Sociologia do conhecimento

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Uma resenha do livro A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento, de Thomas Luckmann e Peter Berger.

A sociologia do conhecimento de Berger e Luckmann analisa o processo de construção social do conhecimento, ou seja, considera que nosso conhecimento acerca da realidade é socialmente construído.

A sociologia não responde as questões filosóficas sobre o conceito de “conhecimento” ou de “realidade”, mas estuda o modo como algo é socialmente reconhecido como um conhecimento válido. Em outras palavras, a sociologia do conhecimento estuda como certo conhecimento chega a ser socialmente aceito como válido, independente de sua justificativa. Todo conhecimento humano desenvolve-se, transmite-se e mantém-se por meio de situações sociais.

O termo “sociologia do conhecimento” foi criado por Max Scheler no contexto intelectual da Alemanha dos anos 20. Mas o problema geral da sociologia do conhecimento não é novo. O pensamento marxista, o nietzscheano e o historicista são considerados antecedentes intelectuais imediatos. A sociologia do conhecimento de Marx tem sua raiz na afirmação de que a consciência do homem é determinada pelo seu ser social. Alguns conceitos chaves para essa área também são de Marx: o conceito de “ideologia” e de “falsa consciência”, assim como os conceitos de “infra-estrutura” e “superestrutura”.

O anti-idealismo de Nietzsche, assim como sua teoria do “ressentimento” também fizeram parte da atmosfera em que surge a sociologia do conhecimento. Já o historicismo, representado principalmente por Wilhelm Dilthey, contribuiu para se pensar a historicidade do pensamento humano, ou seja, o método histórico para explicar a construção social do pensamento. A sociologia do conhecimento de Scheler ajustou-se a esta orientação, gerando um método essencialmente negativo. A sociedade determinaria a presença, mas não a natureza das ideias. A sociologia só poderia estudar a seleção sócio-histórica dos conteúdos ideativos, mas não a causalidade sócio-histórica deles.

Posteriormente, Karl Mannheim expande a compreensão sobre a sociologia do conhecimento, afirmando que a sociedade não determina somente a forma, mas também o conteúdo da ideação humana, com algumas exceções. O método para o estudo do pensamento humano passa a ser positivo. Mannheim estabelece a distinção entre os conceitos de ideologia particular, total e geral. Neste último, o conceito de ideologia abrange quase todo o pensamento humano, afirmando que todo pensamento está sujeito à influência ideologizante do contexto social. “O conhecimento tem sempre que ser conhecimento a partir de uma certa posição”. Quanto mais perspectivas adicionadas, mais claro se torna o objeto do pensamento.

Na América, o sociólogo mais importante que deu atenção à sociologia do conhecimento foi Robert Merton. “Merton construiu um paradigma para a sociologia do conhecimento, expondo os temas mais importantes desta disciplina em forma condensada e coerente”. Talcott Parsons também deu sua contribuição. Outros autores que trataram do assunto foram Wright Mills, Theodor Geiger, Ernst Topitsch e Werner Stark. Este último vai além de Mannheim e reconhece que a tarefa da sociologia do conhecimento não é desmascarar distorções socialmente produzidas, mas o “estudo sistemático das condições sociais do conhecimento enquanto tal”. Em resumo, o interesse da sociologia do conhecimento está voltado às questões epistemológicas em nível teórico e às questões da história intelectual em nível empírico.

Estas questões não são próprias da disciplina empírica da sociologia, mas sim da metodologia das ciências sociais, e indagam filosoficamente sobre a própria sociologia. A sociologia do conhecimento deve ocupar-se com tudo aquilo que é considerado “conhecimento” na sociedade. O escopo mais “teórico” do conhecimento é produzido apenas por um grupo limitado de pessoas. “As formulações teóricas da realidade, quer sejam científicas ou filosóficas, quer sejam até mitológicas, não esgotam o que é ‘real’ para os membros de uma sociedade”. O foco central da sociologia do conhecimento deve ser o “conhecimento” do senso comum, pois ele é o mais central para uma sociedade.

Essa compreensão é devedora da obra Alfred Schutz, que se concentrou no sentido comum da vida cotidiana. Tomando por base conceitos e abordagens de Marx, Weber e Durkheim, a redefinição da natureza e alcance da sociologia do conhecimento a desloca da periferia para o centro da teoria sociológica.

As análises da sociologia do conhecimento se aplicam diretamente a problemas da sociologia da linguagem, da teoria da ação e instituições sociais, e da sociologia da religião. “Esta integração exige a sistemática consideração da relação dialética entre as realidades estruturais e o empreendimento humano de construir a realidade na história”. Uma sociologia puramente estrutural corre o risco de reificar os fenômenos sociais, confundindo suas próprias conceitualizações com as leis do universo.

A teoria deve relacionar-se de dupla maneira com os “dados” definidos como pertinentes para essa disciplina: “Deve ser congruente com ele e deve estar aparelhada para promover a pesquisa empírica”. Um exemplo é o uso de teorias derivadas da psicanálise por parte dos cientistas sociais. Essas teorias devem ser consideradas como proposições da “ciência”, mas “analisadas como legitimações de uma construção da realidade, muito particular e provavelmente muito significativa na sociedade moderna”.

Nesta concepção, a sociologia deve ser vista como uma disciplina humanista, sendo realizada em contínuo diálogo com a história e a filosofia, ou então perderia seu objeto de pesquisa: a sociedade como mundo feito por seres humanos, habitado por seres humanos e que produz seres humanos num contínuo processo histórico.

BERGER, Peter. LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 11-34, 242-247.

Autor: Janos Biro

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