O campo de concentração

campo de concentração 1

Um pequeno conto escrito por Janos Biro.

Era uma vez um grupo de pessoas que foi colocado num campo de concentração. Essas pessoas ficaram presas e isoladas por tantas gerações que tinham até mesmo se esquecido do motivo pelo qual foram colocadas lá. Sem acesso ao seu passado, elas começaram a achar que viviam no campo de concentração desde sempre, e que nenhum outro tipo de vida é possível.

Apesar dos sofrimentos de um campo de concentração, elas se acostumaram tanto que começaram a tratar as cercas como proteções necessárias e benéficas. Começaram a tratar as restrições e proibições do campo de concentração como limites morais bons e justos. Os guardas também se esqueceram de como isso começou, e estes passaram a ser vistos não como inimigos, mas como membros de status elevados, cuja função é essencial para a organização e o funcionamento adequado da sociedade. Quando os guardas morriam, eram substituídos por outros.

Quando alguém perguntava se a vida humana foi sempre assim; se era possível viver fora do campo de concentração; se era possível viver sem cercas e guardas, o que as pessoas respondiam era: “É claro que não. Seria um caos se vivêssemos fora das cercas e sem os guardas para nos organizar. Lá fora é perigoso. Estamos bem melhor aqui”.

Então um dia alguém encontrou um diário muito antigo, que estava enterrado bem fundo na terra. As pessoas disseram que o diário era falso, não acreditaram nele. O diário descrevia a vida de alguém que viveu antes do campo de concentração. Havia liberdade, apesar de não ser uma vida perfeita, mas pelo menos as pessoas não viviam confinadas em pequenos espaços, obrigadas a fazer atividades pesadas, e todos podiam escrever poesia ou andar de bicicleta, não apenas os guardas. Mas as pessoas disseram: “Essas pessoas eram primitivas e atrasadas, não queremos voltar a viver como elas! Naquele tempo, antes dos guardas rasparem nosso cabelo, nós vivíamos cheios de parasitas asquerosos chamados ‘piolhos’. Ninguém quer ter piolhos, quer? É bem melhor com o cabelo raspado, e nem sequer suportaríamos ter cabelos novamente. Nós abandonamos essa vida atrasada, somos avançados agora, não podemos voltar atrás”.

Outras pessoas, porém, disseram: “Se nós vivemos em liberdade um dia, podemos viver novamente. Não precisamos das cercas e dos guardas, podemos viver de outra maneira”. E o que as pessoas responderam foi: “Vocês estão loucos? Como esperam sobreviver sem cumprir as regras do campo? Essas regras foram criadas para nosso bem. Imagine se parássemos de cavar as covas coletivas? Onde colocaríamos os cadáveres das execuções? E se parássemos com as execuções, como manteríamos as pessoas na linha? Vocês são preguiçosos e querem fazer bagunça, essa proposta é completamente absurda”.

Muito bem, essa estorinha foi ótima, mas a hora de contar estórias acabou. Agora volte para sua cela.

campo de concentração 2

 

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

Uma consideração sobre “O campo de concentração”

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