Serena

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Uma resenha sobre o jogo Serena (2014), da Senscape.

Serena é uma obra interativa sobre amor, obsessão, ódio e a tênue linha que separa esses estados mentais.

Esta obra aborda esta questão usando uma mecânica simples: as descrições dos objetos mudam quando você os examina mais de uma vez. Toda interação se resume a examinar objetos e buscar, na memória, a resposta para a pergunta: “Onde está Serena?”. Não há quebra-cabeças, com exceção de um bem simples, embora quase imperceptível. As mudanças nas descrições representam mudanças nas reações do personagem, que indicam a passagem por diferentes estágios psicológicos de um processo de autodescoberta. Nada ao redor muda fisicamente, mas a cabine confortável se transforma em um lugar opressivo e assustador, porque a sua mente muda. Esse é o ponto que esta obra está tentando transmitir.

A plataforma é adequada para criar esse efeito dramático, uma vez que nos sentimos ligados às reações do personagem, tomando-as como nossas próprias reações. A transição entre segurança e horror é lenta e gradual, graças a uma narrativa fluída, o que é impressionante para uma obra interativa. Serena também brinca com a ideia de escorregar lentamente em direção à loucura. A interatividade colabora com esse objetivo, porque cada um pode experimentar esta transição em seu próprio ritmo. O jogo é gratuito e curto, e quem não ainda não jogou deve fazê-lo antes de prosseguir.

Há associações de estados mentais tão complexas nesse jogo que temos a impressão que se trata de um material de estudo sobre psicologia humana. A princípio, pensei nos cinco estágios do luto: Negação, Raiva, Barganha, Depressão e Aceitação. Mas Serena vai além disso. Não se trata de um luto, mas da tentativa de lidar com uma culpa que foi deliberadamente escondida em algum lugar da mente. Trata-se de um homem mentindo para si mesmo, tentando enganar-se sobre o que fez, no caso, ele matou sua própria mulher. Apesar disso, nos identificamos com ele por meio de sentimentos comuns a qualquer relacionamento. A vulnerabilidade, por exemplo, é explorada de modo a acobertar a raiva.

Mas atenção, este não é um jogo para qualquer um. Pode ser uma experiência perturbadora, que eu não recomendo para adolescentes e pessoas passando por dificuldades emocionais. Este é um horror de verdade, não é Resident Evil. Não possui cenas fortes, o que é pesado é o estado psicológico que ele nos induz a compreender, um estado doente e sem saída. Levem este conselho a sério, não joguem se não tiverem maturidade para lidar com os piores traços da psicologia humana. Apesar de ter jogado num dos momentos mais críticos da minha vida, eu consegui extrair algo interessante disso, mas admito que não foi uma boa ideia na hora. O jogo quase me abalou, e a princípio eu o rejeitei por completo, porque sou muito fraco mesmo. Só depois reconsiderei pela qualidade artística.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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