela sua morte querem.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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