Comprando conhecimento

pirata

Escrito originalmente para um manifesto de editoras livres.

Copyleft  é sobre direito de cópia, mas é muito mais que isso. O copyright nos impede de multiplicar um conteúdo imaterial (informação) com nossos próprios meios materiais. Isso significa privatização da propriedade intelectual e livros somente para quem pode pagar por eles. Com o copyright, as únicas pessoas que podem multiplicar aquele conteúdo são os detentores do direito de cópia, as editoras. Elas irão dizer que o copyright é necessário porque precisamos pagar pelo trabalho do autor, mas o mercado editorial tem tornado isso cada vez mais ilusório. E se qualquer um pudesse produzir e reproduzir o livro que quisesse? Os autores perderiam dinheiro?

Sem entrar em detalhes sobre a distinção entre direito de cópia e direito autoral, há um valor que está acima de tudo isso: o valor do conhecimento. Conhecimento não se compra, porque conhecimento não tem dono. Como pode alguém ser dono de uma ideia? Um pão, a não ser que ocorra um milagre, não pode ser partilhado sem diminuir de tamanho. Mas quando se partilha uma ideia sempre ocorre o milagre a multiplicação. Uma ideia é um bem comum imaterial. Ser dono de uma ideia é como ser dono de uma solução e impedir que outros a usem para resolver um problema. É querer obrigar as pessoas a te darem crédito por ser a pessoas que traz à materialidade algo que na verdade foi produzido num esforço intelectual conjunto. Ninguém faz nada sozinho. O mérito individual é enganoso, a construção de um conhecimento é coletiva.

O mercado editorial está perdido, mas podemos criar editoras livres. Editoras produzem e reproduzem livros. Editoras livres fazem isso sem impedir ninguém de fazer o mesmo. Todos têm o direito de cópia. Todos podem, usando seu esforço e materiais, multiplicar o conteúdo de um livro para qualquer outro meio físico. O mercado editorial moderno facilitou a difusão em massa de livros, mas transformou em mercadoria o que antes era uma relação social. O livro se tornou o principal veículo de difusão de ideias, contra a expectativa de pessoas como Sócrates.

Independente disso, o mercado editorial hoje se encontra tão corrupto quanto qualquer outro mercado. A ideia das editoras livres é que os autores podem eliminar um intermediário bastante custoso, produzindo seus próprios livros de forma barata e tornando-se seus próprios publicadores. Cada livro produzido de forma aberta é mais que um livro: é uma semente de inúmeros livros que podem ser reproduzidos a partir dele. Assim como o código aberto representa uma vantagem para o desenvolvimento de diversas soluções eletrônicas, o mesmo poderia ocorrer com obras literárias.

Muitos autores não se atrairão pelo conceito de editora livre porque sonham em ter seus livros nas prateleiras dos “mais vendidos”, ou porque temem que sua obra seja roubada, ou simplesmente porque queriam ganhar dinheiro com seu trabalho, como forma de ter seu talento reconhecido. São bons argumentos, mas eu gostaria de outros argumentos a seguir.

Lugares de destaque nas prateleiras de livrarias são como horários de propaganda na televisão. Quer dizer que são compradas, não com seu talento, mas com seu dinheiro e estratégia de marketing. Isso significa que quando você compra um livro você também está pagando pelo preço de sua publicidade, que não é pequeno. E para quê? Para criar uma hierarquia de “mais vendidos”? Talvez você diga: “Eu lamento, mas é assim que as coisas são”. As coisas continuarão sendo como são apenas enquanto nós continuarmos aceitando-as.

Você não precisa ter direito de cópia para ter uma licença que impede a apropriação ou a modificação da sua obra. Ao publicar um livro por uma editora, você mesmo não tem o direito de cópia e distribuição. Ele é propriedade da editora, e por isso o autor perde o direito de reproduzir seu próprio livro!

