A política da pós-verdade

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“multicolored stair painting” by Randall Honold

Uma provocação: Quando foi que a política se baseou na verdade?

A política nasceu da arte do discurso, a retórica. Começou com os sofistas, sem nenhum critério de verdade senão a capacidade de convencer o maior número de pessoas. A ideia de verdade como crença verdadeira e justificada por uma correlação com a realidade que pode ser verificada e independe do seu poder de convencimento foi uma criação da filosofia, iniciada pelo “espanto” de filósofos diante do que era aceito cotidianamente por todas as outras pessoas. Foi a reformulação do que significava ser “sábio”, do que significa saber alguma coisa. Esse conceito serviu para criar as ciências. Mas que sociedade organizada conseguiu aplicar esse modelo de verdade na política?

De certo modo a política da pós-verdade é apenas a política sem sua fachada filosófica, sem a burocracia que lhe dá a aparência de legitimidade. É o retorno da política à sua “raiz” sofística, ilustrada pela frase “o homem é a medida de todas as coisas”. A política é feita à “imagem e semelhança” do homem. A filosofia que primeiro respondeu aos sofistas negou o homem, afirmou um estado metafísico além-humano, fora desse mundo. O conceito de verdade surge da negação tanto do mundo material quanto da poesia grega. Um ideal metafísico, que se manteve por paixão, pela admiração ao pensamento “exótico” dos filósofos contemplativos, que cativaram a imaginação das pessoas com suas reflexões.

Quando a política chegou a este continente, a civilização já estava em crise; já dependia de expansão inexorável do controle de território. O território a ser colonizado hoje é a subjetividade. Nós não tivemos um governo legitimado pela verdade até hoje. Provavelmente nunca teremos.

Quando foi que a política respeitou a verdade? O poder nunca dependeu de legitimação epistêmica. Os filósofos nunca chegaram ao poder (e não estou falando de pessoas formadas em filosofia). O conceito de verdade, assim como outros conceitos, sempre foi utilizado de modo retórico. Os teocratas utilizaram o conceito de Deus somente para manter os outros sob controle. Os juristas usaram o conceito de justiça para manter a ordem social sob controle de uma classe dominante. Seja justo para comigo, para que eu possa obter vantagem em agir injustamente com você. Verdade sempre quis dizer “trâmite correndo na normalidade do regulamento”. O governo precisa ter acesso aos bastidores da vida social (sua intimidade), a sociedade nunca terá acesso aos bastidores do governo.

O que eu quero dizer é que a política da pós-verdade é a verdadeira política. A política é, afinal, independente da verdade. A verdade, como crença metafísica, tentou controlar a política. Mas falhou, foi cooptada por políticos profissionais, que sabem usar conceitos para justificar seu discurso. A política verdadeira é a política da brutalidade, da lei do mais forte. A polis, único lugar em que pode haver política, é uma prisão onde há celas comuns e celas de luxo. A verdade nunca teve chance nesse ambiente controlado.

Se a pós-verdade é inevitável, e o fascismo é o resultado final de uma política sem verdade, deveríamos estar preocupados em construir uma sociedade sob bases completamente diferentes da polis, onde a verdade não seja um fim mas o começo, e a política não seja mais necessária. Contra a política pós-verdade, resta apenas a verdade pós-política ou anarquista, exemplificada nas comunidades que se organizam sem representação, em relação direta, face-a-face, sem hierarquia coercitiva e sem politicagem que, convenhamos, é a essência da política. Essa não-política talvez seja a política que queremos.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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