A palavra não dita

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Resenha do livro O Espelho no Espelho: Um Labirinto (1986), de Michael Ende.

O alemão Michael Ende é mais conhecido por ter escrito A História sem Fim, um dos mais famosos livros de fantasia infanto-juvenil da Alemanha. Espelho no Espelho, no entanto, é uma obra para adultos. É uma seqüência de construções simbólicas que mais parecem sonhos, mas que se interligam de maneira sutil. O livro é, como diz o subtítulo, um labirinto. É um romance, embora seja aparentemente composto de contos curtos que não parecem estar ambientados no mesmo universo. A pessoa que lê pode chegar até o último capítulo com a impressão de que se trata de um livro de contos que não podem fazer parte de uma mesma história. Além disso, os capítulos não são numerados nem possuem um título. A única coisa que indica que se está em outro capítulo é a primeira frase escrita em letras maiúsculas. A ideia do autor parece ser realmente construir um labirinto de ficções surreais, descritas com vivacidade, e seguindo estilos literários diferentes.

Michael Ende é o filho de Edgar Ende, pintor surrealista que se retirava para um quarto escuro para obter sua inspiração. Quando ele voltava, dizia ter uma imagem em sua cabeça, fruto de um estado que ele descrevia como “o momento anterior à razão”. Assim, ele buscava pintar cenas que se passavam no limiar da sua própria consciência.

Michael Ende pretende fazer algo semelhante em seus livros. Em Espelho no Espelho isso fica bastante explícito. Ele está criando uma experiência linguística que pode ser descrita como a tentativa de dar à leitora uma imagem que só pode ser acessada por um estado limiar da consciência. Para isso, o autor faz uma composição literária ousada: ele quer que a leitora se veja dentro do livro, como Bastian faz em A História sem Fim. A personagem principal não é uma pessoa real, mas a persona da leitora enquanto esta sonha. Ela não tem uma descrição definida, mas descreve seu mundo com riqueza de detalhes. Assim, a personagem seria um conjunto de sentimentos humanos expressados por simbolismos oníricos.

Ao invés de nos identificar com a personagem, temos a impressão de que a personagem é fruto da nossa própria mente, produzido enquanto dormimos, e que suas narrativas são sonhos que tivemos, mas dos quais nos esquecemos. Por isso o livro transmite a ideia de que só a própria leitora pode completar o livro, com algo que somente ela pode saber. Na tentativa de conduzir a leitora a essa descoberta, o autor mistura linguagem figurada e literal de tal forma que não é mais possível distingui-las.

A primeira parte é narrada pelo único personagem com um nome: Hor. Ele vive em completo isolamento, não ouve nada senão seus próprios ecos. Com quem ele fala, senão com ele mesmo, que é a pessoa que lê? Enquanto lê o livro, a leitora se encontrará andando num labirinto, como Hor. A realidade do livro se transforma a cada novo capítulo, cada novo sonho.

É claro que o autor não deixa de colocar suas preocupações pessoais no texto. A mais significativa destas preocupações talvez seja a crítica ao modelo econômico capitalista. Numa das estórias, o personagem é um bombeiro que encontra uma catedral feita de dinheiro. Ele tenta apagar as velas para evitar um incêndio, mas não consegue. No altar da igreja ocorre o milagre da multiplicação do dinheiro, e os fiéis são chamados de acionistas. Ao bombeiro é oferecida uma ação, que ele nega. É então chamado de herege e linchado pelos fanáticos.

Mas a causa de todos os problemas parece ser a falta de uma simples palavra. Num dos capítulos, há um grupo de saltimbancos que está peregrinando pelo mundo em busca de uma palavra perdida. Eles eram atores que encenavam uma peça capaz de manter o mundo unido. Mas eles perderam uma palavra, e sem essa palavra a peça perdeu o sentido, e o mundo começou a se fragmentar. Segundo o texto, “Ninguém a havia roubado, nós tampouco a esquecemos. Ela simplesmente não estava mais lá”. Não se trata de uma palavra qualquer que o autor pretende fazer a leitora descobrir, mas um conceito essencial para resolver o que ele considera ser uma crise global real.

Há outras partes que se referem a tal palavra não dita. Uma delas é especialmente relacionada a um quadro do pai do autor. Há um patinador no céu, escrevendo uma palavra nas nuvens, mas as pessoas não reconhecem a palavra e não se importam com ela. Ainda em outra estória, o personagem passeia por uma coleção de quadros, cada quadro diz uma palavra, mas um deles não diz nada. A personagem pergunta a outra personagem:

– Por que está calado?

– Ele já falou – respondeu ela.

– Porque eu não escutei?

– O senhor escutou muito bem. Mas só encontrará o dito em sua recordação.

– Mas eu gostaria de ouvir agora mesmo!

– Senhor – disse a moça em voz bem baixa, – como poderia tal acontecer enquanto o senhor deseja? Não desejar não faz diferença. Não fazer diferença significa olhar para o invisível e ouvir o que não foi dito.

Há uma teoria sendo exposta em forma de arte literária. Um dos pressupostos dessa teoria é que os bons autores não passam diretamente sua mensagem, mais deixam a leitora construir uma mensagem própria. A pessoa que lê hesita em pensar por si mesmo, e é isso que foi perdido. A palavra não dita, aquela que dá sentido a todo o texto, sempre esteve com a leitora, mas ela deve ser incentivada a procurá-la e dizê-la.

Em A História sem Fim o autor também dá uma lição sobre como ler livros, enquanto nos instiga a escrever nossos próprios livros. Bastian, o personagem principal, também lê um livro chamado “A História sem Fim”. Na verdade, é exatamente o mesmo livro que temos em mãos enquanto estamos lendo. O livro contém a si mesmo, e Bastian está contido dentro do livro, mas a princípio não se percebe como personagem, somente como leitor. Ele hesita em dar um nome à imperatriz, porque não acredita no seu poder de criação, como um leitor que também pode ser um coautor. Por isso, ele lê uma história sem fim, até perceber o que estava lá desde o começo: que o tempo todo, a verdadeira história era sobre ele, e só ele pode renovar o sentido do texto e salvar Fantasia.

Espelho no Espelho também trata dessa hesitação. Ele descreve a lenta jornada da pessoa que lê e que precisa compreender-se como participante ativo da história; a única que pode dar sentido a ela; a única que pode completá-la com a palavra que ela não diz. Enquanto isso, a leitora testemunha os males provocados pela ausência dessa palavra. Em A História sem Fim esse mal é apresentado de modo direto como sendo o Nada. Mas em Espelho no Espelho, esse mal é apresentado de modo muito mais sutil e perturbador. Além disso, esse mal é relacionado aos próprios males sociais da sociedade de consumo, à guerra e à angústia existencial. Alguns personagens irão tentar envolver a leitora em suas tramas, para convencê-lo de que aquilo é só uma história, não é real, e portanto não é importante. Outros personagens irão tentar fazer o oposto, abrir os olhos da leitora para o fato de ele está olhando para si mesmo, como num espelho, e que esse espelho reflete algo real, e portanto a história é real, e a necessidade de intervenção da leitora é real e urgente. Como o que ele vê a princípio não é a si mesmo, mas somente estórias fantasiosas, ela deve ser como um espelho olhando para outro espelho. O que ela vê parece o vazio da escuridão infinita, mas em cada camada de idas e vindas, é para si mesmo que ela está olhando quando olha para o outro.

Autor: Janos Biro

Você não existe, e eu também não.

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