Claro que todo mundo gostaria de viver num mundo onde escritoras fossem valorizadas. Mas vivemos num mundo onde quase nenhum trabalho básico é valorizado. A não ser que você alimente o consumismo, não ganhará muito dinheiro. Escrever é importante? Sim, tanto quanto lecionar, cozinhar, cantar e produzir arte. Professoras recebem uma miséria e quase nenhum reconhecimento. Como podemos mudar isso?

Editoras livres não são sobre “livros de graça”. São sobre mudar um modelo editorial baseado na ideia de que livros são apenas mercadorias. O que temos agora é um acesso restrito aos livros (somente alguns são lidos em grande escala, e lemos pouco) e pagamos caro por eles, sustentando uma indústria que só dá dinheiro e reconhecimento para alguns poucos autores “destacados”, que se enchem de vaidade. Como na indústria fonográfica, a qualidade das obras desses autores privilegiados muitas vezes é superestimada, enquanto outros menos conhecidos são subestimados. Mas, assim como na música, as vendas podem ser mantidas graças a estratégias publicitárias e fórmulas de produção. Precisamos de leitura como precisamos de música, mesmo que tenhamos que pagar por isso. As vendas sobem, a qualidade desce e os empresários lucram. Está na hora de mudamos isso.

No modelo das editoras livres, nós temos maior acesso aos autores. Nesse modelo, se uma obra é muito lida, é porque as pessoas gostam, não por causa do marketing. Também não estamos restritos pelo preço, podemos adquirir livros feitos sem custo extra, ou fazê-los nós mesmos. O fim da indústria editorial não é o fim dos livros, é a libertação dos livros da prisão mercadológica.

Se ler e escrever é tão importante para nós, porque pararíamos de fazê-lo se o mercado editorial acabasse? Na verdade, não precisamos desse mercado para nada. A distribuição livre não significa que você vai estar apenas doando seus recursos. Ela é possibilitado pelas pessoas dispostas e com condições de contribuir para que isso continue. Se metade do dinheiro gasto no mercado editorial alimentasse uma rede de editoras independentes, teríamos muito mais livros acessíveis disponíveis para todos.

Você pode dizer: Mas eu preciso receber o suficiente pelo meu trabalho, senão não poderei me dedicar a isso. Obras se perderão porque estarei preso num trabalho que odeio, desperdiçando meu talento literário. Mas a exploração do trabalho não deixa de existir só porque alguns se livram disso. É o dinheiro ganhando por esse trabalho alienante que mantém você produzindo. Precisamos libertar todas as pessoas desse trabalho que não permite tempo para fazer coisas como escrever, dançar, pintar, brincar, enfim, viver… E o acesso universal das pessoas à cultura é um dos meios para essa mudança.

A ética da partilha se trata de doar o melhor de si pelo bem comum. Em 2004 eu escrevi o livro que eu gostaria de ler e o disponibilizei para quem quisesse, pedindo apenas que a pessoa o passasse pra outra pessoa depois de ler. Algum tempo depois meu livro estava sendo distribuído no Brasil inteiro, e até mesmo fora do Brasil (foi traduzido para francês e espanhol por voluntários) e eu  estava recebendo pelo correio um monte de livros, revistas, zines, cartas e documentários em DVD de diversas pessoas agradecidas. Para mim foi a prova de que livros são melhores quando não são apenas objetos de consumo, mas sim manifestações de uma relação social.

Enquanto nós permanecemos comprando conhecimento, o conhecimento permanecerá como mercadoria, e como tal será privilégio de poucos, e não um bem comum. O modelo das editoras livres seria apenas parte de uma mudança geral da sociedade, mas sabemos que essa mudança não ocorrerá sem uma mudança de visão de mundo. Porque não se trata de um modelo organizacional mais rentável ou eficiente, mas sim de um modelo ético.

Se você acha que isso nunca dará certo, experimente tentar primeiro. Se você que lê este texto passar a dar mais valor à produção independente, à obra livre, à partilha e à doação, eu já terei ganhado minha recompensa pelo tempo que gastei escrevendo.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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