Como ajudar as vítimas do fascismo

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Cartman exigindo simpatia no episódio Doubling Down de South Park (S21E07)

Ensaio sobre o efeito Doubling Down na política.

Falando sério agora: nós temos que nos preparar para lidar com uma enorme carga de culpa e vergonha vinda de pessoas que estão sendo enganadas pelo discurso de um sociopata extremamente popular. Esse efeito psicológico sobre as massas é, em si mesmo, suficiente pra desestabilizar a vida social no país.

Eu tenho pensando muito sobre isso. Precisamos parar de humilhar as pessoas que apoiam figuras populistas, por piores que sejam. De certo modo, a maioria delas são as vítimas, não as culpadas, de tudo que estamos vivendo.

Como South Park demonstrou no episódio Doubling Down, os apoiadores de Trump são como as vítimas de uma relação abusiva. Elas se agarram a Trump porque são lembradas o tempo todo do quanto foram ESTÚPIDAS em sua decisão, portanto CULPADAS pelo que acontecer, e o quanto deveriam se sentir ENVERGONHADAS disso. Mas inundadas de vergonha e culpa, elas provavelmente acabarão aceitando o abuso como uma punição justa, mesmo que essa associação seja feita apenas de modo inconsciente. Por outro lado, elas podem ser sentir acolhidas pelo próprio abusador, já que ele pelo menos não as julga, ele as aceita como são. Basta ele dizer: “Ei, errar é humano, todo mundo erra. Mas AQUELAS pessoas, que ficam criticando a mim e a você, elas se acham melhores, se acham superiores. Eu sou o único que te entende”. E assim, cada coisa abusiva que ele faz parece melhor do que ter que admitir que essas pessoas cheias de defeitos estão certas e que você deveria se sentir totalmente idiota por acreditar numa mentira tão ridícula.

Ninguém quer ser a imbecil da história, e nem todo mundo tem condições de encarar o fato que fez uma burrada FEDERAL, tão grande que pode causar a morte de diversas pessoas inocentes. A culpa é grande demais, e as pessoas precisam preservar um mínimo de orgulho sobre si mesmas. O cidadão médio já se encontra humilhado demais pra aceitar mais essa humilhação. E o que é pior, essa humilhação vem de universitários de humanas, maconheiros, gays, feministas e pessoas que o cidadão médio julga como moralmente deturpadas por não se encaixarem nos padrões de comportamento; por terem uma colocação tão ruim no mercado e geralmente dependerem dos pais pra viver; e ainda por serem arrogantes e acharem que são os únicos que sabem como a sociedade funciona. São pessoas com quem o cidadão médio realmente não se identifica, não convive, não compreende, e provavelmente não gosta mesmo.

Que reação podemos esperar de alguém sendo constantemente ridicularizado por defender algo que todos os seus iguais defendem? Esse tipo de erro não é exatamente individual, é de todo um grupo de pessoas que trabalha duro para sustentar uma família, é explorada no trabalho, ou tem uma admiração intensa pela pessoa que tem esse papel na família. E mesmo assim ainda tem que se conformar com o fato de que estava errada. Em geral, a única coisa que diminui uma sensação de culpa tão grande é pensar a MAIORIA também errou. Mas nesse caso, estar errada junto com todo mundo que pensa como você gera uma crise de identidade. Enquanto você pode aliviar a culpa individual pelo que um representante faz, o erro dele coloca em questão a legitimidade da sua própria auto-imagem: afinal, ainda há espaço no mundo para cidadãos de bem defensores dos valores tradicionais, ou estariam todos esses condenados à extinção?

Em tempos em que a política está intrinsecamente ligada à identidade, a simples oposição a um representante popular, não importa o quão educada seja, é tomada como um ataque pessoal. Qualquer crítica sugere que as pessoas foram burras de se deixar enganar por um discurso bonito, por mais que este tenha sido meticulosamente criado para enganá-las. Essa sugestão de ignorância alimenta a onda de ressentimento, fanatismo e intolerância. Não é pra passar a mão na cabeça de fascista, mas pense bem: como você espera viver numa sociedade em que cerca de 50% das pessoas se deixou levar por um discurso que você considera absurdo?

Se você não tem paciência para conviver com essas pessoas, se você acha que a única solução é condenar tais pessoas, que você não tem que se preocupar com o que elas sentem porque a culpa é delas, então por que está perdendo tempo acreditando em educação e igualdade? É incoerente. Ou nos impomos sobre essas pessoas, ou conversamos com elas. E se vamos conversar com elas, é melhor compreender o que elas pensam, e ter antes a intenção de ajudá-las, não de provar o quanto elas estão erradas, ou pior, o quanto elas são pessoas horríveis.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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