O que o anti-intelectualismo da InfoMoney revela sobre o discurso político dos economistas liberais

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Esta é uma resposta ao artigo: Ascensão de Bolsonaro: o cansaço das ideologias e o desejo de retorno ao senso comum

A esquerda por muito tempo acreditou que o ser humano é racional e que se parasse pra pensar no que está fazendo e no seu contexto social, o progresso poderia acontecer sem a necessidade de atrocidades e injustiças. Essa crença está ameaçada pela política baseada em manipulação de massas.

Segundo a InfoMoney, as pessoas se cansaram das “ideologias” e agora querem o “senso comum”, mas o que chamam de ideologia é, implicitamente, qualquer forma de reflexão política, enquanto o senso comum se confunde com um tradicionalismo moralista. A reprodução automática de fatos não verificados, factoides em grupos de família, vídeos de YouTubers e eventualmente um artigo escrito por um intelectual de direita. É a banalidade do mal, a propaganda conseguiu transformar todo mundo em Eichmann, simplesmente fazendo o que foi ordenado por um ideal de dever moral, por amor, ódio, fanatismo e medo. Seus bordões dizem: não pensem, só façam.

O pânico moral em relação ao comunismo é uma velha estratégia da direita. Se o Estado de direito foi imposto pelo monopólio do uso da força, o capitalismo laissez-faire é imposto pelo monopólio da interpretação da realidade. O anti-intelectualismo, marca da estratégia populista, chama o professor que instiga pensamento crítico de anti-povo, chama o manipulador que usa técnicas de propaganda de massa de “gente da gente”. Um é mal remunerado, desvalorizado e espancado se reclamar. O outro, que atende aos interesses de uma sociedade individualista e consumista, é exaltado.

A InfoMoney chega ao cúmulo de falar em “cartilha intelectual”. Invertem descaradamente a realidade. Utilizam todas as técnicas de propaganda de Edward Bernays e Goebbels. Se aproveitam da precarização da educação e instigam um ataque desinformado a um inimigo imaginário. Demonstram o medo de que a população se eduque de verdade e aprenda a pensar sozinha. Sabem que o controle social depende de pessoas que não refletem, que se guiam apenas pelo “pragmatismo” mais vulgar, pelos critérios quantitativos de eficiência. Em nome do que “funciona”, não importa a ética, vale eleger uma pessoa favorável à tortura. O que esperar de pessoas que não se importam se morrem rios, florestas, animais e índios, contanto que isso garanta crescimento econômico?

O artigo demonstra nitidamente no que consiste a aliança entre o liberalismo econômico e o conservadorismo moral. O conservadorismo é uma visão de mundo simplista, reduzida à infantilidade do maniqueísmo, esvazia a mente de toda sua potencialidade crítica e a substitui pela intensidade de uma posição dogmática, fundamentalista. No raciocínio distorcido dos autores, eles confirmam a inevitabilidade do conflito de classes numa sociedade desigual, porém canalizam essa revolta para os seus interesses, chamando para uma luta contra a “classe falante”, sugerindo que a classe dominante seria a dos intelectuais comunistas. Uma retórica patética que nega a realidade: grande parte dos professores são despolitizados, desmobilizados e conservadores. É um apelo puramente populista, não há outro termo.

Suas referências são Olavo de Carvalho, um sujeito entregue a teorias da conspiração, que chama qualquer opositor pelos nomes mais ofensivos que puder, como se isso fosse argumento. Ele é a maior amostra do anti-intelectualismo brasileiro. Mas aqui no Brasil, não é preciso estudar de verdade, basta falar o que agrada certos grupos no poder para ser imediatamente transformado em intelectual de grande porte.

Outra referência é um doutor em Antropologia com uma visão extremamente conservadora. Essa é a verdadeira carteirada, por ser um doutor ele já é tomado como referência mesmo quando está apenas expondo uma opinião desinformada ou apenas defendendo uma ideologia, sem nenhuma publicação relevante na área. Ele é o único com a permissão para se opor ao consenso da área. Basta dizer que a academia está contaminada pelo comunismo. Como é fácil estar certo assim: basta considerar que qualquer um que discordar está necessariamente errado, mesmo que seja uma área inteira. Basta um “dissidente” para dar chancela a qualquer maluquice.

A maior evidência da crise do liberalismo econômico é que a elite liberal recorre agora a qualquer conservador populista, por mais polêmico e controverso que ele seja, pra poder viabilizar suas políticas. Apelam para qualquer recurso retórico disponível que impeça a sociedade de limitar os lucros dos mais ricos. O nome disso é desespero.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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