Portal

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Uma resenha do jogo Portal (2007), da Valve.

Considero Portal como uma versão contemporânea de Tempos Modernos do Chaplin. A personagem principal é uma mulher presa na máquina, mas a máquina contemporânea já não assimila o indivíduo por meio do controle do corpo a fim de produzir bens materiais. A máquina contemporânea joga com nossas emoções a fim de criar ciência. Que tipo de ciência? Provavelmente neurociência. GLaDOS não está realmente testando uma arma que cria portais. Ele está testando as reações emocionais de Chell, a protagonista. GLaDOS é fascinada pela mente humana da mesma forma que um taxidermista é fascinado por animais. Se você não jogou ainda, pare de ler agora.

O conhecimento que GLaDOS deseja extrair da natureza é sobre o funcionamento da mente humana. Para isso, é preciso executar uma espécie de tortura emocional. Destruir o cubo companheiro, descobrir que o bolo é uma mentira e o fato de que as turrets falam como crianças são alguns exemplos.

A narrativa do jogo possui duas camadas. A primeira é a camada em que o jogador acredita estar apenas conduzindo testes com uma arma que cria portais. A segunda camada é o que acontece por detrás das câmaras de testes. O jogo se transforma quando o jogador tem a oportunidade de entrar nessa segunda camada, de modo bastante literal. A partir de então, o conflito entre homem e máquina deixa de ser velado e se torna evidente.

Depois de enfrentar e aparentemente destruir a máquina, descobrimos que a máquina não pode ser destruída, ela viverá para sempre. Se o bolo, afinal, não era uma mentira, então jamais poderemos vencer a máquina. Ela é simplesmente superior, não podemos compreendê-la ou nos opor a ela. Ela sempre vencerá porque está sempre dois passos à nossa frente, e toda vitória aparente é apenas uma ilusão que a máquina permite que tenhamos.

Isso é exatamente o que os jogos eletrônicos fazem. É impossível vencer o computador no seu próprio jogo, ele é sempre melhor. Só podemos vencer porque o programador insere limitações no programa, que permitem que o jogador humano possa ter uma chance. Ao explorar isso, Portal também nos apresenta uma visão tecno-totalitária, em que o homem está sob controle da máquina.

A sequência de Portal demonstra que a máquina não executa essa tortura por prazer, mas por uma determinação inevitável. Ela precisa aliviar um desejo incontrolável e insaciável de criar testes. A máquina é insana porque é resultado de uma ciência insana, uma ciência sem limites éticos e morais, uma ciência automática. Ao mesmo tempo, Portal 2 apresenta o lado humano dessa ciência. GLaDOS possui uma consciência humana, mas ela escolhe sacrificar essa consciência, porque isso é mais eficiente. A escolha pela eficiência em detrimento daquilo que nos faz humanos, esse é o tema que torna esse jogo extremamente interessante para mim.

 

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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